Nyimas Laula The New York Times
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Depois de lutarem contra o lixo plástico, irmãs encaram o aquecimento global

Melati e Isabel Wijsen se tornaram heroínas na Indonésia e ganharam reconhecimento internacional por sua campanhas

Richard C. Paddock, The New York Times - Life/Style

30 de julho de 2020 | 05h00

SEMINYAK, INDONESIA– Era a temporada do lixo em Bali, o período do ano em que as monções trazem muitas toneladas de detritos plásticos para as praias da ilha. Era também o momento das irmãs adolescentes Melati e Isabel Wijsen organizarem um mutirão anual de limpeza das praias. Em pé na caçamba de um caminhão, megafones na mão, as duas deram início ao dia de coleta de lixo em 115 locais ao redor da ilha. Milhares de pessoas vieram ajudar.

"Não devemos limpar apenas as praias, mas também os rios e as ruas. Esse movimento é para todos em Bali", gritou Melati Wijsen, naquela manhã de fevereiro, para uma multidão com centenas de voluntários, muitos com camisetas que exibiam as marcas de restaurantes e hotéis da região. Melati e Isabel tinham 12 e 10 anos, respectivamente, quando começaram uma campanha pela proibição das sacolas plásticas, a ponto de ameaçarem fazer uma greve de fome para chamar a atenção do governo de Bali.

Agora, sete anos depois, elas se tornaram heroínas locais e ganharam reconhecimento internacional por sua campanha, que resultou na proibição de sacolas plásticas e outros itens descartáveis em Bali. As irmãs, que agora têm 19 e 17 anos, fazem parte de uma jovem geração de ativistas globais, incluindo Greta Thunberg, a ativista sueca de 17 anos que tem se manifestado em favor de ações climáticas imediatas para proteger o planeta.

"Nós, crianças, podemos ser apenas 25% da população do planeta, mas somos 100% do futuro", costuma dizer Isabel. Desde que iniciaram a campanha, as irmãs viajaram o mundo todo e deram palestras em grandes eventos. Aos 15 e 13 anos, fizeram um TED Talk em Londres a respeito da crise do lixo nas praias de Bali. A revista Time as colocou na lista dos adolescentes mais influentes do mundo e a CNN se referiu a elas como "jovens prodígios".

Melati se descreve como uma "produtora de mudanças" e ganhou visibilidade nos últimos meses, enquanto Isabel tem se concentrado em terminar o ensino médio e cuidar da saúde, depois de descobrir que tem uma doença autoimune. Em janeiro, Melati se apresentou no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, no qual falou apaixonadamente sobre a necessidade de pressionar empresas e governos a banir os plásticos descartáveis.

O ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, que participou de um painel ao lado da jovem, arrancou aplausos do público ao dizer: "Melati, estou muito impressionado com você." Agora, as irmãs precisam lidar com um problema que não poderiam ter previsto: como manter o ativismo em tempos de pandemia e isolamento social. As regras da quarentena levaram a um aumento no uso de plástico tanto em embalagens de encomendas como nos equipamentos de proteção usados pelos profissionais de saúde, o que representa um "enorme retrocesso" para o movimento antiplástico, de acordo com Melati.

Mas ela também percebe os benefícios inesperados do lockdown na redução da emissão de poluentes, além do retorno dos animais silvestres para algumas áreas urbanas. Para Melati, o aquecimento global deveria levar as autoridades a tomar medidas similares e igualmente urgentes. "O vírus causa um impacto direto neste momento, mas o aquecimento global fará o mesmo no futuro. Uma das coisas que mais chamam a atenção em relação ao coronavírus é que os governos conseguem agir rapidamente. Minha pergunta é a seguinte: por que não é esse o caso quando se trata do aquecimento global?", questionou.

Embora sejam jovens, as irmãs são palestrantes experientes e já participaram de inúmeros eventos e entrevistas. Ambas também são ativistas da era das redes sociais e postam vídeos e mensagens frequentes sobre suas atividades. Filhas da holandesa Elvira Wijsen, consultora de práticas comerciais sustentáveis, e do indonésio Eko Riyanto, diretor de uma empresa que exporta móveis, as duas cresceram em Bali cercadas por uma espetacular beleza natural e foram influenciadas pela tradição balinesa de viver em harmonia com a natureza. A casa da família fica nos arredores de campos de arroz, a poucos metros da praia.

Porém, apesar da paisagem idílica, desde que conseguem se lembrar, as duas encontram lixo plástico por toda parte – nos campos de arroz, na praia e no mar. Ainda que o lixo plástico seja um problema comum em todo o mundo, ele é especialmente grave em Bali, onde existe o hábito de jogar o lixo em qualquer lugar.

