Bethany Mollenkof para The New York Times
Bethany Mollenkof para The New York Times

Em Los Angeles, sombra de árvores é sinal de privilégio (e desigualdade)

Agora, em lugar de vender o sol como atração, as autoridades o estão tratando como um problema cada vez mais sério

Tim Arango, The New York Times

12 de janeiro de 2020 | 06h00

LOS ANGELES - Não há fim para os emblemas de privilégio desta cidade. Teslas entopem as rodovias. As famílias ricas procuram ansiosas as vagas ambicionadas em jardins de infância chiques. E nas colinas de Bel-Air, as ruas arborizadas oferecem alívio contra o calor que castiga as pessoas.

O sol sempre foi o atrativo de Los Angeles, mas a sombra é cada vez mais considerada uma mercadoria preciosa, com a convergência da crise da mudança climática e da desigualdade. Agora, em lugar de vender o sol como atração, as autoridades o estão tratando como um problema cada vez mais sério.

Usando os dados em que sobrepõem as áreas de calor intenso com as rotas de trânsito público mais movimentadas, a prefeitura se preocupa em instalar proteções contra o sol em cerca de 750 paradas de ônibus, usando árvores, lonas ou ombrelone. A prefeitura anunciou que tem como objetivo o plantio de 90 mil árvores até 2021. Algumas palmeiras, que foram definidas a imagem da cidade, mas não fornecem muita sombra, poderão ser relocadas.

“Talvez você não veja a coisa deste ponto de vista, mas a sombra é uma questão de equidade”, afirmou recentemente o prefeito Eric M. Garcetti. Nos bairros ricos como Bel-Air ou Beverly Hills, árvores imponentes sobreiam as ruas. Nos mais pobres, como South Los Angeles, as pessoas que esperam nas paradas dos ônibus buscam a menor sombra até a do poste da parada, em baixo dos toldos das lojas, ou mesmo a de uma pessoa de pé na sua frente.

O sol foi uma mercadoria vendível em Los Angeles no final do século 19 e começo do 20. Folhetos e livros distribuídos em todo o país retratavam o Sul da Califórnia como uma utopia ensolarada, e o marketing contribuiu para impulsionar o crescimento de Los Angeles até torná-la uma grande metrópole.

Mas à medida que a terra esquenta, a questão da sombra chama mais a atenção dos planejadores urbanos. Em um artigo publicado no Places Journal no ano passado, o escritor Sam Bloch definiu a sombra “um índice de qualidade, uma exigência para a saúde pública, e um elemento obrigatório para os planejadores urbanos e os projetistas”.

Christopher Hawthorne, o chefe dos projetistas da prefeitura, lembrou do título do livro de 1942 sobre Los Angeles do escritor Timothy Turner: Turn Off the Sunshine (Desligue a luz do sol). “Há momentos em que todos nós em Los Angeles gostaríamos que fosse possível desligar o sol”, ele disse, “e estes dias estão se tornando mais frequentes a cada ano em razão da mudança climática”.

Os habitantes ricos vão a toda parte em seus carros com ar condicionado, deixando os ônibus da cidade e suas calçadas escaldantes para os que estão lá em baixo na escala econômica. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, previram que a cidade poderá sofrer um acentuado aumento do número de dias de calor extremo - definido por uma temperatura de 35ºC ou mais.

No centro de Los Angeles atualmente as pessoas experimentam sete dias ao ano de calor extremo, mas este número poderá subir para 22 até 2050 e para mais de 50 até o final do século, segundo as previsões. Rachel Malarich, a primeira autoridade na área de silvicultura de Los Angeles, está tentando trazer a sombra para as comunidades mais carentes da cidade plantando mais árvores. “Estas comunidades deveriam ter acesso aos mesmos recursos de que as outras dispõem”, ela disse. “E não quero algumas arvorezinhas. Nós precisamos encontrar espaços para grandes árvores”.

No entanto, em algumas comunidades que foram negligenciadas pela prefeitura, talvez seja difícil convencê-las da necessidade de novas árvores. Os moradores se queixam de que a prefeitura plantou árvores no passado e depois não cuidou delas, criando novos perigos e provocando danos às pessoas.

A falta de árvores em alguns bairros pobres também está relacionada a uma fiscalização considerada abusiva. De fato, durante anos, a prefeitura cuidou para que o crescimento das árvores fosse o mínimo do plantio em algumas comunidades porque a polícia temia que elas pudessem se tornar um lugar conveniente para ocultar drogas e armas.

Malarich mostrou um mapa da cobertura de árvores da cidade. As áreas ricas de West Los Angeles e o bairro de Los Feliz aparecem de um verde intenso, com uma cobertura de mais de 35%. South Los Angeles, ao contrário, tem pouca sombra, com apenas 10% a 12% de cobertura.

Malarich disse que as árvores  também são uma questão de saúde pública, e citou estudos que mostram que uma vasta vegetação em uma comunidade está relacionado a menores índices de asma, à redução de visitas hospitalares durante as épocas de seca e à melhoria da saúde mental. “Todos os nossos bairros deveriam desfrutar destes benefícios”, ela disse. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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