Finbarr O'Reilly/The New York Times
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Senegal quer substituir catadores em depósitos de lixo por sistema de reciclagem

Mais de dois mil catadores de lixo ganham a vida encontrando, preparando e transportando o lixo para reciclagem no principal local de despejo da capital Dakar

Ruth Maclean, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2022 | 05h00

DAKAR, Senegal - Uma multidão de pessoas segurando pontas de metal curvadas saltou sobre o lixo derramado por um caminhão basculante no maior aterro sanitário do Senegal. Nas redondezas, com as mangas arregaçadas, espuma até os cotovelos, mulheres lavavam galões de plástico nas cores do arco-íris, cortados em pedaços. Ao redor deles, pilhas de brinquedos quebrados, potes de maionese de plástico e centenas de perucas sintéticas descartadas esticadas a perder de vista, tudo pronto para ser vendido e reciclado.

O lixo plástico está explodindo no Senegal, como em muitos países, à medida que as populações e os rendimentos crescem e, com eles, a demanda por produtos embalados e produzidos em massa.

Isso deu origem a uma indústria crescente construída em torno da reciclagem de lixo plástico, tanto por empresas quanto por cidadãos. De comerciantes chineses a fabricantes de móveis e designers de moda de vanguarda, muitos no Senegal fazem uso do fluxo constante de lixo plástico.

Mbeubeuss - o local de despejo que serve a capital costeira do Senegal, Dakar - é onde tudo começa. Mais de 2.000 catadores de lixo, além de lavadores, picadores, transportadores em carroças puxadas por cavalos, intermediários e atacadistas ganham a vida encontrando, preparando e transportando o lixo para reciclagem. Isso se soma a uma enorme economia informal que sustenta milhares de famílias.

Há mais de 50 anos no lixão, Pape Ndiaye, o decano dos catadores, viu a comunidade que vive do lixão crescer, e os viu se voltarem para o plástico - um material que há 20 anos os catadores consideravam inútil. “Somos as pessoas que protegem o meio ambiente”, disse Ndiaye, 76 anos, olhando para o plástico espalhado em Gouye Gui, seu canto do lixão. “Tudo aquilo que polui, levamos para as indústrias, e elas fazem a transformação.”

Apesar de todos os esforços para reciclar, muito do lixo do Senegal nunca chega a aterros sanitários, em vez disso, polui a paisagem. Sandálias falsas e contêineres que já abrigaram uma versão local de drenos de bloco de Nutella. Sacos de plástico finos que antes continham água potável serpenteiam nas ondas senegalesas, como águas-vivas. Sacolas plásticas de compras queimam em bairros residenciais, enviando nuvens de fumaça com cheiro de produtos químicos para o ar nebuloso.

O Senegal é apenas um dos muitos países que tentam limpar, formalizar o sistema de eliminação de resíduos e adotar a reciclagem em maior escala. Até 2023, diz a União Africana, o objetivo é que 50% dos resíduos usados nas cidades africanas sejam reciclados.

Mas isso significa que o Senegal também precisa lidar com o sistema informal que cresceu ao longo de décadas, do qual o lixão em Mbeubeuss é uma parte importante. O plástico reciclado chega a empresas de todos os tipos em todo o Senegal, que tem uma das economias mais robustas da África Ocidental.

Em uma fábrica em Thies, uma cidade do interior conhecida por sua indústria de tapeçaria a leste de Dakar, bolinhas de plástico reciclado são fiadas em longas meadas, que são depois tecidas em tapetes plásticos coloridos usados em quase todos os lares senegaleses.

Tapetes desta fábrica feitos sob medida enfileiraram a passarela da Dakar Fashion Week em dezembro, desta vez focada na sustentabilidade e realizada em uma floresta de baobás. As placas foram construídas com garrafas de água velhas. Mesas e cadeiras foram feitas de plástico derretido.

A tendência mudou o foco dos catadores que trabalham no lixão há décadas, recolhendo qualquer coisa de valor. "Agora todo mundo está procurando plástico", disse Mouhamadou Wade, sorrindo largamente enquanto preparava um bule de chá doce e mentolado do lado de fora de sua barraca de triagem em Mbeubeuss, onde é catador há mais de 20 anos.

Adja Seyni Diop, sentada em um banco de madeira ao lado da barraca com o tipo de vestido longo e elegante preferido pelas mulheres senegalesas, concordou. Quando ela começou a catar lixo, aos 11 anos em 1998, ninguém estava interessado em comprar plástico, ela disse, então ela o deixava na lixeira, coletando apenas sucata. Mas hoje em dia, o plástico é de longe a coisa mais fácil de vender para intermediários e comerciantes. Ela sustenta sua família com a renda que ganha ali, entre US $25 e US $35 por semana.

Wade e Diop trabalham juntos no Bokk Jom, uma espécie de sindicato informal que representa mais da metade dos catadores de Mbeubeuss. E a maioria passa o dia procurando plástico.

A maioria dos catadores que tem como alvo o plástico, como Diop, o vende - a cerca de 13 centavos de dólar por quilo - para dois comerciantes chineses de plástico que têm depósitos no aterro. Os comerciantes o processam em bolinhas e os enviam para a China para serem transformados em novos produtos, disse Abdou Dieng, gerente da Mbeubeuss, que trabalha para a crescente agência de gerenciamento de resíduos do Senegal e trouxe um pouco de ordem ao caos do aterro.

O governo diz que em poucos anos o aterro gigante será fechado, substituído por centros de triagem e compostagem muito menores como parte de um projeto conjunto com o Banco Mundial. Então, a maior parte do dinheiro ganho com resíduos plásticos irá para os cofres do governo. Os catadores se preocupam com seus meios de subsistência.

Ndiaye, o último dos catadores originais que veio para Mbeubeuss em 1970, contemplou o que tem sido seu local de trabalho no último meio século. Lembrou-se do grande baobá, sob o qual costumava fazer as pausas para o chá, já morto há muito tempo, substituído por pilhas de plástico. “Eles sabem que há dinheiro nisso”, ele disse, sobre o governo. “E eles querem controlá-lo.”

Mas Dieng insistiu que os catadores receberão empregos nos novos centros de triagem “ou os ajudaremos a encontrar um emprego que lhes permita viver melhor do que antes”. Isso não tranquiliza a todos.

“Há muitas mudanças”, disse Maguette Diop, oficial de projetos da WIEGO, uma organização sem fins lucrativos focada nos trabalhadores pobres em todo o mundo, “e o lugar dos catadores nessas mudanças não está claro”.

Por enquanto, porém, centenas de catadores precisam continuar catando. Esquivando-se de escavadeiras, pilhas de tripas de animais e gado, com pontas de metal curvadas e sacos de lixo nas mãos, eles voltam para a luta. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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