Algumas pessoas se livram do plástico queimando-o com outros tipos de lixo. Mesmo assim, muito plástico ainda chega ao mar, levado pelos pequenos rios que atravessam a ilha, e se acumula na superfície da água e no fundo do mar, colocando em risco as criaturas marinhas. As coisas ficam especialmente difíceis durante a estação chuvosa – a temporada do lixo –, geralmente entre novembro e março.

As irmãs frequentaram a escola particular Green School, que afirma que sua missão é ensinar os alunos a ser líderes e "agentes de transformação". Cercadas pela floresta, as elaboradas estruturas de bambu da escola não têm paredes e a grade curricular promove o livre pensamento e a inovação. Em 2013, as irmãs, inspiradas por uma aula sobre a vida de Nelson Mandela e Gandhi, fizeram uma pesquisa e descobriram que a Indonésia era o segundo maior produtor mundial de poluição plástica despejada nos oceanos, atrás apenas da China.

Elas também descobriram que dezenas de jurisdições em todo o mundo haviam banido os plásticos descartáveis. Então, as jovens decidiram criar uma campanha. Elas começaram com o grupo Bye Bye Plastic Bags (Adeus sacolas plásticas, em tradução livre), e fizeram uma petição on-line em favor da proibição do plástico descartável. Para surpresa das duas, em pouco tempo coletaram seis mil assinaturas – mas ainda precisariam esperar seis anos para conquistar seu objetivo. Durante a campanha, as irmãs passaram a ver Bali não como uma ilha paradisíaca, mas como "um paraíso perdido", comentou Melati.

Elas descobriram que a ilha produzia lixo plástico suficiente para encher um prédio de 14 andares todos os dias, mas, ainda assim, não existia um sistema de coleta de lixo unificado em Bali. Em dezembro de 2017, tanto lixo chegou ao litoral durante a temporada do lixo que o governo declarou estado de emergência nas praias mais populares entre os turistas. Apesar disso, o crescimento do setor de turismo e a construção de hotéis continuam com força total. Até mesmo o presidente dos EUA, Donald Trump, planeja construir um hotel e resort de golfe com a marca Trump na ilha.

"O território está repleto de prédios, e novos hotéis são construídos onde antes havia arrozais. Perdemos de vista o modo de vida tradicional em Bali, sem respeitar nossa cultura local", disse Melati. Para atingir o objetivo de banir o plástico descartável, as irmãs mobilizaram jovens, organizaram uma petição e mutirões de limpeza das praias, convenceram lojistas a deixar de oferecer sacolas plásticas e fizeram lobby com os políticos eleitos.

Também criaram a Mountain Mamas, uma comunidade de mulheres que confeccionam sacolas de compra reutilizáveis com materiais reciclados, como alternativa à sacola plástica descartável. Com o tempo, elas criaram uma rede com mais de 30 filiais da Bye Bye Plastic Bags em todo o mundo. Em 2016, frustradas com a resistência do governador de Bali na época, I Made Mangku Pastika, seguiram o exemplo de Gandhi e ameaçaram fazer greve de fome – ainda que apenas durante o dia, já que eram muito jovens. Em menos de 24 horas, Pastika aceitou se encontrar com elas. Em frente às câmeras, ele assinou uma ordem para banir sacolas, canudos plásticos e isopor da ilha até 2018.

Contudo, uma coisa era emitir uma ordem, e outra era colocá-la em prática. Para conseguir isso, foi necessário fazer pressão contínua até que a proibição entrasse em vigor há um ano, já no governo de I Wayan Koster. Melati esperava que 2020 fosse um ano de ação em prol do meio ambiente, com base em um apoio crescente entre os jovens para colocar em prática medidas que visam reduzir o volume de lixo plástico e refrear o aquecimento global.

Com a pandemia do coronavírus, porém, elas foram obrigadas a se organizar sem sair de casa, sem interações sociais ou passeatas. Um dos focos de Melati tem sido a divulgação da Youthtopia, uma rede internacional que ajuda jovens a se tornarem "agentes de transformação". Recentemente, a jovem postou um vídeo em que explicava como ser ativista sem sair de casa. "Essa pausa nos deu tempo para pensar em como continuar. O que decidiremos fazer? Será que voltaremos ao normal porque o coronavírus não foi suficiente para nos fazer repensar? Ou será que vamos assumir que existe outro caminho possível?", questionou.

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