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Jesse Rieser/The New York Times
Jesse Rieser/The New York Times

Uma comissária de bordo escreveu seu romance em guardanapos, e ele decolou

O primeiro romance de suspense de T.J. Newman começou a ser escrito durante suas viagens de trabalho

Elisabeth Egan, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2021 | 05h00

T.J. Newman se lembra de quando Falling (Caindo, em tradução literal), seu primeiro romance de suspense, começou a tomar forma.

Comissária de bordo veterana, Newman estava em um voo da Virgin America de Los Angeles para Nova York, olhando para uma cabine cheia de estranhos cochilando. Mesmo que você não tenha estado em um avião recentemente, pode imaginar a visão: bocas abertas e cabeças balançando, cobertores de lã por todo lado, um punhado de insones iluminados por raios de luz.

"De repente, me vem este pensamento: a vida de todo mundo está nas mãos dos pilotos do avião. Com tanto poder e responsabilidade, até que ponto isso torna os pilotos vulneráveis?", lembrou Newman, de 37 anos, em entrevista por vídeo de sua casa em Phoenix.

Embora a aviação esteja no sangue da família - sua mãe e sua irmã também trabalhavam como comissárias de bordo -, havia um cenário em que tudo de ruim poderia acontecer, que Newman nunca havia considerado.

Poucos dias mais tarde, ela apresentou a ideia a um piloto em um voo diferente: "Perguntei a ele: 'O que você faria se sua família fosse sequestrada e lhe dissessem que, se você não derrubasse o avião, ela seria morta?' Não pude deixar de notar pela expressão no rosto dele que havia tocado em um ponto sensível. Ele ficou apavorado. Não me deu uma resposta. E percebi que tinha uma história."

Essa história - de dois sequestros simultâneos, com um piloto comprometido como denominador comum e um comissário de bordo de raciocínio rápido que assume o controle - é o ponto crucial de Falling, publicado pela editora Avid Reader Press.

Newman escreveu o livro durante o tempo ocioso em voos longos, usando canetas de hotel para anotar as cenas em guardanapos e em contas de restaurante antes de digitá-las durante as escalas. Imagine ler esta linha sobre o ombro da pessoa que acabou de lhe mostrar como usar uma máscara de oxigênio: "A massa ensanguentada ficou suspensa, sem peso, antes de ser sugada para fora do enorme buraco na lateral da aeronave."

Newman disse que seus personagens são inteiramente fictícios, mas reconheceu a conveniência autoral de entrar em contato com 150 rostos novos a cada viagem. Afinal, "os comissários de bordo são pagos para vigiar as pessoas".

Ela não comentou com muitas pessoas que estava trabalhando em um livro, acreditando que havia esgotado sua "cota pessoal de risco criativo público" quando se mudou para a cidade de Nova York em 2007 para tentar a carreira de atriz. "Fiz a rota do artista faminto e tive vários empregos para conseguir sobreviver. Houve muita rejeição e portas batendo na minha cara", revelou Newman, que se formou em teatro musical na Universidade Wesleyana do Illinois em 2006. Enquanto morava em Sunnyside, no Queens, sobreviveu como babá, trabalhando em restaurantes e distribuindo panfletos na Times Square.

Dois anos depois, ela estava de volta a Phoenix, morando na casa dos pais - desfecho humilhante para um sonho que começou a se concretizar quando estrelou a produção de Annie, no ensino fundamental.

Newman encontrou consolo em um emprego na Changing Hands, livraria em Tempe, no Arizona, que, segundo ela, a ajudou a voltar às suas raízes como leitora e escritora. "Vou ser sempre uma pessoa criativa. Percebi que esses impulsos nunca vão desaparecer. Se escrevo e ninguém lê, exceto eu, isso é muito menos assustador do que me colocar lá em Nova York em frente a uma mesa inteira de diretores de elenco que nem sequer olham para mim."

"Naquela época, ela era para nós a Torri", disse Cindy Dach, executiva-chefe da livraria. (T.J. significa Torri Jan.) "Apaixonada pelos livros e pela comunidade, era uma estrela na loja. Alguns livreiros adoram livros, mas são introvertidos. Torri tem o melhor dos dois mundos porque consegue se conectar com as pessoas facilmente."

No início de 2011, Newman saiu da empresa para trabalhar para a Virgin America. Manteve-se na equipe da Changing Hands e continuou ajudando durante as férias e nos eventos em Tempe e em Phoenix, mas não podia mais ignorar o desejo de viajar. "Cresci viajando com os bilhetes da minha mãe. Viajar é minha atividade favorita, e eu queria um emprego que me pagasse para isso."

Houve desafios para sua nova função - passageiros pedantes, carrinho de bebidas -, mas Newman acredita que seu tempo no ar a ajudou a estabelecer as bases para uma carreira de escritora. "Você se torna realmente boa em ler as pessoas: essa bebeu demais? Aquela está com cara de que vai descumprir as regras? Estamos em um tubo de metal viajando a centenas de quilômetros por hora, a quilômetros do chão. Estamos sempre cientes da margem de erro."

Essas apostas altas são mostradas em Falling, que alterna entre uma cabine sob ataque e o cativeiro da família do piloto em terra. Quando Newman completou o rascunho, consultou The Essential Guide to Getting Your Book Published (O guia essencial para que seu livro seja publicado, em tradução literal), de Arielle Eckstut e David Henry Sterry, às vezes rasgando partes para levar na viagem e assim não ter de carregar o livro todo. "Eu não conhecia ninguém, não tinha contatos. Pesquisei cada passo ao longo do caminho."

Quarenta e um agentes se recusaram a representá-la. ("O fato é que uma comissária de bordo que nunca publicou nada é difícil de vender", ela escreve na seção de agradecimentos.) O 42º agente, Shane Salerno, trabalhou com ela nas revisões - Newman compartilhou os rascunhos com amigos pilotos para se certificar de que a logística estava correta - antes de enviar o material para Jofie Ferrari-Adler, vice-presidente e editor da Avid, que comprou Falling por sete dígitos em um contrato de dois livros. "Li em menos de um dia e simplesmente fui nocauteado. Fiquei com o coração na garganta o tempo todo. Eu me coloquei no lugar de cada personagem do livro", comentou Ferrari-Adler.

Newman deixou o emprego na companhia aérea. Os direitos já foram vendidos em 24 territórios, e a Universal Pictures, em uma guerra comercial, comprou os direitos para produzir um filme.

O primeiro evento híbrido de Newman, com convidados comemorando a publicação de Falling via Zoom e presencialmente, foi agendado na livraria da cidade de Phoenix. O significado foi especial para ela. "Foi lá que meu sonho de ser escritora realmente ganhou força. Quando eu catalogava um livro de um autor que tinha o mesmo sobrenome que eu, pegava meu polegar, cobria o primeiro nome e fingia que eu era a autora. Ficava imaginando como seria um livro com meu nome na lombada."

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