Elizabeth Dalziel/The New York Times
Elizabeth Dalziel/The New York Times

O lockdown manteve os torcedores britânicos em casa. Então, os clubes de futebol foram até eles

Quando a pandemia fechou os estádios no Reino Unido, os clubes de futebol procuraram seus torcedores mais vulneráveis para ter certeza de que eles estavam bem

Jack Williams, The New York Times - Life/Style

17 de janeiro de 2021 | 05h00

No início de março, Roger Balsdon estava pronto. Durante meses, ele e a esposa, Gloria, planejaram uma viagem de sua casa, em Plymouth, ao longo da costa sul da Inglaterra, até Southampton, onde embarcariam em um navio de cruzeiro para uma viagem de comemoração do 60º aniversário de casamento.

Em um piscar de olhos, tudo ao redor ficou obscuro, relembra Balsdon. Com a propagação do coronavírus, o casal, preocupado com o risco de viajar durante uma pandemia, cancelou a viagem. Algumas semanas depois, Gloria morreu, inesperadamente, aos 76 anos. Poucos dias mais tarde, o bloqueio imposto para combater a pandemia deixou Roger Balsdon, de 80 anos, isolado em casa. Ele ficaria lá, sozinho, pelas próximas 12 semanas. "Para ser honesto, eu estava no fundo do poço. Não me importava com mais nada. Eu me sentia como se não quisesse mais continuar", disse.

Então, um dia, o telefone tocou. Do outro lado da linha, estava uma mulher chamada Emma Potter, que se identificou como associada do Argyle Community Trust, instituição de caridade ligada ao time de futebol local, o Plymouth Argyle, para o qual Balsdon torce desde menino. Potter explicou a ele que seu filho lhe tinha fornecido seu número. Potter contou que só queria saber como Balsdon estava lidando com a situação e perguntar se havia algo que pudesse fazer. "Gosto de pensar que somos um clube da comunidade. Tentamos usar isso como nosso etos e dizer isso às pessoas. Somos mais do que um time de futebol: somos uma grande família", ela afirmou.

Assim que o coronavírus atingiu o Reino Unido e fechou a porta dos estádios e quase tudo nas cidades grandes e pequenas, os clubes de futebol profissional do país - cientes da importância que têm para as pessoas que dependem deles para estabelecer um senso semanal de rotina, de comunidade - procuraram novas formas de identificar os torcedores mais solitários e vulneráveis e interagir com eles.

Os jogadores do Bristol Rovers, do Portsmouth e do Exeter City fizeram entregas de comida e trabalhos comunitários. Os do Bournemouth, do Watford e do West Brom telefonaram para os torcedores vulneráveis para ver como estavam. Deram aulas de culinária e fizeram questionários via Zoom; organizaram programas de amigos por correspondência, aulas de ginástica e festas on-line. Um clube contratou o que chamou de diretor de solidão, e ele, assim que assumiu o cargo, começou a trabalhar para encontrar torcedores que pudessem ter ficado para trás.

Surpresas foram criadas por presidentes e treinadores. Ex-jogadores e jogadores atuais fizeram visitas sem avisar com antecedência. Alguns torcedores receberam iPads com instruções sobre como usá-los para assistir aos jogos ou para ligar para a família. Outros receberam a receita médica das mãos de funcionários do clube.

Ainda hoje, conforme a pandemia avança, o mesmo ocorre com os esforços da comunidade. Em dezembro, os jogadores do Doncaster Rovers passaram um dia entregando cestas de Natal para dezenas de torcedores que ainda não podiam sair.

"É o lado mais suave do futebol. Faça com que sintam que não estão sozinhos. Mostre que existe alguém que se preocupa com eles. Isso é mais fácil quando parte de um clube de futebol, porque o esporte é uma maneira de aproximar as pessoas", comentou Simon Hallett, presidente do conselho do Plymouth Argyle, que ligou para dezenas de torcedores que a instituição identificou como vulneráveis ou solitários.

