Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Luta como esporte para combater o terrorismo

Região acredita que atividade pode afastar os jovens do envolvimento com grupos insurgentes, principalmente os ligados ao terrorismo islâmico

Sergey Ponomarev, The New York Times

23 Março 2018 | 10h05

MAKHACHKALA, RÚSSIA - O Daguestão, região de maioria muçulmana no sul da Rússia, na costa do Mar Cáspio, é conhecido pela notável beleza de suas paisagens montanhosas, por seus muitos grupos étnicos, por uma violenta e antiga insurgência islâmica, e por seus lutadores.

Os rapazes daqui sonham em se tornarem lutadores famosos e honrados, como os muitos campeões olímpicos flexíveis e musculosos que vieram antes deles. Buvaisar Saitiev ganhou três medalhas de ouro; Mavlet Batirov ganhou duas.

As cidades e vilarejos investem seus recursos no esporte, contratando técnicos e transformando salas de cinema em ginásios. Os meninos se enfrentam sobre os colchonetes diante de seus amigos, que ficam na torcida.

Os homens do Daguestão dizem que a prática da luta sempre existiu entre eles, em disputas entre os vilarejos das montanhas. Mas, hoje, a região incentiva e aprecia a luta nem tanto pelo desejo de engajar os jovens, mas pela tentativa de afastá-los do envolvimento com insurgentes, oferecendo uma alternativa ao terrorismo islâmico.

“Quem realiza algo no esporte se sente confiante", disse Arsen Saitiev, diretor de uma escola em Makhachkala, capital da região. “O jovem não precisa provar nada a ninguém, e não tentará alcançar a fama de uma forma negativa.”

“Nesse momento de suas vidas, eles estão tentando provar alguma coisa", acrescentou Saitiev. “Em vez disso, podem se envolver com o esporte, e ficar longe dessa estupidez.”

As pessoas daqui dizem que sua herança e seu ambiente as predispõem para a luta. A vida rigorosa dos vilarejos montanheses e as batalhas com tribos vizinhas formaram um ideal de homem capaz de se distinguir pela força física, pelo poder do seu caráter e pela bravura.

Todas as manhãs, meninos e jovens chegam à praia para correr ao longo do Mar Cáspio. Esse treinamento aeróbico matinal é um dos métodos tradicionais usados pelos lutadores para perder peso e se enquadrar nos parâmetros da categoria desejada.

No fim de semana, os lutadores correm nas trilhas montanhesas. Às vezes, colegas lutam uns contra os outros no frio ar da manhã.

Os técnicos são muito valorizados. “Os técnicos tentam orientar os atletas de muitas maneiras, e não se limitam às técnicas de luta", disse Abdul Kazanbiev, que treina para ser lutador. “Eles nos ensinam como devemos nos comportar na vida", e também no tatame.

A pobreza é outro motivo pelo qual a luta se tornou um esporte tão popular no Daguestão. O equipamento é barato, e um lutador precisa apenas de um macacão, calçados adequados, uma despesa modesta.

A violência ainda afeta o Daguestão. Em fevereiro, um recruta do Estado Islâmico atacou uma igreja com um fuzil e uma faca. De acordo com algumas estimativas, centenas de habitantes da região se juntaram ao EI na Síria.

 

O ginásio esportivo oferece uma versão diferente da luta e do Islã. Técnicos e atletas rezam juntos. E alguns lutadores enxergam significados religiosos no esporte.

“Sempre lutamos", disse Adam Batirov, que também disputou campeonatos por uma equipe no Bahrein. “Os seguidores do profeta também lutavam e, como muçulmanos, a luta chegou a nós com o Islã.”

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