Francesca Jones/The New York Times
Francesca Jones/The New York Times

O retrato de Francis Bacon no leito de morte feito por um escritor

Novo romance de Max Porter imagina os últimos dias de um pintor que compartilha sua obsessão com a mortalidade

Joe Marczynski, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2021 | 05h00

Max Porter é um escritor que passou muito tempo pensando na morte. "Eu diria que sou uma pessoa obcecada pela morte, ou preocupada com a mortalidade", disse ele recentemente em uma entrevista por vídeo de sua casa em Bath, na Inglaterra.

Sua estreia em 2015, Luto sem Medo, acompanha um professor universitário e seus dois filhos pequenos depois do falecimento da esposa/mãe, não identificada. Enquanto estão de luto, um enorme corvo se muda para a casa deles para orientá-los e hostilizá-los. Em Lanny, seu segundo livro listado no Booker Prize, uma criança desaparece no interior da Inglaterra, dando início a uma caçada paranoica.

Em seu último romance, The Death of Francis Bacon (A morte de Francis Bacon, em tradução livre), Porter voltou sua atenção para um artista que compartilhava seu fascínio mórbido.

A arte de Bacon é caracterizada por imagens de rostos gritando, corpos grotescamente contorcidos e crucificação. Uma de suas obras mais famosas, Triptych May-June 1973, retrata seu amante recentemente falecido, George Dyer, morrendo no banheiro.

Porter explicou que os temas sombrios de sua escrita também foram influenciados pela tragédia. "Eu localizaria isso na minha infância, com a morte de um dos pais." Ele disse que tinha seis anos quando seu pai morreu.

Revelou que na adolescência foi atraído por temas sombrios – "a morte, a bomba, o corpo e o Holocausto" – e não é de admirar que a pintura de Bacon o tenha fascinado. Contou também que, aos 17 anos, pintou várias cópias de Bacon para uma aula de arte do ensino médio.

O livro que Porter produziu, 20 anos depois, não é uma lição de história da arte ou uma cronologia da vida de Bacon. Em vez disso, The Death of Francis Bacon é uma reimaginação experimental do curto período antes da morte do pintor em Madri em 1992.

O romance é dividido em sete capítulos, que Porter descreveu como "pinturas escritas". Em cada um deles, visualiza os pensamentos de Bacon enquanto este jaz no leito de morte, assombrado por seu legado enquanto sua mente se fragmenta.

Em abril de 1992, aos 82 anos, Bacon, que sofria de asma, viajou de Londres à Espanha. O médico o havia aconselhado a não ir, mas Bacon queria renovar seu relacionamento com o ex-amante José Capelo, banqueiro que ele tinha pintado várias vezes. "Foi uma espécie de última aposta. Uma tentativa desesperada de reacender o amor", observou Michael Peppiatt, historiador da arte, biógrafo e amigo de Bacon.

Pouco depois de sua chegada, o artista foi internado na Clínica Ruber, instituição particular administrada por freiras. Porter mistura um diálogo inventado entre Bacon e sua enfermeira, a irmã Mercedes, com um monólogo de fluxo de consciência do próprio pintor, repleto de referências a figuras de sua vida. Não há enredo ou exposição óbvia, e as referências nunca são explicadas.

Porter disse que jamais escreveria um romance convencional, com histórias de personagens ou uma narrativa linear. "Outras pessoas fazem isso muito melhor do que eu, e esse não é o tipo de livro que quero escrever." Mistura verso e prosa para criar livros que não são exatamente poemas, mas também não são romances no sentido tradicional.

Porter comentou que, por causa dessa ambiguidade, achava que Luto sem Medo nunca seria publicado. Quando o escreveu, trabalhava como diretor editorial da editora Granta. A intenção era ser um experimento, "uma investigação privada sobre a forma, a poesia e o luto".

Estudo afetuoso da perda, contado do ponto de vista de seus personagens enlutados, Luto sem Medo também apresenta passagens da consciência de um enorme pássaro barulhento. Com pouco mais de cem páginas, não era um best-seller internacional óbvio.

Apesar disso, Porter entregou o manuscrito a Hannah Griffiths, amiga que trabalhava como editora na Faber and Faber. Griffiths contou ter lido o manuscrito fino de uma vez só, em uma viagem de trem. "Eu não conseguia acreditar na audácia daquilo. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo com meu coração." Saiu do trem em prantos, ligou para Porter e lhe disse: "Realmente, quero publicar isso aqui."

O livro foi lançado em setembro de 2015 e ganhou o Prêmio Dylan Thomas para jovens escritores no ano seguinte. Desde então, Luto sem Medo foi traduzido para 27 idiomas e adaptado para o palco pelo dramaturgo irlandês Enda Walsh. A peça, estrelada por Cillian Murphy, estreou em Galway, na Irlanda, em 2018, antes de fazer temporada em Dublin, em Londres e no St. Ann's Warehouse, no Brooklyn.

Em uma troca de e-mails, Murphy descreveu o desenvolvimento do espetáculo como um esforço colaborativo. "Max e Enda tinham uma compreensão particularmente forte, que serviu de base para a adaptação do livro feita por Enda. E Max foi extremamente generoso e impreciso com seu trabalho."

A adaptação manteve muito do estilo de prosa de Porter, que Murphy observou ser bastante adequado para o palco. "As palavras são absolutamente lindas de dizer. Como todo texto bem escrito, quanto mais você o diz, mais ele revela."

O segundo lançamento de Porter, Lanny, tem muita semelhança com seu livro de estreia. Ambos os romances tratam da perda, contada de múltiplos pontos de vista de uma única família, e apresentam uma presença observadora onipotente e atemporal. Desta vez, no lugar de um corvo, somos apresentados a Dead Papa Toothwort, criatura mítica da floresta que se esconde nas sombras, observando o drama.

Tal como o ritmo staccato dos capítulos com o corvo, a voz de Dead Papa Toothwort também é frenética, com sua narração interrompida por digressões erráticas. Essas interrupções são expressas por meio de uma composição tipográfica irregular, com palavras se entrelaçando e serpenteando pela página.

Essas seções caóticas ecoam o conteúdo dos cadernos de Porter, nos quais nascem as ideias para seus romances. Cada livro é preenchido com esboços de salas, de personagens, de frases e de blocos de texto aleatórios. Ele contou que, ao desenvolver The Death of Francis Bacon, fazia anotações nos cadernos enquanto estudava reproduções do trabalho do pintor. "Durante três meses, não fiz nada além de estudar quadros de Bacon todo dia."

Isso foi no ano passado, durante o primeiro bloqueio por conta do coronavírus na Inglaterra. Segundo Porter, foi um período intenso para ficar recolhido, escrevendo sobre a morte e pensando nela à sombra da pandemia. Também acrescentou que aceitava bem a agitação frequente de seus dois filhos pequenos. "Quero vida fluindo por esta sala. Não quero uma caixa fechada."

Em meio à escuridão do livro, Porter encontrou espaço para a leviandade, quebrando o clima com frases divertidas: Bacon frequentemente se refere a si mesmo como "porquinho", com uma "barriguinha de linho"; o queixo de alguém está "preso como um bolinho entalado". "Ao escrever The Death of Francis Bacon, evitei me levar a sério demais. Só porque algo é desolador não precisa ser deprimente. Vale a pena rir do absurdo da vida moderna, porque o que mais podemos fazer?"

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