Muitos esforços têm sido de colaboração entre os clubes de futebol e seus braços sem fins lucrativos. Essas fundações e instituições são geralmente registradas como organizações separadas, mas ainda compartilham uma associação e recursos (instalações, nomes, endereços de e-mail, números de telefone) com os clubes. Numa época em que os torcedores podem confiar mais em seu clube de futebol local do que no governo nacional, esses relacionamentos - e um senso estritamente local de confiança e responsabilidade - têm sido cruciais.

"Nossos clubes de futebol estão aqui há mais tempo do que o Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês). Estão aqui há mais tempo do que muitos hospitais locais. Estão presentes em muitas comunidades desde a era vitoriana e são uma parte confiável da comunidade e do tecido social da vida nesses lugares", disse Adrian Bradley, diretor de Saúde e Bem-Estar da English Football League Trust (a organização da Liga de Futebol Inglesa), que supervisiona as entidades de caridade dos clubes de futebol em vários níveis da estrutura da liga.

Segundo Balsdon, o primeiro telefonema que recebeu de Potter foi como um "raio de sol", e, durante as semanas e meses que se seguiram, ela ligou para ele ou o visitou algumas outras vezes. Com a ajuda do clube de futebol, a instituição Argyle Community Trust também organizou chamadas telefônicas com o técnico da equipe principal, Kevin Nancekivell, com quem Balsdon discutiu o desempenho do time.

O esforço - parte trabalho comunitário, parte programa de saúde mental - é emblemático de uma conscientização coletiva mais ampla que há em todo o Reino Unido a respeito da solidão da população. Especialistas declararam que o problema é particularmente agudo entre homens adultos e idosos, mas a discussão em torno dele aumentou nos últimos anos - ajudada pelos esforços para reduzir o estigma associado a falar sobre a saúde mental e por uma série de documentários e campanhas de televisão que deram evidência à questão.

A pandemia apenas aumentou a ansiedade. Um estudo divulgado em junho pelo Office for National Statistics, órgão do Parlamento do Reino Unido responsável por colher e publicar estatísticas populacionais, econômicas e sociais, descobriu que 2,6 milhões de adultos relataram ter se sentido solitários "com frequência" ou "sempre", ao passo que 7,4 milhões de adultos comentaram ter se sentido solitários nos últimos sete dias.

Para Keith Curle, gerente do clube Northampton Town, lidar com a questão significava conseguir o número de telefone de torcedores potencialmente vulneráveis assim que o bloqueio começou e ligar para dois ou três deles por dia em meados do ano passado. "A melhor coisa foi que as conversas seguiram um rumo natural - não havia diretrizes. Nós nos apresentávamos e depois simplesmente conversávamos. Às vezes, sobre golfe. Às vezes, sobre o que alguém havia planejado na casa, sobre o emprego que a pessoa tinha. Qualquer coisa que envolvesse as pessoas e lhes desse um pouco de normalidade e compreensão de que estamos todos no mesmo barco", observou Curle.

Desde março, segundo o EFL Trust, os clubes das principais divisões do futebol inglês e seus funcionários entregaram mais de 643 mil cestas básicas para os membros vulneráveis das comunidades, bem como 29 mil itens de equipamento de proteção individual e mais de 5.200 receitas médicas. Quase 250 mil telefonemas de e para membros da comunidade que precisam de ajuda foram registrados pelas equipes do EFL Trust, além de inúmeras cartas. Esses números não incluem o trabalho da Premier League (a primeira divisão do Campeonato Inglês), cujas equipes desenvolveram iniciativas próprias para combater a solidão.

Em outubro, depois de seis meses praticamente sem sair de casa, Balsdon foi convidado pelo Argyle Community Trust para comparecer a um café da manhã que estava sendo oferecido aos torcedores. Lá, ele conversou sobre tudo do Argyle, o time que viu pela primeira vez há mais de sete décadas, quando seu pai e seu tio o colocaram - com apenas cinco anos - sobre uma cerca alta para que pudesse ver o campo sobre os milhares de torcedores mais altos que estavam abaixo dele. "Aquilo me fez pensar de forma diferente sobre o mundo", disse ele.

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