Nathan Bajar/The New York Times
Nathan Bajar/The New York Times

Escritora imigrante e sem documento é finalista em prêmio de literatura nos EUA

Karla Cornejo Villavicencio, finalista do National Book Award com 'The Undocumented Americans', fala da imigração, de sua abordagem não convencional da não ficção e do motivo pelo qual a síndrome do impostor não a incomoda

Concepción De León, The New York Times - Life/Style

18 de novembro de 2020 | 05h00

Karla Cornejo Villavicencio nunca quis fazer algo tão cliché como escrever sobre a imigração. Mas quando estava no final do curso em Harvard, escreveu um ensaio anônimo para o The Daily Beast sobre o fato de não ter documentos. Logo agentes literários pediram-lhe um livro de memórias.

“Aquilo me ofendeu de verdade”, disse Karla, hoje com 31 anos, “porque não tinha a ver com a minha escrita. Eu sabia que não era por isso que eles estavam entrando em contato comigo”.

Somente no dia depois das eleições de 2016, sentindo-se traumatizada pelos resultados, sentiu que estava pronta. Precisava fazer alguma coisa, ela pensou, para dar voz a milhões de pessoas que vivem nos Estados Unidos ilegalmente, que, como ela, tinham medo do que poderia acontecer com um presidente como Donald Trump.

O resultado foi The Undocumented Americans [Americanos sem Documento, em tradução livre], publicado em março, em que Karla Cornejo Villavicêncio faz a crônica de sua história sobre a imigração; e o papel de herboristas e curandeiros em Miami.

Seu livro é finalista do National Book Award na categoria de não ficção - é a primeira vez que uma pessoa em situação irregular é candidata a este prêmio, segundo a National Book Foundation. Um dos seus objetivos ao escrever foi opor-se às caricaturas unidimensionais do latinx (pessoas de identidade latino-americana) e das pessoas ilegais. Também quis desviar o foco dos sonhadores, como ela, para falar dos imigrantes mais velhos, que segundo ela são muitas vezes apagados ou são reduzidos à descrição de sua profissão.

Karla nasceu no Equador em 1989 e foi levada aos Estados Unidos para encontrar os pais, anos mais tarde. Cresceu no Brooklyn e no Queens e atualmente vive com a sua parceira, Talya Zemach-Bersin, em New Haven, Connecticut, onde está concluindo o doutorado em Estudos Americanos, em Yale.

A seguir, virá um romance de uma jovem adulta baseada de certo modo nos anos de sua adolescência em Nova York, e ainda uma coletânea de ensaios sobre cultos, na qual está trabalhando com a sua editora, Chris Jackson, da One World.

Por algum tempo, Karla pensou que estaria prestes a conseguir legalizar a sua situação. Obteve uma licença para trabalhar graças ao programa Deferred Action for Childhood Arrivals, DACA, e um green card temporário quando casou com Talya Zemach-Bersin. Mas o green card expirou, e brigar com o serviço de imigração dos EUA significaria que o processo de renovação se tornaria incerto.

“Estava caminhando lentamente para sentir-me livre, e agora estou regredindo”, ela disse. “Isto só mostra a precariedade da situação dos ilegais”.

No mês passado, em duas entrevistas, ela falou da história que precisava contar, do custo que isto representou para ela e de sua relação complicada com o sonho americano. Abaixo estão alguns trechos das nossas conversações.

P - Por que motivo você decidiu escrever este livro?

R - Li muito James Baldwin. Ele disse especificamente: “Não quero fazer isto. Estava morando em Paris. Isto começou a acontecer nos EUA. Agora eu preciso fazer o meu acerto de contas”.

Poderia ter optado por não escrever sobre estas coisas, e minha saúde mental estaria muito melhor do que está hoje, mas minha função era voltar para trás. É engraçado porque quando você é uma jovem de cor e imigrante e cresceu na comunidade, toda a narrativa sobre a sua vida, desde a infância, está desaparecendo. E nesse momento decidi, 'Não, preciso me reconectar'.

James Baldwin tentou o suicídio várias vezes, e isto teve um custo para ele, mas estas coisas não é algo a que nos referimos frequentemente ao pensar em James Baldwin. Acho que é importante admitir o custo que constitui ser a testemunha, ser a pessoa que conta estas histórias, o custo para os artistas de cor e para estas comunidades.

P - Você é muito franca no livro quando fala de suas lutas com a saúde mental. Por que é tão importante para você incluir isto?

R - Acho que o significado da minha vida é fazer com que as outras pessoas sofram menos. É algo que foi crescendo desde quando eu era mais jovem e pensava nos meus pais. Agora sei que eu não posso consertar os problemas deles. Não posso acabar com os traumas dos meus pais. Mas posso influenciar pessoas mais jovens que olham para mim, e posso fazer com que sofram menos.

P - Você falou do fato de sustentar financeiramente sua família. Como você se sente em relação ao dinheiro? E como conciliar esta necessidade com a sua carreira e os seus sonhos?

R - Ainda estou tentando imaginar como. Sinto que é minha responsabilidade tomar conta dos meus pais até eles morrerem, e sei que compartilho isto com muita gente.

A maior parte do dinheiro, descontados os impostos, destina-se a imigrantes - para minha família e as meninas que tomo conta e para a comunidade, e não apenas para as pessoas que precisam de ajuda. Por algum tempo, quando me dei conta de que alguém não tinha documentos e trabalhava em um restaurante eu pensava no meu pai, e deixava uma gorjeta de US$ 100, toda vez, porque sentia uma espécie de culpa.

