Cornell Tukiri para The New York Times
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'Loteria científica' oferece financiamento a projetos inovadores

Conselho da Nova Zelândia dedica cerca de 2% de seu orçamento anual para financiar bolsas para 'exploradores'

Dalmeet Singh Chawla, The New York Times

02 de março de 2020 | 06h00

Alguns anos atrás, Anna Ponnampalam começou a apostar em uma loteria. Mas ela não estava comprando bilhetes que prometiam dinheiro para a vida toda. Estava tentando ganhar financiamento para sua pesquisa em medicina.

Da primeira vez, seu projeto não foi bem-sucedido. Todas as propostas passam por um teste da qualidade inicial, e a dela não foi aprovada; as aprovadas são sorteadas para receber financiamento. Mas a Dra. Ponnampalam, bióloga reprodutiva da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, não desistiu. Ela ganhou NZ$ 150 mil (US$ 96 mil) do Conselho de Pesquisa em Saúde da Nova Zelândia em 2017 para estudar infertilidade e a mesma quantia em 2019, para estudar endometriose.

“Acho uma boa ideia dar financiamento dessa maneira, para atrair novas propostas”, o que pode levar a “grandes descobertas científicas”, disse.

Desde 2013, o Conselho da Nova Zelândia dedica cerca de 2% de seu orçamento anual para financiamento ao que chama de bolsas para exploradores, pedindo aos candidatos que apresentem propostas que considerem “transformadoras, inovadoras, exploratórias, não convencionais e com potencial de grande impacto”. Essas loterias vêm sendo utilizadas em outros países e algumas têm o objetivo de aumentar a diversidade das pessoas que recebem as bolsas, além de auxiliar pesquisadores em início de carreira.

Pesquisadores que solicitaram financiamento na loteria da Nova Zelândia veem os benefícios do método. Foi o que revelou uma pesquisa com 325 pesquisadores, publicada em fevereiro na revista Research Integrity and Peer Review.

O apoio à loteria foi mais forte entre os pesquisadores que obtiveram êxito em seus pedidos de bolsas para exploradores, com 78% aprovando o processo. Mas muitos que gostaram do sistema deram ênfase à importância da varredura inicial para eliminar ideias inferiores.

Adrian Barnett, estatístico da Universidade de Tecnologia de Queensland, em Brisbane, na Austrália, e autor da análise, disse que os candidatos relataram passar o mesmo tempo elaborando projetos para bolsas de exploradores e propostas submetidas à tradicional revisão por pares.

Mas o Dr. Barnett suspeita que, à medida que os pesquisadores se familiarizem com o processo, o tempo gasto em tais propostas poderá cair. Entre outras instituições que se valem de loterias estão a Fundação Nacional de Ciência da Suíça e a Fundação Volkswagen, na Alemanha.

“Não há uma base sólida de evidências que sustentem o atual modelo dominante de revisão por pares, mas até recentemente aceitávamos que provavelmente era o melhor modelo entre uma série de abordagens imperfeitas”, disse Sunny Collings, chefe do Conselho de Pesquisa em Saúde da Nova Zelândia. “De toda maneira, existe um certo grau de aleatoriedade na seleção da revisão por pares. Então, por que não formalizar isso e tentar obter o melhor de ambas as abordagens?”.

Dr. Barnett disse que as loterias podem ajudar a corrigir preconceitos contra grupos com baixa representatividade na ciência.

No entanto, Johan Bollen, cientista da computação da Universidade de Indiana, Bloomington, nos EUA, se preocupa com fato de os pesquisadores ainda sofrerem com o peso de produzirem infinitos pedidos de bolsa, o que toma muito tempo.

“Substituir as decisões finais de financiamento por uma loteria”, disse ele, é “profundamente equivocado”.

Mas, para o Dr. Barnett, “o maior obstáculo à mudança é o fato de estarmos usando a revisão por pares há décadas”. Ele disse: “está na hora de começarmos a financiar a ciência de maneira científica”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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