Don Emmert/Agence France-Presse/Getty Images
Don Emmert/Agence France-Presse/Getty Images

Livro de memórias mostra evolução de Mariah Carey em uma estrela pop

“A maior parte das gravadoras não entendia a minha música”, ela escreve sobre os primeiros anos da carreira

Jon Caramanica, The New York Times - Life/Style

16 de outubro de 2020 | 05h00

Na noite chuvosa de meados dos anos 1990, quando Mariah Carey beijou pela primeira vez Derek Jeter – uma tentativa de sair do seu sufocante casamento com Tommy Mottola, o magnata da música que foi fundamental para a sua carreira – a cantora voltou para a sua limusine e ligou o rádio.

O que ela ouviu foi “o beat nojento, perigoso, sensual”, de Mobb Deep,“Shook Ones Pt. II.” A faixa ficou na sua cabeça enquanto voltava para casa, escreve Mariah em suas memórias, “The Meaning of Mariah Carey”. No dia seguinte, começou a trabalhar em uma música baseada em uma amostra de “Shook Ones”, que contava sua história de rebelde romântica. O resultado foi “The Roof (Back in Time)”.

“The Roof” apareceu no quinto álbum de canções originais de Mariah, “Butterfly” em 1997, um momento propício na sua vida e música. Mariah, a mega-estrela do pop-soul, estava aprofundando suas conexões com o hip-hop, exatamente quando este começava a se impor como língua comum da cultura pop.

Mariah, esposa batalhadora e vigiada, estava tendo os primeiros vislumbres de liberdade romântica e sexual. E Mariah, a filha de pai preto e mãe branca, que foi instigada a menosprezar a sua negritude por seus parceiros dos negócios musicais, declarava quem ela era, alto e bom som.

Para Mariah, todos estes vetores se cruzavam e muitas vezes se sobrepunhan, desde a sua infância. “The Meaning of Mariah Carey” conta essa história de uma maneira vívida e emocional. É um livro de memórias sobre uma artista determinada e talentosa, e sobre uma jovem frustrada praticamente em cada momento em que tentava sentir-se segura de sua identidade. O seu dom musical foi sua luz de esperança.

Mas embora a música fosse para ela uma espécie de refúgio, para outros foi uma fonte de confusão. “A maior parte das gravadoras não entendia a minha música”, ela escreve sobre os primeiros anos da carreira. “Minha demo era muito mais variada do que a indústria da música esperava na época”. Isto causou problemas com Mottola.

“Desde o momento em que Tom me contratou, ele tentou limpar de mim o elemento ‘urbano’ (leia-se, negro)”, escreve. Toda a carreira de Mariah demonstra a surdez desta abordagem. Ela trouxe para as suas baladas iniciais a rica convicção soul – “I Don’t Wanna Cry”, “Hero”, “One Sweet Day” – que as resgatou do sentimental.

Quando Mariah começou a trabalhar com produtores de hip-hop como Jermaine Dupri, fez algumas das músicas mais bem-sucedidas em termos de criação de toda a sua carreira enquanto ela permanecia no topo das paradas: "Always Be My Baby”, “We Belong Together”, “Heartbreaker”.

A escrita neste livro – de Mariah em parceria com Michaela Angela Davis – prende o leitor, um pouco fraca, mas decididamente humana. Mariah é apresentada como uma força espiritual e um prodígio musical – flexível, autoconsciente e engraçada. The Meaning of Mariah Carey é menos revelador da vida da cantora em que ele se move.

Uma parte angustiante do livro, por volta do lançamento do álbum e do filme Glitter, de 2001, salta da manipulação de alguns membros da família para o centro de reabilitação e a deslealdade das companhias e além, mas ainda produz uma sensação ambígua que acaba frustrando. Ela não menciona o diagnóstico de distúrbio bipolar que recebeu e foi revelado publicamente em 2018. Os últimos capítulos do livro são apressados, denunciando duetos de divas e o casamento de Mariah com Nick Cannon, que durou oito anos.

O foco de Mariah é resoluto – sua música é o produto de sua vida. Um manto protetor quando necessário, e o lugar onde ela revelou as suas verdades sombrias para todos ouvirem, ainda que não conseguissem entendê-lo plenamente. Mariah acaba de lançar “The Rarities”, uma coleção de canções inéditas, datadas dos anos 1990.

O álbum contém dramáticas baladas R&B que foram cruciais para o seu sucesso inicial, antes de ela se voltar para a influência do hip-hop, em meados dos anos 1990. Muitas das canções são fortes, mas em grande parte servem de reforço para a história que Mariah está contando.

No entanto, o documento mais revelador é talvez o segundo disco do lançamento: “Live at the Tokyo Dome”, o seu primeiro show no Japão, gravado em 1996. Aqui ela está no pico de sua autoridade vocal e da fama pop. Nos anos que se seguiram, Mariah se desvencilhou do domínio de Mottola, mergulhou mais a fundo no hip-hop, teve seu primeiro fracasso e começou a fraquejar sob as críticas públicas. Sua fama permaneceu intacta, mas se tornou mais complicada e caótica.

Vista desta perspectiva, e no contexto do que ela revela em suas memórias, a sua apresentação neste concerto parece uma despedida em relação à maneira como ela costumava fazer as coisas, a culminação de uma vida cantando através dos dentes semicerrados. Uma metamorfose se aproximava. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
Mariah Careymúsica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.