Conor E. Ralph/The New York Times
Conor E. Ralph/The New York Times

Livro de memórias de agente latino que atua na fronteira EUA-México é alvo de críticas

A imigração “está longe de ser uma situação binária”.

Simon Romero, The New York Times

27 Maio 2018 | 10h30

TUCSON, Arizona - O autor Francisco Cantú, que passou anos trabalhando como agente da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos, preparou-se para enfrentar a fúria dos defensores da restrição à imigração e seus ex-colegas quando publicou um impressionante livro de memórias este ano, descrevendo os frequentes abusos cometidos pelas autoridades contra os imigrantes na região da fronteira sudoeste.

Mas Cantú não estava preparado para a saraivada de críticas que ele recebeu do outro lado desse espectro político, incluindo autores e artistas imigrantes em situação irregular em todos os EUA, para quem a patrulha da fronteira é vista como uma força paramilitar que incita o medo e destrói famílias.

Alguns chamaram Cantú, 32 anos, americano descendente de mexicanos, de “nazista” por ter entrado para a patrulha da fronteira. Outros participaram das sessões de leitura dele gritando “vendido” em sua direção. Os críticos recomendaram um boicote ao livro de Cantú, “The Line Becomes a River", descrevendo-o como um traidor que lucra com o sangue dos outros.

“Não entendo por que Cantú pode ser absolvido e celebrado por dizer que foi testemunha da tragédia da qual ele foi cúmplice", disse Jesús Valles, 31 anos, dramaturgo e professor da rede pública de ensino médio em Austin, Texas, que estava entre os manifestantes que compareceram a uma das sessões de autógrafos de Cantú.

“É difícil até mesmo explicar o medo que a patrulha da fronteira inspira em pessoas como eu", acrescentou Valles, que foi clandestinamente para o Texas ainda criança e, posteriormente, obteve autorização jurídica para permanecer no país. “É o medo de ser caçado feito um animal, de ver os parentes deportados. E Cantú ganha um bom dinheiro com seu livro depois de ser um dos agentes empunhando as armas.”

A tensão em torno de Cantú e seu livro está incendiando um debate a respeito de quem pode contar as histórias da vida na região da fronteira. A situação destaca as disputas entre os latinos nascidos nos EUA e aqueles trazidos ilegalmente para o país quando crianças, num momento em que o muro do presidente Donald J. Trump na fronteira começa a ganhar forma no deserto de Chihuahua.

Em suas aparições públicas, Cantú pediu que os manifestantes recebessem permissão para criticar o livro e seu autor. E aqui em Tucson, onde vive, ele disse ter concordado com algumas das acusações dirigidas ao trabalho.

“Meu objetivo era descrever a patrulha da fronteira a partir de uma perspectiva interna, e não justificar suas ações", disse Cantú. Seu livro relata incidentes em que guardas da patrulha furaram as garrafas d’água das quais os imigrantes dependem para sobreviver, decoraram cactos com roupa íntima feminina ou incendiaram a vegetação.

“Encontramos pessoas que estão completamente aterrorizadas pelo policiamento", disse ele, pensando na experiência de encontrar homens e mulheres perdidos e desidratados vagando entre os arbustos do deserto.

Cantú deixou as patrulhas de campo para trabalhar no setor de informação, com dificuldade para entender o significado de ser bom nesse trabalho. Ele descreve no livro a linguagem usada pelos colegas para descrever os imigrantes, desumanizados. Ele diz que lhe pareceu impossível combater de maneira eficaz a linguagem racista amplamente usada na instituição.

Cantú não estava sozinho: mais da metade dos agentes atuais da patrulha de fronteira são latinos, pois a agência se tornou uma fonte de oportunidade em trechos pobres do sudoeste. Cantú disse que, quando entrou para a organização, aos 23 anos, ele esperava desempenhar a função durante alguns anos antes de cursar diplomacia ou direito, na esperança de se especializar em questões de imigração.

Javier Zamora, 28 anos, poeta que imigrou sem autorização de El Salvador para os EUA quando tinha 9 anos, disse compreender a motivação de parte das críticas feitas a Cantú, em especial aquelas que apontam contraste entre a perspectiva de Cantú, cidadão americano, e a perspectiva daqueles que correm o risco de serem deportados.

Ainda assim, Zamora, que vive atualmente na Califórnia e corre o risco de ser obrigado a deixar os EUA, disse ter gostado de boa parte do livro de Cantú, particularmente os trechos em que ele escreve a respeito do desgaste mental provocado pelo trabalho, descrevendo pesadelos. “Isso mostra que a fronteira está longe de apresentar situações binárias; é tudo uma grande zona cinzenta.”

Cantú foi muito influenciado pela mãe, que trabalhava no policiamento de parques nacionais nas Montanhas Guadalupe, perto de El Paso, Texas. Ela tentou dissuadi-lo da ideia de entrar para a patrulha da fronteira, e o questionou a respeito da crueldade dos agentes que permitem que os imigrantes morram no deserto. “Ela estava preocupada com a saúde da minha alma", disse ele.

Valles disse que seria muito fácil perdoar o autor por sua ingenuidade juvenil ou por não ter dado ouvidos à mãe. “As pessoas vão ler o livro dele; talvez algumas até chorem no processo", prosseguiu ele. “E, ao lê-lo, talvez elas tenham a sensação de ter ajudado alguém, mas elas podem fechar o livro e seguir com suas vidas. Nós não podemos fechar o livro e esquecer o pesadelo que se tornou a fronteira.”

Cantú não discordou dessa crítica. Ele disse que sua crença na possibilidade de ser uma força do bem dentro da agência foi ingenuidade. Ele decidiu que a escrita lhe permitiria transmitir “simultaneamente a beleza, a alegria e o horror de viver e amar este lugar".

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