Diego Ibarra Sanchez / The New York Times
Diego Ibarra Sanchez / The New York Times

Má gestão do lixo mancha uma joia do Mediterrâneo

Rastro de garrafas plásticas sujam praias do Líbano; proliferação de resíduos se faz presente na água, nos frutos do mar e na saúde pública

Vivian Yee e Hwaida Saad, The New York Times

12 de dezembro de 2019 | 06h00

BEIRUTE, LÍBANO - No Líbano, os habitantes gostam de se gabar dizendo que é possível ver vilarejos na pureza das montanhas e nadar no mar reluzente, tudo no mesmo dia. Mas as praias douradas do país estão hoje repletas de garrafas plásticas, e os córregos que descem da montanha foram contaminados por lixões a céu aberto. O Mediterrâneo engasga no resíduo tóxico. Uma proliferação de lixo aparentemente interminável se faz presente na água, nos frutos do mar e na saúde pública do Líbano.

A incapacidade do governo de oferecer serviços básicos está ligada ao acordo que pôs fim à guerra civil do Líbano, há quase 30 anos. O acordo dividiu o poder entre as 18 seitas religiosas reconhecidas no país, cada grupo responsável por distribuir cargos, fazer licitações, trocar favores e oferecer serviços sociais aos seus seguidores.

Os libaneses finalmente cansaram de um sistema que enriqueceu a elite política sem proporcionar uma economia estável ou mesmo serviços básicos como fornecimento confiável de água ou gestão de resíduos consistente. Centenas de milhares de manifestantes foram às ruas nos dois meses mais recentes. “Devolvam o dinheiro desviado”, exigiram.

Eles já obrigaram o primeiro-ministro a renunciar, mas seu objetivo vai além: exigem o fim da corrupção e da má administração, bem como do sectarismo que as possibilita. A eterna crise do lixo é apenas o exemplo mais notável. O problema veio à tona mais recentemente em 2015, quando a elite política do país perdeu tempo debatendo minúcias de um lucrativo contrato de coleta enquanto pilhas de sacos se acumulavam nas ruas de Beirute. Seguiu-se uma onda de protestos.

A solução intermediária foi a construção de dois novos aterros sanitários. Três anos depois de abertos, os aterros apenas deslocaram a crise do lixo para o litoral, e ameaçam ultrapassar a capacidade máxima em breve.

Corrupção 

O contrato de US$ 288 milhões para a operação de um aterro coube a Jihad al-Arab, irmão de um assessor do agora ex-primeiro-ministro, Saad Hariri. De acordo com três pessoas informadas a respeito das operações da empresa, os funcionários adicionam água aos latões de lixo para distorcer o peso cobrado. O outro contrato, no valor de US$ 142 milhões, ficou com Dany Khoury, empresário que teria laços com a família do presidente Michel Aoun. Nesse aterro, especialistas descobriram que funcionários despejavam lixo e resíduos tóxicos diretamente no Mediterrâneo. As duas empresas negam as acusações.

De acordo com os especialistas, um dos principais motivos impedindo que o Líbano produza energia suficiente para seus quatro milhões de habitantes é o poderoso lobby dos donos de geradores, cujas máquinas fornecem energia durante os blecautes diários, bem como a indústria do diesel que as abastece, movimentando US$ 1,2 bilhão por ano. Uma das principais importadoras de combustível, Cogico, pertence a Walid Jumblatt, líder da minoria drusa.

“É uma pena que nossa liderança seja assim", disse o pescador Abdo Farah, que navega as águas perto de Beirute há 34 anos, indo cada vez mais longe na busca por peixes limpos conforme o esgoto, o resíduo industrial e o lixo contaminavam o litoral sem nenhum controle. “Estamos vivendo em uma lata de lixo.”

A química Najat Saliba, da Universidade Americana de Beirute, descobriu que a empresa de Khoury estava jogando lixo no depósito sem nenhuma triagem. Ela também descobriu que o quebra-mar do aterro não estava impedindo que o lixo chegasse ao oceano. Líquidos tóxicos e lixo eram despejados direto no mar.

O advogado, Mark Habka, que representa Khoury, disse recentemente que todos os critérios sanitários já foram atendidos. Al-Arab abriu um novo aterro em Costa Brava, perto de Beirute, e dois centros de triagem. Procurados em novembro, representantes da empresa de al-Arab, Al Jihad Comércio e Serviços, insistiram que todo o lixo é separado corretamente. Mas dados internos dos centros de triagem de julho de 2018 mostram que 93% do lixo era jogado em aterros.

O diretor de coleta de lixo da Al Jihad, Hisham Karameh, negou que a empresa trapaceasse na pesagem, dizendo que o processo é monitorado. Cerca de US$ 430 milhões “foram desperdiçados fingindo que implementávamos projetos de reforma construtivos", disse Saliba. “E, enquanto isso, nada acontecia.”

Já em meados deste ano, os vizinhos de Costa Brava ficaram fartos. Moradores locais impediram a entrada de caminhões de lixo, exigindo do governo que produzisse uma solução sustentável. “Parece que ninguém vai deter o lixo antes de chegar ao Chipre", afirmou Ziad Haidar, prefeito do município de Choueifat, nos arredores. “O que podemos fazer? Se mantivermos o bloqueio às estradas, logo teremos lixo na rua por toda parte.” / RANA TABBARA CONTRIBUIU COM A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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