Daniel Dorsa/The New York Times
Daniel Dorsa/The New York Times
Jennifer Vineyard, The New York Times - Life/Style

24 de fevereiro de 2021 | 05h00

Em Losing Alice, nova série de suspense psicológico israelense da Apple TV+, uma diretora de cinema que era bastante nervosa chamada Alice Ginor está prestes a retornar à carreira. Por muito tempo, seu talento ficou atrofiado enquanto aceitava trabalhos para pagar as contas, como dirigir comerciais de iogurte, com o objetivo de constituir família com o marido astro de cinema, David (Gal Toren).

No entanto, seu entusiasmo pela vida é renovado por um encontro casual com uma jovem roteirista sexy chamada Sophie (Lihi Kornowski) e uma oportunidade de dirigir um novo filme, que acaba sendo difícil (por ser estrelado pelo marido) e possivelmente perigoso (o diretor original desaparece, e a violência perturbadora do roteiro começa a se parecer menos com ficção). Alice estará disposta a arriscar a família e o casamento para fazer esse filme?

A atriz israelense-americana Ayelet Zurer, conhecida por séries como Daredevil e BeTipul (refeita nos Estados Unidos sob o título In Treatment, ou "Em Terapia", no Brasil), teve dificuldades com o roteiro de Losing Alice no início por não saber como retratar a complexa personagem principal. Segundo ela, as coisas se encaixaram quando percebeu que Alice não é uma vítima, mas simplesmente uma mulher que é obrigada a fazer escolhas incomuns, mesmo que algumas sejam autodestrutivas. Isso fica claro no desempenho expressivo de Zurer, na maneira como consegue vender a devastação e o orgulho em um único olhar enquanto Alice se entrega à sua fome criativa.

"Acho que as pessoas vão pensar, como pensei, que há uma sensação de vitimização e então vão perceber: 'Ah, não foi bem assim.' Acho que vão notar que isso é muito feminista", disse Zurer.

Durante um telefonema de sua casa em Los Angeles, Zurer falou da experiência de mergulhar em um papel intenso e do motivo pelo qual tantas pessoas em Losing Alice atendem à porta vestindo roupa íntima. Estes são trechos editados da conversa.

Você trabalhou com muitos diretores notáveis, incluindo Steven Spielberg (Munique), Ron Howard (Anjos e Demônios) e Zack Snyder (O Homem de Aço), mas com poucas mulheres. Você usou alguém com quem trabalhou para retratar Alice?

Sigal Avin, que criou Losing Alice, foi a terceira diretora com quem trabalhei em toda a minha carreira. Foi uma experiência muito diferente para mim pelo fato de ela ser quem é – muito honesta, despretensiosa e confiável. Há um sentimento de amizade muito profundo, de uma forma que não havia antes. Trabalhei com diretores incríveis, mas realmente a observei mais do que observei qualquer outra pessoa, para usá-la na Alice, já que ela estava bem ao meu lado.

Houve um momento em que fiquei maravilhada com Sigal, embora isso seja um reflexo de como vejo as mulheres nessa área. Tínhamos uma cena em um trem e recebemos o trem errado. Não era o que ela esperava, nem o que tinha pedido ou imaginado. E, porque o estilo da série era tão importante, e ela não deixava escapar nenhum detalhe, eles pararam de filmar. 

Ela disse: "Não, não vou filmar isso", e fomos para casa. Isso nunca tinha acontecido comigo em um set. Foi um momento tão profundo vê-la tomar essa decisão – sem desculpas, sem culpa, sem drama. Foi apenas "Não". E pensei: "Essa é Alice. Essa é Alice em seu melhor." Se eu disser não, me sinto culpada, entende o que quero dizer? (Risos.) Assim, Sigal estava profundamente dentro da Alice – na forma como falava, como se comportava, como respondia a certas coisas.

A imagem corporal e o voyeurismo têm um papel importante na série. No início, Alice não está feliz com seu corpo, enquanto o corpo de Sophie é constantemente exibido. E, curiosamente, muitas pessoas atendem à porta vestindo roupa íntima.

(Risos) Verdade. Tudo começa com a autoimagem. Para Alice, isso tem a ver com seu estado emocional, com o fato de que ela não se sente realizada. É uma sensação de sufocamento. E posso dizer, pela minha experiência pessoal, que não foi fácil. Eu costumava ser muito magra e atlética. Dançava e fazia Pilates. E, alguns anos atrás, me machuquei e não consegui me exercitar. Isso gerou uma grande mudança na minha vida.

Quando cheguei ao set, fiz a escolha de não emagrecer, de não fazer exercício físico para esse papel, porque senti que esse é exatamente o corpo que essa mulher teria – não se sentindo necessariamente bem com roupa íntima. É exatamente assim que Alice se sente. Toda a ideia de quase não usar maquiagem e não arrumar o cabelo, aparecendo na tela com o aspecto que tenho quando acordo de manhã – isso às vezes foi desconfortável também. Na verdade, foi um momento interessante e estranho em que as mulheres no set me diziam que eu era bonita, independentemente de qualquer coisa.

Pessoas vestindo roupa íntima aumentam a sensação de voyeurismo. Uma das laterais da casa de Alice é de vidro, e vemos as pessoas nuas entrando e saindo do chuveiro. Losing Alice é uma peça de gênero e naturalista ao mesmo tempo. E ver as pessoas dessa maneira afeta o senso de percepção – como percebemos os outros, como os outros nos percebem. Isso amplifica a sexualidade dela ao longo do caminho. Vemos Alice ficando mais forte quando deixa de usar camiseta e calcinha e passa a usar um uniforme de trabalhadora. Há menos presença dela à medida que se torna mais sexual e mais poderosa. No entanto, essas cenas de imagem corporal foram as mais difíceis para mim.

Às vezes parece que Alice quer bagunçar a própria vida, como quando dirige o marido em uma cena de sexo explícito. O que você acha que ela espera disso?

Acho que isso está estranhamente não resolvido. Era quase como uma contrafobia, com ela indo ao encontro do medo. Há uma linha muito tênue entre a contrafobia e a autodestruição, mas seu processo é destruir para depois criar. É quase como o pássaro de fogo...

A fênix?

Sim, foi assim que acabei pensando nisso. Ela queima tudo para criar e reconstruir. Está nadando em uma zona perigosa porque acredita que é assim que vai conseguir obter o que há de melhor. Sei que, no fim, você poderá julgar a Alice. Eu só queria que ela tivesse o benefício da dúvida por meio do espaço emocional em que estava.

Há todo tipo de percepção do que é ser mulher, e Sigal está interpretando esses julgamentos. Julgamos por protótipos. Se uma mulher é jovem, bonita e livre, como pode ser uma boa escritora? É contra isso que Alice luta. E, como espectador, se você viu alguém se comportando de certa maneira, você acha que a história deve estar indo em determinada direção. Se vir uma musa, você logo assume que ela e o diretor terão um caso. Isso é realmente o que você acha, logo no início.

Acho interessante mostrar como as mulheres são hoje em dia. Meio que temos de fazer malabarismos entre a vida que queremos e a que temos. E a ideia de estar em certo ponto da vida no qual parece que você tem tudo, exceto uma paixão para se expressar, e aí vem essa criatura que acende um fogo em você. Se puder se alimentar dele, o que lhe acontece moralmente? Isso tem muito a ver comigo. É algo único poder apresentar uma mulher que busca o que deseja e não pede desculpas por isso.

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