Embora eu também seja ilegal, tenho autorização para trabalhar. Não sei quando irá expirar - a USCIS (Serviço de imigração e cidadania dos EUA) está falindo, mas no tempo que eu tenho, posso ganhar dinheiro escrevendo sobre pessoas ilegais. Isso parece um pouco grosseiro. Então, acho que uma parte do dinheiro deveria voltar para a comunidade. De outro modo não seria ético da minha parte ganhar a vida escrevendo sobre ilegais.

P - Você poderia ser a garota propaganda do “sonho americano”. Mas você questiona essa ideia no livro. Por que você quer mudar esta narrativa?

R - Acho que as pessoas deveriam ter sua própria relação com o sonho americano, não deveria ser algo que se acha  escrito em uma almofada. Acho que muitos “bons” imigrantes que “fizeram a coisa certa”, que são imigrantes modelos, têm uma visão muito estreita do sonho americano que espalharam por aí como um evangelho. Acho que o sonho americano precisa ter um significado diferente para cada imigrante. É uma coisa pessoal.

De acordo com a minha experiência, de alguém que foi abençoada por atravessar este processo, vejo o preço que tive de pagar. O que eu tive foi muita sorte. Foram muitos detalhes que não dependeram de mim.

P - Ouvi sua participação no programa This American Life. Você disse que quando as pessoas perguntam se você sentiu um choque cultural ao chegar em Harvard, responde: “Não, senti que era um direito de nascença”. Achei muito engraçado. De onde vem este sentimento?

R - Em parte, eu disse isto apenas para incomodar as pessoas brancas. Mas não, eu não tinha a síndrome do impostor. Estava falando sobre isto com a minha companheira hoje. Quando eu estava na escola, fiz uma oficina de jornalismo de bastante prestígio na NYU. Havia uma professora branca que se interessou por mim.

Ela falou que me achava uma escritora dotada e com uma voz boa, e acrescentou que não se surpreenderia se visse o meu nome na lombada de um livro na Butler Library. Acho que ela estava na Columbia. Isto é verdade. Mas também falou que eu parecia chocada, que meus olhos estavam escancarados e eu estava prestes a chorar, porque parecia que isso nunca tinha acontecido comigo, ou que ninguém jamais tinha me dito uma coisa dessas antes. E isto era o que ela imaginava (risos).

Lembro que me senti realmente humilhada quando ouvi ela falando sobre esta percepção do que parecia ter sido a primeira vez que alguém tinha me dito que eu poderia ser uma escritora. E pensei: Por que eu ficaria chocada com o fato de que poderia escrever um livro? Então me dei conta de que esta era uma narrativa branca: alguma coisa me faltava, e que não só algo me faltava e faltava à minha formação, mas eu era obviamente insegura e a minha autoestima era baixa.

Quando assistia àquelas aulas em Harvard, via jovens muito ricos. Muitos deles estudavam em internato, alguns eram filhos de celebridades, outros filhos de políticos. E tudo o que eu via era que poderia manter uma conversação com eles, e que eu era uma pessoa que se fez sozinha, por meu esforço próprio, e eles não.

Eu vim do nada. Criei todo este mundo por mim mesma, como meus pais imigrantes criaram um mundo para si. Estes jovens - honestamente, seria estranho se eles não entrassem em Harvard. O sobrenome de alguns deles está escrito nos edifícios.

Mas, eu? Eu era uma anomalia estatística. Senti como se eu fosse um besouro raro. E isto não me impediu de ficar deprimida, ou de evitar anos de alarme ou algo assim, mas em uma sala de aulas ou em um ambiente relacionado à escrita, sempre senti confiança em mim mesma.

P - Há vários exemplos no livro em que você recorre ao realismo mágico. Por que?

R - Nunca tive uma conexão intuitiva com a natureza ou com a terra. Mas sempre fez sentido para mim que se algo tão incrivelmente triste acontecesse, todas as coisas naturais ao meu redor reagiriam e nunca mais seriam as mesmas. Então quando soube do Holocausto ainda criança, pensei: “Como foi que os rios não se tornaram rios de sangue? Como foi possível que toda uma espécie não tenha sido eliminada e que tenha acabado - como espécies de pássaros - no quintal das pessoas?”

Na minha mente, este era como um sistema de credo na forma de uma técnica literária que era usada para fazer justiça à página quando existia impunidade na vida real e em nosso ambiente, onde as pessoas desaparecem, onde corpos são dilacerados, onde somos jogados em caminhões sem identificação, onde  vivemos sob uma ditadura de república de bananas. Pensei que era o momento perfeito para usar o realismo mágico.

P - Como você esperava que este livro seria recebido no mundo?

R - Espero que os imigrantes de todos os níveis sejam capazes de encontrar-se nele. Espero que os que não são imigrantes, que foram considerados seres estranhos ou indesejáveis ou aberrações, sejam capazes de encontrar algo de si mesmos nele.

Não quero que todas as imagens do nosso povo durante este período sejam de seres de joelhos ou em gaiolas ou pedindo uma sopa. Eu quero que este livro exista como um retrato dos nossos tempos, em que há pessoas que são diferentes, imperfeitas, estranhas, que são trabalhadoras, que são apenas pessoas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.