Brendan Hoffman para The New York Times
Brendan Hoffman para The New York Times

Lobos ameaçam população do Leste da Ucrânia

Com a proibição da caça, predadores e presas se proliferaram e se aproximam de vilarejos

Jeré Longman, The New York Times

24 Agosto 2018 | 10h15

USPENIVKA, UCRÂNIA - Aleksandr Podlesnyi viu um vulto pulando sobre ele antes de se dar conta de que se tratava de um lobo. "De onde você veio?", pensou. Quando o lobo cravou os dentes em seu braço, ele avaliou a situação: "Ou eu o mato ou ele me mata".

Alewksandr, 41, saiu cedo de sua casa naquele 9 de dezembro e se tornou um exemplo extremo das consequências indesejadas da guerra que vinha acontecendo há quatro anos no Leste da Ucrânia entre as forças ucranianas e os separatistas apoiados pela Rússia.

A caça é proibida em áreas que se estendem por até 60 quilômetros da linha de frente com o objetivo de evitar possíveis incidentes e saber quem está atirando contra o quê. Consequentemente, presas como faisões e lebres estão se proliferando. Logo, predadores como raposas e lobos começaram a aparecer em quantidades cada vez maiores.

Um vizinho não hesitou em socorrer Alexandr e usou uma chave de roda para ajudar a abrir as mandíbulas do lobo. Um soldado de uma guarnição do outro lado da rua também veio correndo e atirou duas vezes na cabeça do animal, matando-o. O lobo, que atacara outros animais do bairro naquela manhã, muito provavelmente era hidrófobo, mas não foi feita qualquer autopsia no animal, segundo o veterinário chefe da região.

"A guerra faz irmão virar-se contra irmão e afeta todo mundo, todos os seres", disse Alexandr.

Os ataques contra pessoas continuam raros na estepe do leste ucraniano, e algumas iniciativas são permitidas para vacinar predadores.

Mas os moradores e as autoridades que monitoram a caça estão preocupados com a segurança das crianças, dos bichos de estimação e dos animais domésticos. Na aldeia de Mykolaipillya, os habitantes suspeitam que os lobos tenham matado nove cachorros em fevereiro e março.

Antes do início da guerra, em 2014, as associações de caça locais emitiam licenças para caçar certo número de faisões ou de lebres. Os moradores tinham permissão para matar um número ilimitado de raposas, por serem consideradas pragas, e também lobos, embora estes aparecessem raramente.

Agora, há cerca de 300 lobos na região do Donetsk, cerca de 100 a mais do que antes da guerra, segundo o diretor de uma associação de caça local, Alexandr Bognanov.

Durante uma guerra, é arriscado que pessoas caminhem em um campo carregando um fuzil. Elas podem pisar em uma mina ou ser vítimas de um franco atirador, segundo Viktor Storozhenko, diretor do departamento de administração florestal e de caça no Donetsk, onde se trava a maior parte dos combates.

De acordo com a polícia florestal, a população de raposas quadruplicou no Leste da Ucrânia. Em novembro do ano passado, Nikolai Yatsura foi até o lago na aldeia de Zvirove na esperança de ver se peixes mordiam as iscas. Mas descobriu que as únicas que as comiam eram as raposas.

Yatsura, 78, contou depois que viu uma raposa correndo em sua direção e tentou afastá-la agitando o boné. Lutou com ela, mas acabou perdendo a ponta do dedo mindinho da mão esquerda antes de matar o animal.

"Ele a asfixiou", contou o veterinário chefe da região, Sergey Lazorenko, que leu o relatório do incidente. A raposa tinha hidrofobia, segundo Lazorenko, mas Yatsura não foi infectado. As associações de caça tentam prevenir um surto de raiva espalhada pelas raposas.

"Até o momento, estamos dando conta da situação", afirmou Igor Savon, diretor da associação de caça e pesca do distrito de Slvyansk.

Para ele, se os esforços para controlar a população de carnívoros silvestres diminuírem consideravelmente, ou mesmo cessarem, "isso acabará se tornando um problema incontrolável".

Mais conteúdo sobre:
LoboUcrânia [Europa]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.