Charles Platiau/Reuters
Charles Platiau/Reuters

Decisão para finalistas do prêmio Goncourt se torna um escândalo literário em Paris

Uma das pessoas do júri mantém relacionamento com autor de um dos livros indicados

Norimitsu Onishi e Constant Méheut, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 17h51

PARIS – As calçadas de Paris já estavam cobertas de castanhas caídas das árvores quando finalmente irrompeu o primeiro escândalo literário da temporada.

Geralmente, as editoras francesas lançam seus livros mais promissores em setembro, quando começam a competir por prêmios, deixando o mundo das letras envolto na versão parisiense do Campeonato Mundial de MMA.

Esta temporada vinha se desenrolando tranquilamente – de forma incrivelmente pouco natural, como brincaram alguns observadores literários –, até que surgiu um problema com um dos grandes prêmios literários da França, conhecido por sua probidade: o Goncourt, que vem ditando o padrão de qualidade dos romances franceses há 118 anos, e cujos laureados incluem Marcel Proust, Simone de Beauvoir e Marguerite Duras.

Tudo começou quando os dez jurados do Goncourt se reuniram em um almoço de pato assado com cereja e garrafas de Château Maucaillou 2015 para apresentar a lista de indicados. Acontece que o autor de um dos livros candidatos é parceiro romântico de uma das juradas, Camille Laurens, romancista e crítica literária do Le Monde. De fato, o livro foi dedicado a certa "C.L.". Ainda assim, o júri decidiu indicar o livro ao prêmio, em uma votação que se encerrou em sete a três. Laurens estava do lado da maioria.

Se uma decisão semelhante tivesse sido proferida pelo júri de algum dos outros grandes prêmios literários da França – que vêm sistematicamente rejeitando reformas para que se tornem mais justos e transparentes –, provavelmente não teria causado comoção. O Goncourt, porém, era diferente; mudanças feitas desde 2008 o haviam tornado, sem dúvida, mais honesto e confiável.

Mas a pessoa que liderou essas mudanças – Bernard Pivot, figura emblemática no mundo dos livros da França, conhecido por sua retidão – se aposentou da presidência do Goncourt no fim de 2019. Nos cafés de Saint-Germain-des-Prés, o reduto da classe literária francesa na Rive Gauche (a margem esquerda e artística do Rio Sena), tem-se discutido se essas mudanças vão sobreviver à saída de Pivot.

Falando pela primeira vez do escândalo, Pivot disse que estava "atônito" e "chocado" com a decisão do Goncourt de incluir o livro em questão na lista de indicados. "É óbvio que, como presidente da Academia Goncourt, eu não teria concordado em incluir na lista o livro de algum marido, alguma esposa ou amante. O bom senso dita que não se inclua na lista um livro cujo autor é próximo de um dos membros da Goncourt", declarou Pivot em entrevista, em tom inflamado.

Há muita coisa em jogo. Anunciado em novembro, o romance vencedor do Goncourt automaticamente se torna o presente de Natal padrão. O vencedor do ano passado, L'Anomalie (A anomalia, em tradução literal), vendeu mais de um milhão de cópias, número considerado astronômico para a França.

No ano passado, o conluio entre os grandes júris literários da França ganhou destaque quando alguns jurados do Renaudot, o segundo prêmio mais prestigioso do país, reconheceram ter premiado um autor pedófilo em 2013, Gabriel Matzneff, porque eram seus amigos e queriam animá-lo enquanto ele atravessava uma má fase.

No Renaudot, assim como em outros prêmios importantes, os jurados abertamente fazem campanha em favor de livros nos quais têm interesse pessoal ou profissional. Alguns juízes trabalham como editores em grandes editoras e defendem obras publicadas por seus empregadores – ou que eles mesmos editaram.

Antes das reformas, o Goncourt também era chamado por alguns críticos de "máfia do Goncourt", lembra o atual presidente do júri, Didier Decoin, jurado desde 1995.

Mas, sob o comando de Pivot, o Goncourt introduziu grandes mudanças: os jurados não podem mais ser funcionários de editoras e o posto não é mais vitalício. Agora, têm se aposentar aos 80 anos e devem efetivamente ler os livros candidatos.

Quando os jurados se reuniram para almoçar no Drouant, restaurante de Paris que é sede das reuniões do júri desde 1914, foi compilada uma lista de 16 romances. Mas um dos títulos exigiu um voto especial: Les Enfants de Cadillac (Os filhos de Cadillac, em tradução livre), cujo autor é François Noudelmann, parceiro de Laurens. Sete jurados ergueram a mão e confirmaram não ver conflito de interesses no caso, em parte porque Laurens e Noudelmann não são casados nem vivem em união estável.

Em entrevista por e-mail, Laurens, jurada desde o ano passado, garantiu que tinha sido sincera quanto a seu relacionamento e que nunca havia incentivado os outros jurados a ler o livro.

Ainda assim, alguns membros do júri, inclusive seu presidente, Decoin, ficaram surpresos quando ela deu seu voto. "Achei que ela não fosse participar da votação. Mas então ela votou. É bizarro, mas é problema dela", comentou Decoin, que fez parte da minoria de três jurados.

Philippe Claudel, secretário-geral do júri e parte do grupo majoritário que aprovou a indicação, disse que nenhum regulamento interno impedia Laurens de votar: "Na minha opinião, não se pode culpar Camille Laurens por quebrar uma regra que não existe." Ele acrescentou que também nenhuma regra a impedia de fazer o que fez em seguida.

Nove dias depois que o Goncourt divulgou sua lista de indicados, Laurens publicou uma crítica de outro livro da lista em sua coluna no Le Monde: La Carte Postale (O cartão-postal, em tradução livre), de Anne Berest. Foi um rebuliço no meio literário, porque La Carte Postale era considerado um concorrente direto do livro de seu companheiro, Les Enfants de Cadillac. Os dois romances tratam de temas semelhantes – exilados judeus na França e o Holocausto –, mas La Carte Postale havia recebido elogios generalizados da crítica e do mercado, enquanto Les Enfants de Cadillac atraíra pouca atenção.

A crítica de Laurens também chamou a atenção por causa de sua "brutalidade inédita", de acordo com a France Inter, emissora de rádio pública, e a primeira a expor o conflito de interesses. A revista semanal L'Obs afirmou que a crítica descambou para um ataque pessoal contra Berest, descrevendo a autora como "especialista no chic parisiense" e como que entrando em uma câmara de gás com seus "grandes tamancos de sola vermelha". Laurens escreveu que "o livro é a Shoah para idiotas".

Em seu e-mail, Laurens garantiu ter escrito a crítica antes que o Goncourt fechasse sua lista de indicados. Afirmou que é uma "crítica independente" e que está sendo atacada por ser mulher. "Não é a primeira vez que escrevo uma crítica mordaz de algum livro. E, mais uma vez, percebo que meus argumentos nunca são levados em consideração e que as pessoas preferem dizer que sou 'brutal' e 'cruel.'"

Mas Jean-Yves Mollier, especialista na história editorial francesa, apontou que a crítica faz parte de uma competição consagrada pelo tempo na batalha por prêmios literários. "Ela simplesmente assassinou um dos candidatos."

Decoin afirmou que tentará criar uma regra para exigir a abstenção de qualquer jurado que tenha algum conflito de interesses. Claudel declarou que concorda, mas reforçou que os atuais jurados estão tão comprometidos com a ética quanto Pivot: "Bernard Pivot é um excelente exemplo de moralidade e acho que todos os outros participantes também são. Seria extremamente inapropriado dizer que a moralidade é patrimônio de uma única pessoa."

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