Reuters - Jim Young
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Em livro, sobrinha de Trump chama presidente de 'narcisista': 'Família disfuncional'

Na obra, Mary L. Trump diz que o tio tem a maturidade emocional de uma criança de três anos

Jennifer Szalai, The New York Times - Life/Style

31 de julho de 2020 | 05h00

Robert Trump, irmão mais novo de Donald Trump, teve seu curioso momento diante dos holofotes algumas semanas atrás enquanto tentava repetidas vezes evitar a publicação de “Too Much and Never Enough” [Demais e Nunca o Bastante], livro de memórias de Mary L. Trump, a sobrinha de quem ele e o presidente são tios. No livro, parece que o tio Rob desempenha um papel pequeno — o mais novo de cinco filhos que buscou o caminho mais fácil, assumindo a diretoria da empresa do pai, um espectador geralmente passivo do drama central protagonizado por Donald e o irmão Freddy, pai de Mary. 

Nem por isso Mary retrata Rob como desprovido de personalidade. Ela lembra do tio como um adolescente, pouco mais velho do que ela, apoiando-se na geladeira enquanto desembrulhava um pedaço de queijo cremoso que comeu “como se fosse uma barra de chocolate".

É o tipo de detalhe — uma memória específica, fundamentalmente humana e decididamente estranha — que confere a este livro sua inegável força, ainda que sua narrativa seja apoiada nos consideráveis esforços da autora de fazer uso de seu treinamento de psicóloga. Ela não hesita em descrever Donald Trump como narcisista, e identifica também outros traços de distúrbio de personalidade antissocial (a vanglória), distúrbio de personalidade dependente (a carência) e distúrbio do sono induzido por substâncias (as mais de dez Coca-Cola diet diárias). 

Quando ela escreve no prólogo que “Donald passou a maior parte da vida adulta em cômodos de paredes acolchoadas", ela não está se referindo a algo tão insalubre quanto um tratamento para a saúde mental. A autora está se referindo ao ambiente de conforto dourado garantido pelo nome e pela fortuna da família, dentro do qual Donald jamais teria que sobreviver por conta própria no mundo real.

Mas será que o mundo real sobreviverá a Donald Trump? Mary diz que a democracia americana morrerá se ele for reeleito. A história que ela descreve em Too Much and Never Enough é apresentada como um conto de advertência. Ela diz que Donald é incapaz de resistir à tendência de recriar um psicodrama da família que destrói todos os envolvidos. Ela lembra de acordar às 5 da manhã no dia seguinte à eleição de 2016: “Tive a sensação que 62.979.636 eleitores tinham escolhido transformar os Estados Unidos em uma versão ampliada da minha família malignamente disfuncional".

Essa disfunção é amplamente relatada no livro, conforme Mary descreve como os cinco irmãos Trump da geração do pai dela tentavam se virar em um lar onde a doença crônica da mãe os deixou à mercê de um patriarca desinteressado e controlador. A mais velha, Maryanne, era a boa menina certinha; Freddy era o rebelde relaxado; Elizabeth, a discreta filha do meio; Rob era o bebezão, discreto e disposto a agradar. E Donald, o segundo mais velho, era Donald: puxava o saco do pai, desobedecia a mãe e intimidava o irmão mais novo, roubando os carrinhos favoritos de Rob e incentivando-o a abrir a pontapés um buraco na porta do banheiro.

A versão higienizada do mito da família diz que Fred Trump valorizava a importância do trabalho duro, mas Mary diz que isso simplesmente não é verdade. Os negócios imobiliários de Fred dependiam de laços políticos e da generosidade do governo; ele ensinou os filhos a reverenciar o domínio, e não o esforço.

“O dono do poder (independentemente do quanto esse poder tenha sido designado ou alcançado de forma arbitrária) decidia o que era certo e errado", escreve Mary. O mundo era um jogo mortal de soma zero entre perdedores e vencedores. Mary explica como esse tipo de lição de vida pode ser confuso, aterrorizante e inconsistente. O pai dela, filho mais velho, tentou resistir, tornando-se piloto comercial por algum tempo antes de ter a carreira, o casamento e a saúde destroçados pelo desespero e o alcoolismo; morreu de ataque cardíaco aos 42 anos, quando Mary era uma adolescente.

Já Donald prosperava no mundo criado pelo pai, ainda que, segundo argumenta Mary, a personalidade dele tenha sido deformada pela experiência. A psicóloga dentro dela demonstra compaixão. Ela diz que o tio tem a maturidade emocional de uma criança de três anos e “sofreu muito", sustentando o fardo do que ela descreve como um insaciável “buraco negro de carência". Foi treinado para ansiar infinitamente pela aprovação do papai; mas, agora que se tornou presidente dos EUA, diz ela, as figuras que o fazem lembrar de casa são Vladimir Putin e Kim Jong Un.

É claro que o livro dela tem poucas chances de mudar a opinião do leitor. É de se imaginar que uma parte dos eleitores do presidente nem enxergaria o histórico familiar como algo perturbador, levando em consideração o quanto ele reencena continuamente os métodos de disciplina do pai, Fred — faz pouco do interlocutor e manifesta uma “positividade tóxica”, dizendo que algo é ótimo enquanto desmorona —, no palco nacional. Mas Mary, que também tem pós-graduação em literatura comparada, sabe como contar uma história e escolher os episódios a serem compartilhados.

Um trecho do livro descrevendo os presentes que a família dela recebeu de Donald e da primeira mulher, Ivana, indica que suas tentativas de demonstrar generosidade eram de uma avareza notável e, portanto, repletos de simbolismo. O irmão dela recebeu uma bela agenda encadernada em couro… de dois anos atrás; Mary recebeu uma cesta de comida envolta em celofane contendo bolachas de água e sal e salame, e um amassado nos guardanapos de papel onde ficava o pote de caviar… que tinha sido removido. A mãe recebeu uma bolsa chique… que continha um lenço de papel usado.

Mary relata a batalha envolvendo o testamento do avô, Fred Trump, contrariando a descrição que a família faz dela como alguém infeliz que tenta ganhar dinheiro às custas dos parentes: “Testamento é uma questão de dinheiro, mas, em uma família na qual a moeda é uma só, o testamento é uma questão de amor”. Mas como pode ser uma questão de amor se o livro indica que não havia amor nenhum? Talvez seja mais exato dizer que o testamento é uma questão de poder, e a outra moeda da família era a humilhação. Assim como Donald não suportaria a pobreza, ele não tolerava o sentimento de vergonha.

Trata-se de um livro escrito com dor e pensado para ferir. Lembrando a decisão dela de compartilhar documentos financeiros com repórteres do New York Times que escreveriam uma matéria de 14 mil palavras a respeito dos esquemas fiscais de Trumps em 2018, Mary descreve um estrago tão profundo causado nela pela crueldade do avô “que somente um gesto grandioso poderia corrigir". Esqueça o vocabulário de psicologia com os distúrbios de personalidade e de apego infantil; é quando Mary fala a respeito da sua necessidade de “derrubar Donald” que ela começa a se comunicar na linguagem que sua família realmente entende. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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