Brittainy Newman/The New York Times
Brittainy Newman/The New York Times

Por dentro da loja secreta dos tesouros esquecidos de Nova York

Como uma loja de conserto de máquinas de costura meticulosamente abarrotada se tornou um museu acidental

Annie Correal, The New York Times

27 de dezembro de 2019 | 06h00

Uma campainha soou e um homem entrou, as mãos metidas nos bolsos. Steve Hecht ergueu o olhar. Era um profissional da limpeza que ele conhece. Vem visitar quando encontra algo que possa interessar a Hecht. Dessa vez era um manequim, e dos grandes. “Interessado em um tamanho 20?” perguntou o homem. Ele disse que buscaria ali perto. “Não", disse Hecht, cruzando os braços grossos sobre o avental de camurça. “É feminino demais para mim.” Quando o homem foi embora, Hecht disse, “Já tenho três ou quatro no tamanho 20. Tem que haver um limite".

Hecht tem muitos manequins antigos meticulosamente amontoados na fachada de sua loja em West 38th Street, um bairro que está se tornando o ex-distrito da costura. Ele também tem fotos de nudez e ingressos de um empório do sexo atualmente abandonado. Tem um para-raio antigo de uma camisaria de Hell’s Kitchen, latas de óleo encontradas quando a antiga estação Pennsylvania foi desmantelada. O sino na porta da frente já esteve em um ringue de boxe.

Hecht representa a terceira geração de proprietários da Hecht Sewing Machine and Motor Company, loja de reparos de máquinas de costura que funciona há mais de 100 anos. Com o fechamento dos ateliês de costura e pequenas lojas do bairro, o endereço dele se tornou um repositório da velha Nova York.

Durante anos, o acervo reunido discretamente na loja permaneceu um segredo conhecido, uma dica transmitida de um artista a outro. O fotógrafo Robert Frank costumava vasculhar a loja em busca de algumas das primeiras fotografias colorizadas e bonecos de chumbo, disse Hecht, e quando os amigos perguntavam onde poderiam encontram um presente para oferecer-lhe, ele os encaminhavam para a loja de reparos. O ator James Gandolfini, conhecido pelo papel de Tony Soprano na TV, visitava a Hecht em busca de badulaques e artigos colecionáveis para seu motorista, seu porteiro e Matt Damon.

Agora, astros do hip-hop foram encaminhados à Hecht pelos atendentes da Nepenthes New York, butique de moda japonesa do outro lado da rua. Os turistas têm menos sorte. A maioria é mandada embora antes que seus olhos tenham se ajustado à escuridão. Hecht não permite fotos nem aceita cartão de crédito. Uma corrente pesada divide a loja. “É a corrente dos turistas", disse Hecht. “Serve para preservar minha sanidade.”

Seja como for, a maioria dos objetos na loja não está à venda. Hecht pode abrir uma exceção para um colecionador obsessivo de canetas-tinteiro ou dedais, por exemplo, ou para uma celebridade reconhecida e encaminhada pela Nepenthes: “J. Lo", disse Hecht, referindo-se a Jennifer Lopez, por exemplo. “Veio do Bronx, como eu.”

Mas, como ele diz aos turistas, o lugar não é uma loja de antiguidades: ali são consertadas máquinas de costura. Hecht ampliou o acervo - significativamente - mas ainda depende dos pedidos de reparo de máquinas de costura, recebendo clientes em número suficiente, que vão desde o Metropolitan Opera até costureiras do Queens. 

Com isso, não precisa vender seus tesouros para pagar o aluguel, embora alugue e venda itens para produtores cenográficos da TV e do cinema. Conserta máquinas de costura para clientes da Broadway e para o departamento de modificações das grandes lojas, recebendo os clientes no que ele chama de balcão de negócios: uma cabine de madeira do tamanho de uma bilheteria de cinema.

Conjuntos de tesouras pendem das colunas. Sacas de cabeças de vassouras de palha e pêlo lotam as prateleiras. Esses artigos foram reunidos de centenas de fábricas do distrito da costura. Tudo teve início nos anos 1970, quando a indústria no bairro começou a perder o ritmo. “Foi nessa época que os grandes fabricantes que chegaram após a 2ª Guerra Mundial se aposentaram", disse ele.

“As fábricas estavam fechando, e os donos partiam para aproveitar a aposentadoria na Flórida ou no Arizona", acrescentou ele. “Eu chegava lá e encontrava o charuto ainda aceso no cinzeiro de cristal.” Os Hechts compravam o equipamento e levavam tudo o mais que ficasse para trás nessas fábricas, às vezes pagando um valor baixo. “Em geral, era como se fizéssemos um favor aos donos", disse Hecht. “O lugar ficava limpinho.”

Em pouco tempo, catadores e recicladores souberam no hábito de Hecht, e começaram a trazer para ele aquilo que encontravam no distrito da costura e além. Mas o segredo para a longevidade da loja ainda é o mesmo. “Uma máquina muito simples, e muito problemática", disse Hecht, acariciando uma máquina de costura. Andy Newman contribuiu com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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