REUTERS/Gustavo Graf
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Fugindo do lockdown, americanos estão indo para a Cidade do México

Hospitais estão lotados e casos de covid-19 estão aumentando, mas muitos estrangeiros, especialmente americanos, estão indo para a capital mexicana - alguns pretendem ficar por algum tempo

Oscar Lopez, The New York Times - Life/Style

14 de janeiro de 2021 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - No início, a vida durante o lockdown era "ok", ele trabalhava de casa, fazia exercícios com quem dividia a casa e maratonava tudo na Netflix. Mas, à medida que a pandemia do novo coronavírus avançava sem parar, Rob George começou a achar insuportável o confinamento em sua casa em West Hollywood.

“Houve semanas em que eu simplesmente não saía de casa, apenas trabalhava o dia todo - minha saúde mental estava definitivamente sofrendo”, disse George, 31 anos, que gerencia operações de negócios para uma startup de tecnologia.

Então, quando um amigo mexicano disse que estava viajando para a Cidade do México em novembro, George decidiu acompanhá-lo. Agora, ele está chamando de lar a capital mexicana - e é parte de um número crescente de estrangeiros, principalmente americanos, que estão indo para o México para uma viagem curta ou uma estadia mais longa para escapar das restrições em seus países de origem.

Eles são atraídos em parte pela perspectiva de trazer um pouco de normalidade para suas vidas em um lugar onde as restrições devido ao novo coronavírus têm sido mais relaxadas do que em casa, mesmo com os registros desoladores de casos de covid-19. Alguns deles estão ficando, pelo menos por um tempo, e aproveitando o visto de turista de seis meses que os americanos recebem ao chegar.

“Não tenho interesse em voltar”, disse George.

Mas embora ir para o México possa ser um alívio para muitos estrangeiros, especialmente aqueles que fogem de um clima mais frio, alguns mexicanos consideram a mudança irresponsável em meio a uma pandemia, especialmente porque o vírus já está sobrecarregando a Cidade do México e seus hospitais. Outros dizem que o problema está nas autoridades mexicanas, que esperaram muito para promulgar medidas restritivas de bloqueio total, tornando lugares como a Cidade do México atraentes para estrangeiros.

“Se fosse menos atrativo, menos pessoas viriam”, disse Xavier Tello, analista de políticas de saúde da Cidade do México. “Mas o que estamos criando é um ciclo vicioso, em que recebemos mais pessoas potencialmente infecciosas ou infectadas de outros lugares e que continuam se misturando com pessoas potencialmente infecciosas ou infectadas aqui na Cidade do México”.

Em novembro, mais de meio milhão de americanos foram ao México - desses, quase 50 mil chegaram pelo aeroporto da Cidade do México, de acordo com números oficiais, menos da metade do número de visitantes dos EUA que chegaram em novembro do ano passado, mas um aumento dos 4 mil que foram em abril, quando grande parte do México foi fechada. Desde então, os números têm aumentado constantemente: entre junho e agosto, os visitantes dos EUA mais do que dobraram.

A maioria dos outros visitantes dos EUA no México foram para resorts de praia em cidades como Los Cabos e Cancún.

Não está claro quantos são turistas e quantos estão se mudando, pelo menos temporariamente. Alguns podem ser mexicanos que também têm passaportes dos EUA e estão visitando a família. Mas ao andar pelas ruas dos bairros mais badalados da Cidade do México hoje em dia pode-se ter a impressão, às vezes, de que o inglês se tornou a língua oficial.

“Muitas pessoas estão vindo para testar como é viver por aqui ou simplesmente se mudaram”, disse Cara Araneta, uma ex-moradora de Nova York que viveu durante breves períodos na Cidade do México por dois anos e voltou para a capital em junho.

O aumento, entretanto, ocorre enquanto a Cidade do México entra em uma fase crítica da pandemia; hospitais estão tão sobrecarregados que muitos doentes ficam em casa enquanto seus parentes lutam para comprar oxigênio. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA aconselharam os americanos a evitarem todas as viagens ao México.

O sistema de saúde da capital “está basicamente sobrecarregado”, disse Tello, por mensagem pelo WhatsApp. "O pior está por vir."

Em meados de dezembro, as autoridades intensificaram o sistema de alerta da Cidade do México para o nível mais alto - vermelho - que exige o fechamento imediato de todos os estabelecimentos, exceto os essenciais. Mas o lockdown veio semanas depois que os registros se tornaram críticos, mesmo para os próprios registros do governo, deixando lojas lotadas de pessoas fazendo compras para o Natal e restaurantes repletos de clientes.

A Cidade do México não é o único destino mexicano que vê um aumento repentino de visitantes estrangeiros, principalmente americanos, que - com a pandemia que assolando os EUA - estão impedidos de viajar para muitos países. Embora algumas nações latino-americanas por vezes tenham fechado suas fronteiras completamente, o México impôs poucas restrições: o México foi o terceiro país mais visitado em 2020, ante o sétimo lugar em 2019, segundo o governo mexicano, citando estatísticas preliminares da Organização Mundial de Turismo.

Grande parte dessas viagens tem se concentrado nos populares resorts de praia do país, onde as restrições ao novo coronavírus podem ser ainda mais relaxadas. Los Cabos recebeu quase 100 mil americanos em novembro, enquanto Cancún teve 236 mil visitantes dos EUA, apenas 18% menos do que em 2019. A cidade turística vizinha de Tulum foi manchete por sediar um festival de arte e música em novembro que teve centenas de pessoas dançando sem máscara dentro de cavernas subterrâneas.

As autoridades da Cidade do México pediram aos residentes que evitem festas e aglomerações e, mesmo antes do lockdown mais recente, o governo tinha limitado a capacidade dos restaurantes e proibiu a venda de bebidas alcoólicas após as 19 horas. Ainda assim, as medidas estavam muito mais brandas em comparação àquelas em cidades dos EUA como Los Angeles, que, no final de novembro, baniu comer fora totalmente e proibiu todas as aglomerações públicas.

Porém, desfrutar de salões de restaurantes lotados ou outras atividades antes consideradas normais traz seus próprios riscos.

Nicole Jodoin se mudou do Canadá para a Cidade do México depois de conseguir um emprego na cidade em julho. Parte de seu ímpeto foi que, com o fechamento das fronteiras canadenses, ela se viu separada do namorado escocês. As fronteiras abertas do México e os longos vistos de turista para europeus ofereceram a eles a chance de ficarem juntos.

Então, ela e o namorado foram infectados pela covid-19. Eles estavam tomando precauções, disse Nicole, mas jantaram fora várias vezes e usaram Ubers antes de ficarem doentes. O casal se isolou e se recuperou, mas os sintomas de Nicole têm persistido.

Mesmo assim, a maioria dos estrangeiros diz que a vida é melhor na Cidade do México do que no país de origem. Cara Araneta foi visitar sua família em San Diego em novembro, mas achou que estar nos EUA foi um desafio.

“Senti como se estivesse mais isolada”, disse ela. “Muitas pessoas estão muito mais solitárias.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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