An Rong Xu/The New York Times
An Rong Xu/The New York Times

Em Taiwan, livraria brilha como um 'farol de uma sociedade livre'

Centenas de pessoas visitam a Causeway Bay Books toda semana para folhear livros proibidos na China

Javier C. Hernández e Amy Chang Chien, The New York Times - Life/Style

23 de agosto de 2020 | 05h00

TAIPEI, Taiwan - Dentro de uma livraria fechada no centro de Taipei em uma noite recente, Ju Lee-wen se colocou diante de uma grande bandeira preta com os dizeres “Revolução Já!” e ergueu o punho no ar.

Ju, advogada de 26 anos, está preocupada com as políticas cada vez mais autoritárias da China, incluindo novas e rigorosas leis de segurança para Hong Kong. Ela foi até a livraria Causeway Bay Books, uma loja irreverente repleta de títulos que criticam o Partido Comunista da China, para mostrar seu apoio à democracia em Hong Kong e Taiwan. “Temos que lutar para proteger nossa liberdade e nosso futuro", disse Ju.

Nas semanas mais recentes, a Causeway Bay Books, que ocupa um salão abarrotado no décimo andar de um prédio de escritórios qualquer, se tornou um ponto de reunião para pessoas preocupadas com o futuro de Taiwan, uma democracia autônoma que a China reivindica como parte de seu território. Enquanto os líderes da China promovem uma ampla repressão contra a liberdade de expressão e o ativismo em Hong Kong, cresce o temor de que Pequim decida agir com agressividade para submeter também Taiwan ao seu controle.

Centenas de pessoas visitam a loja toda semana para folhear livros proibidos no continente. Elas escolhem biografias expondo a vida privada dos líderes chineses, relatos históricos de acontecimentos como o massacre da praça da paz celestial, e romances distópicos como “1984”, de George Orwell.

Um livro a respeito do poderoso líder chinês, Xi Jinping, é intitulado, “O zumbi que governa o país".

Colocando-se entre bandeiras que pedem a independência de Hong Kong, os visitantes participam de ocasionais palavras de ordem como “Lutem pela liberdade!” Em uma parede de lembretes adesivos coloridos perto da porta da frente, eles escrevem suas pesadas críticas à China. “Morte à tirania", diz um desses papéis.

A Causeway Bay Books se tornou símbolo da vibrante democracia de Taiwan em um momento em que a ilha tenta se promover como alternativa ao sistema autoritário da China. A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, visitou a livraria recentemente, como fizeram muitos funcionários do governo, estudantes e comentaristas que criticam a China.

“É como um farol de uma sociedade livre", disse Leo Hong, 38 anos, funcionário de uma estatal que veio à livraria em uma noite recente para comprar um livro de fotografias documentando protestos contra o governo ocorridos no ano passado em Hong Kong.

A loja é meio comércio de família e meio sala de guerra política, com a curiosa sobreposição de um papel de parede de temas florais com cartazes chamativos dizendo, “Liberdade para Hong Kong".

Muitos vem ver pessoalmente o dono e gerente, o livreiro Lam Wing-kee, que fugiu de Hong Kong para Taiwan no ano passado. Lam estava entre os cinco livreiros abduzidos pelas autoridades chinesas em 2015 por venderem livros criticando o partido governante. Ele foi detido e passou cinco meses na solitária.

“Ele quer mostrar aos taiwaneses o tipo de governo que o Partido Comunista Chinês representa", disse Chen Tsai-neng, 55 anos, apresentador de rádio que o visita com frequência. Chen disse debater habitualmente o histórico autoritário da China com Lam e outros clientes.

“Ele quer contar à população que o Partido Comunista Chinês e os indivíduos no poder dentro dessa tradição cultural não são dignos de confiança", disse Chen.

Lam abriu a loja de Taipei em abril, recuperando o nome da loja que teve em Hong Kong. Todos os dias, do meio-dia até as 21h, ele vaga pela loja recomendando títulos aos fregueses, escapando com regularidade para fumar em um terraço. A loja também é seu lar: ele dorme em um colchão atrás do balcão do caixa.

Lam disse desejar que a população de Taiwan tenha um lugar onde possa pensar a respeito dos desafios enfrentados pela ilha, incluindo as tentativas da China de isolá-la politicamente.

“Taiwan vive um período de instabilidade", disse ele. “E uma coisa está clara: é a China que está deixando Taiwan instável.”

A livraria tem sua parcela de críticos. Para alguns, os livros em oferta trazem um retrato enviesado da China moderna, exagerando nos retratos negativos.

A loja também deu início a um debate envolvendo a aceitação de refugiados políticos como Lam por parte de Taiwan. A presidente Tsai e seu Partido Progressista Democrata prometeram ajudar mais ativistas de Hong Kong na busca por abrigo em Taiwan. Alguns membros do partido da oposição, Kuomintang, acreditam que tal gesto corre o risco de suscitar uma retaliação de Pequim.

Lam se tornou um alvo. Em abril, pouco antes de abrir a loja, dois homens o atacaram com tinta vermelha enquanto ele saía para tomar café em Taipei. Posteriormente, os dois foram presos.

Conforme aumentam as tensões com o continente, muitos visitantes dizem sentir um espírito de camaradagem na loja, onde eles debatem assuntos como a política de defesa e se Taiwan deveria fazer um pedido formal de independência, gesto diante do qual Pequim há muito se mostra irredutível. Alguns temem a possibilidade de um conflito militar no qual Taiwan seria envolvida, caso as relações entre China e Estados Unidos sigam se deteriorando.

Em junho, a decisão do governo chinês de impor abrangentes leis de segurança nacional a Hong Kong, conferindo às autoridades amplos poderes de repressão contra uma variedade de crimes políticos, levou muitos taiwaneses a se manifestarem.

“Para alguns, o que está ocorrendo em Hong Kong é uma amostra do futuro de Taiwan", disse Chen Wei-nung, 36 anos, que trabalha meio período em um instituto de pesquisa de opinião pública.

Os lembretes coloridos reunidos perto da entrada imitam mensagens semelhantes criadas no ano passado pelos manifestantes de Hong Kong. Há desenhos de Xi usando uma coroa e citações do Capitão América. A presidente Tsai, líder de Taiwan, deixou um bilhete durante sua visita dizendo “Uma Taiwan livre apoia a liberdade de Hong Kong".

Ju, a advogada que visitou a livraria recentemente, comprou um livro a respeito do controle chinês da internet e uma história dos protestos de Hong Kong. Antes de ir embora, ela parou para escrever um recado na parede de notas adesivas.

“Liberdade eterna", escreveu ela. “Liberdade para Taiwan.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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