James Keivom/The New York Times
James Keivom/The New York Times

Bairro italiano de NY virou reduto de albaneses e mexicanos

A chegada de italianos foi sendo lentamente substituída pelos imigrantes dos países dos Bálcãs e da América Latina

Helene Stapinski, The New York Times

05 de abril de 2020 | 06h00

Recentemente, havia muita gente em Little Italy. Em dois cafés de estilo europeu, com as mesas na calçada fixadas na Arthur Avenue, na parte do Bronx chamada Belmont, turistas e moradores estavam sentados ao ar livre, bebericando café. No Luna Cafe, depois da gigantesca bandeira italiana pintada na rua, tremulava uma bandeira albanesa, enquanto alguns homens fumavam hookah.

Na Prince Coffee House, clientes conversavam em albanês. Os únicos italianos eram da terceira e quarta geração dos bairros residenciais, que paravam para tomar café entre uma visita e outra à lojas para comprar mozzarella e sopressata. “Eu não o chamaria Little Albania”, observou Florian Lota, recém-imigrado do Kosovo que trabalha no Prince.

“É mais a Big Albania”. Há anos, as Little Italys da cidade vêm encolhendo após a mudança das famílias imigrantes da virada do século. No entanto, um tipo diferente de contração ocorreu na área de Belmont no Bronx. Ali, a diáspora italiana foi sendo lentamente substituída pelos imigrantes dos países dos Bálcãs e da América Latina.

Muitas pessoas que cortam as fatias de caciocavallo e fazem cannoli vêm da Albânia ou do México. A Little Italy de Belmont é a que mais se manteve íntegra em toda a cidade, embora esteja longe do seu passado isolado, protegido pela Máfia, que se tornou famosa por causa de A Bronx Tale, o filme de 1993.

Abrangendo cerca de 40 quadras, ela prosperou graças à entrada de imigrantes de etnias diferentes. Em razão de sua proximidade com o Mar Adriático, a Albânia sempre teve um vínculo muito forte com a Itália ao longo dos séculos. Na Idade Média, os albaneses se estabeleceram no sul da Itália, criando dialetos albaneses-italianos, que ainda são falados em pequenos enclaves.

Durante o período comunista, a televisão italiana era tudo o que os albaneses viam. Depois do colapso da União Soviética e o começo da Guerra do Kosovo, a Itália, localizada na entrada do Ocidente, serviu de rota de fuga para os albaneses que deixavam o seu país. Como eles compreendiam o italiano, a sua transição para Little Italy foi fácil.

Albaneses e mexicanos preenchem hoje os espaços deixados pelos italianos que se mudaram dali, e ajudam a manter o bairro tão cheio de vida quanto antes. A Pizzeria Tony and Tina’s não serve apenas fatias, mas também bureka albanesa – uma espécie de torta de massa fina recheada de carne.

Isto não é novidade no Bronx. A Teitel Brothers, a fantástica salumeria da região, é de judeus europeus que aprenderam o italiano muito tempo atrás, e estão ali desde 1915. Em 1970, a seção de Belmont era 89,5% branca, segundo a prefeitura; em 2017, os latinos constituem 75% da população.

Não surpreende que os mexicanos, como os albaneses antes deles, tenham se integrado na Little Italy, disse Danielle Oteri, uma guia de turismo. “Italianos e mexicanos mantiveram inúmeros paralelos em sua jornada migratória”, ela disse. Até suas bandeiras têm as mesmas cores.

Em Our Lady of Mount Carmel, há um cantinho dedicado à Virgem de Guadalupe. As famílias mexicanas compram as trombas dos suínos do açougueiro italiano para a vovó fazer ‘carnitas’. A comunidade se integrou a tal ponto na vizinhança que a última vez que a Itália ganhou a Copa do Mundo, em 2006, os mexicanos foram para as ruas gritando: “Nós ganhamos!” conta Roman Casarrubias, proprietário do restaurante M&G.

Os negócios estão indo tão bem, afirmou, que ele abriu mais uma. Ele emprega cerca de 14 pessoas da sua terra natal, o México, mas também da Venezuela, República Dominicana e Porto Rico. A sua clientela é uma verdadeira liga das nações, observou Casarrubias; “Aqui somo todos amigos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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