Eve Edelheit/The New York Times
Eve Edelheit/The New York Times

Locutor deficiente visual agora tem que se adaptar ao vazio deixado pela torcida

Com a torcida afastada dos estádios por causa do coronavírus, Enrique Oliu enfrenta novos desafios para narrar jogos de beisebol nos EUA

James Wagner, The New York Times - Life/Style

27 de setembro de 2020 | 05h00

A trilha sonora da temporada de beisebol de 2020, tocada em meio a uma pandemia, é sem dúvida diferente. O estalo da luva do apanhador, a paulada do taco e o fervor dos bancos de reserva soam mais alto sem o barulho de dezenas de milhares de torcedores aplaudindo. No entanto, falta uma certa energia nesses jogos com arquibancadas vazias: não tem aquele crescendo natural para os grandes momentos, aquelas vaias depois dos momentos ruins.

Talvez ninguém na Major League Baseball sinta as mudanças desta montanha-russa auditiva com mais intensidade do que Enrique Oliu, de 58 anos, veterano locutor de rádio em espanhol do Tampa Bay Rays. Apesar de ser deficiente visual desde que nasceu na Nicarágua, Oliu construiu uma carreira de 21 anos com os Rays, contando tanto com seu profundo conhecimento do esporte quanto com sua audição aguçada para captar pistas sobre o que está acontecendo no campo.

Um apito inconfundível no Yankee Stadium significava um strike do time visitante. A música tema do filme Um Homem Fora de Série sinalizava um home run do Texas Rangers em casa. As reações dos torcedores lhe diziam se a bola tinha sido rebatida ou parada na luva.

Essa sinfonia de beisebol, entretanto, mudou nesta temporada, com algumas notas tocando mais forte do que nunca e outras desaparecendo completamente. Oliu está saboreando a vibrante paisagem sonora, mesmo que a falta de torcedores às vezes tenha dificultado seu trabalho. “É o melhor som que se pode ter”, disse Oliu recentemente.

“Me leva de volta a quando eu era pequeno e imaginava jogos no meu quarto, quando inventava minhas coisas e eliminava as pessoas de quem não gostava, mas todo mundo de quem gostava dava uma bela tacada”. Mesmo que esta temporada reduzida e extraordinária já tenha realizado mais de dois terços dos jogos, o esporte ainda está diferente para Oliu.

Não que ele esteja reclamando. Ele adora esportes e ainda mais transmiti-los no rádio. “Se duas baratas estivessem disputando uma corrida, eu já iria adorar também”, disse ele, rindo. Oliu preza o laço que o une diariamente a seus ouvintes de beisebol na terra do rádio, como ele diz. Sua esposa, Debbie Perry, diz que ele nunca se queixou de estar cansado de fazer jornada dupla: há 28 anos, ele trabalha em tempo integral como representante comunitário e intérprete no gabinete do Defensor Público do Condado de Hillsborough.

Talvez um dia, ele se aposente do trabalho diário, disse ele, mas nunca da cadeira que ocupa atrás do microfone. “Vocês vão ter que me enterrar aqui”, disse. Ele se sente grato por seu amado esporte estar sendo jogado, mesmo que não esteja soando como antes. “Sempre fui um cara muito otimista desde o dia em que meus pais me mandaram para um colégio interno, aos cinco anos de idade”, disse ele.

“Sempre procuro encontrar algo de bom. Seria melhor não ter beisebol? Não. Então, está ótimo”. Nascido em Matagalpa, cidade no centro da Nicarágua, onde o beisebol é o esporte nacional, Oliu saiu de casa ainda menino para estudar numa escola para deficientes visuais na Costa Rica porque, na época, era a única na América Central, disse ele.

Cinco anos depois, sem saber uma palavra de inglês, Oliu foi morar com sua tia, para estudar na Escola para Surdos e Cegos da Flórida, em St. Augustine. Lá, ele aprendeu com um professor a visualizar o que estava ouvindo quando devorava esportes pelo rádio e sonhava em ser locutor, como Milo Hamilton ou Marv Albert.

“Meu pai sempre disse: ‘Como você vai fazer uma coisa dessas? Não quero mais ouvir essa história de você querer narrar. Quero ver narrando’”, disse Oliu. “Era o que ele dizia: ninguém vai dar a mínima se você é deficiente visual ou não, então é melhor você ter determinação”. Depois de adquirir experiência em ligas menores e jogos de categorias sênior, Oliu chegou às ligas principais em 1998.

Orestes Destrade, que conheceu Oliu na Flórida antes de jogar quatro temporadas nas ligas principais, recomendou seu antigo colega de classe para a transmissão dos Rays em espanhol, e Oliu está com o clube desde então. “Narrar esse jogo por mais de vinte anos não é fácil”, disse Ricardo Taveras, parceiro de longa data de Oliu nas transmissões. “Não é só dizer ‘Oh, lançaram a bola’ ou ‘Estamos aqui no campo’.

Você precisa ter muita coragem interna e uma enorme força de vontade. Enrique, embora não possa ver, é mais completo do que muitos que têm a visão”. Mas Oliu admite que as peculiaridades do beisebol agora em 2020 deixaram seu trabalho mais difícil do que nunca.

O barulho artificial da multidão tocado em muitos estádios não é páreo para os gritos, as vaias e os cantos de verdade, que ajudam a orientar suas falas. “Você não tem a expectativa dos torcedores prendendo a respiração, tipo ‘Oooh’”, disse ele. “De vez em quando, você ouve o som da luva no fone de ouvido e o aquecimento do arremessador. Mas isso também pode ser uma distração, porque você acha que é um arremesso sendo feito, mas não – é só um cara se aquecendo. Você fica meio confuso”.

O que Oliu mais perdeu nesta temporada, ainda mais do que o rugido da torcida, foi o contato com os seres humanos de verdade, a conversa cara a cara antes do jogo. Enquanto Taveras narra os movimentos jogada a jogada, Oliu é o comentarista, então seu trabalho é preencher a transmissão com contexto, anedotas e pepitas de informação.

Em temporadas anteriores, Oliu costumava vagar pelo Tropicana Field com sua esposa antes dos jogos em casa, dando um pulo na sede do clube, visitando as cabines de transmissão e a sala de imprensa para conversar com jogadores, treinadores, olheiros e profissionais das outras emissoras, além dos torcedores, claro. (Nos jogos fora de casa, Oliu e Taveras trabalhavam no Tropicana Field, com Oliu se informando por meio de feeds de áudio e televisão).

As restrições causadas pelo coronavírus acabaram com essa rotina. Oliu ainda se prepara para os jogos com a esposa, estudando as estatísticas, ouvindo entrevistas e estações de rádio de beisebol, lendo sobre os Rays e seus adversários (ele tem dezenas de alertas de voz em seu iPhone). Mas ele caracterizou essa forma mais impessoal de beisebol de “estéril” e sente falta dos amigos durante o jogo.

“Ele sempre me disse: não vê muita graça nos outros esportes, como o futebol americano, em que você conversa com o técnico um dia por semana”, disse Perry. “Já no beisebol você constrói seu relacionamento com jornalistas, treinadores, jogadores e outras pessoas que vão chegando. Acho que é o primeiro ano em que esses relacionamentos não são uma vantagem. Você ainda pode ligar para alguém, mas não é exatamente a mesma coisa que falar pessoalmente e ter a sensação do dia a dia”. Mas, ela acrescentou, “Enrique é bastante resiliente. Ele aprendeu a se adaptar”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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