Serviço Nacional de Parques, via Associated Press
Serviço Nacional de Parques, via Associated Press

Uma sala de aula natural, onde os lobos imperam

A reintrodução de um predador beneficia a ciência e a natureza

Jim Robbins, The New York Times

07 de abril de 2020 | 06h00

No mês passado, há exatos 25 anos, 14 lobos do Canadá foram soltos em um oceano de alces na áspera extensão das estepes cobertas de sálvias e florestas de pinheiros do Parque Nacional de Yellowstone para ver o que aconteceria.

Os lobos recém-chegados começaram imediatamente a fazer o que eles fazem melhor: caçar as presas. O que ocorreu a partir desse momento é um admirável drama social e ecológico contínuo,  que mudou a postura dos biólogos em relação aos predadores e aos animais que eles perseguem. Além disso, transformou o mais antigo parque dos Estados Unidos, redimiu a imagem dos lobos e inspirou experiências semelhantes na vida selvagem no mundo todo.

Os lobos foram eliminados do parque e do restante das Northern Rockies com uma persistente campanha de caça, envenenamentos e armadilhas no início do século 20. Eram considerados rebotalho, odiados pelos caçadores e fazendeiros que temiam pela integridade do gado. Mas, graças em grande parte à sua reintrodução em Yellowstone, na maior parte no estado de Wyoming, os biólogos passaram a compreender o papel dos lobos na manutenção do equilíbrio ecológico do parque. Entretanto, o que distingue o retorno do lobo a Yellowstone mais do que qualquer outra coisa, é o fato de que as vidas diárias das matilhas de lobos são plenamente visíveis.

“É uma grande história de sucesso do Serviço Nacional de Parques”, segundo Douglas W. Smith, que veio a Yellowstone em 1994 para supervisionar o retorno do lobo e desde então não saiu mais daqui. “Ele está realizando o nosso objetivo principal: restaurar e reservar a natureza. Sem os lobos não seria restaurada e nem haveria  natureza”.

Em outros lugares, os biólogos que estudam o comportamento do lobo precisam viajar de avião, canoa e fazer longas caminhadas para visitar áreas remotas e penetrar cautelosamente na floresta para espiar os lobos. Em Yellowstone, disse o dr. Smith: “Posso ir de automóvel e observar os lobos com uma xícara de café na mão”.

Na época em que os 14 lobos foram soltos, em 1995, cerca de 20 mil alces povoavam a cordilheira setentrional do parque. Com poucos predadores, em dezenas de anos os alces devastaram tudo o que era verde.

Hoje, a população de alces gira em torno de 6 mil a 8 mil. Os lobos agora são cerca de 1.500 em Montana, Idaho e Wyoming, com 350 a 400 em Yellowstone. Fora de Yellowstone, eles podem ser caçados. Os lobos trouxeram uma série de surpresas, acrescentando importantes verdade ao nosso conhecimento sobre a vida de um animal que provavelmente gera mais ódio e amor - e mitos - do que qualquer outro.

Em uma das descobertas, os pesquisadores dos lobos em Yellowstone chegaram à conclusão de que as matilhas, que anteriormente supunha-se submissas a um macho alfa, na realidade são matriarcados. Além disso, as personalidades dos lobos têm um papel biológico. Quando uma fêmea alfa diferente assume a matilha, a caça e outras dinâmicas mudam.

Os biólogos observaram matilhas invadirem as tocas dos rivais e matarem os seus filhotes. “Todo o trabalho feito anteriormente nunca mostrou nada parecido”, disse L.David Mech, um cientistas pesquisador  da U.S. Geological Survey, que estuda os lobos  há 60 anos.

Os lobos também mudaram a vida de outros animais silvestres. Uma das dez matilhas do parque mata um alce a cada três dias aproximadamente - os biólogos documentaram 5 mil mortes por lobos - e os benefícios de várias centenas de quilogramas de carne no colo se espalham pelo ecossistema, alimentando outras espécies, dos ursos pardos aos camundongos e aos corvos.

As histórias de alguns lobos tornaram-se notórias. ”Vimos umas personalidades notáveis”, disse o dr. Smith. Por exemplo, a história do Lobo 21, que se uniu à Loba 42.

“As pessoas achavam o 21 um tremendo espécime físico, dono de grande sabedoria e compaixão”, contou o cientista. Quando a Loba 42 foi morta por uma matilha rival, o 21 “voltou ao lugar onde  estivera pela última vez com ela e uivou sem parar. Ninguém podia imaginar que os lobos chorassem os seus mortos”.

O dr. Mech ficou impressionado um dia quando ele e os seus estudantes estavam em um estacionamento antes de uma aula sobre lobos, conversando. Uma matilha de repente  surgiu de uma elevação próxima e lançou um ataque de surpresa contra um grupo de alces que pastavam tranquilamente, matando três.

“A aula está suspensa”, disse o dr. Mech aos estudantes brincando. “O que eu podia dizer para eles depois disso?” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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