Andrew Testa para The New York Times
Andrew Testa para The New York Times

Lutador de artes marciais combate o extremismo islâmico

Usman Raja, ex-estrela das artes marciais mistas, ganhou atenção internacional por seu método na reabilitação de militantes islâmicos

David D. Kirkpatrick, The New York Times

09 Março 2018 | 15h00

Usman Raja, um homem corpulento, pioneiro da luta de artes marciais mista sem luvas, voltava para treinar na academia de sua casa, no sul de Londres. Mas ele queria mais era conversar sobre a sua nova vocação: a reabilitação de militantes islâmicos.

“A maior conquista que estes extremistas conseguem disso é a comunidade”, afirmou Raja, 43. “Eles se tratam mutuamente com amor, mas odeiam todos os outros”.

A retirada do Estado Islâmico de seus últimos redutos na Síria aumenta o alarme com o retorno dos militantes aos respectivos países do Ocidente, e o governo britânico contratou Raja para trabalhar com pelo menos 30 combatentes que acabam de regressar. Grupos que incluem desde o Departamento de Polícia de Los Angeles ao Centro de Combate ao Terrorismo da Academia Militar dos Estados Unidos buscaram a sua assessoria.

É por isso que ele voltava para a academia. “Não posso perder minha fama de guerreiro espartano”, ele disse. “É esta a minha legitimidade nas prisões”. Nos últimos oito anos, Raja e o seu grupo, Iniciativa Unidade, ajudaram a reintegrar mais de 50 prisioneiros condenados por crimes de terrorismo depois que cumpriram suas penas. Ele aconselhou mais de 180 jovens muçulmanos a evitar a radicalização, todos eles encaminhados por membros de suas comunidades ou pela polícia. Até o momento, nenhum continuou cometendo atos terroristas.

A maioria dos programas tenta discutir com os militantes de forma a convencê-los a abandonar sua ideologia. Raja estabelece relacionamentos com os jovens de risco. Cria um senso de engajamento na comunidade, e depois observa até que os argumentos ideológicos sejam abandonados. “É ali que entram em jogo as artes marciais mistas”, disse Douglas Weeks, estudioso da radicalização que assessora a Iniciativa Unidade. “Ela lhe dá credibilidade nas ruas, e um ponto de partida para algumas destas conversas”.

As palavras de Raja nascem de meditações sobre a condição humana e reflexões sobre a história do Islã e episódios relativos a jihadistas, como Ali Beheshti, ex-líder de alto escalão de um grupo radical sediado em Londres, o Al-Muhajiroon. Ali, certa vez, incendiou a casa de um editor que produziu um romance sobre o profeta Maomé. Foi condenado a quatro anos de prisão no presídio de Belmarsh.

Raja se encontrou com Ali cinco dias por semana por um ano e meio, ele o treinou na luta e o levou para o ginásio para treinar com um soldado britânico branco. “Do ponto de vista de Ali, 'este é um dos caras que, durante anos, eu rezei para poder matar'”, contou Raja. Mas o soldado disse a Ali: “Parabéns, nós nos sentimos realmente orgulhosos por tudo o que você está fazendo”.

Agora, Ali é um dos voluntários da Iniciativa Unidade.

Wahabi Mohammed, que foi condenado em 2005 por não revelar a informação sobre o fracasso do atentado do irmão no Metrô de Londres, disse que ficou surpreso ao receber um abraço de Raja quando eles se encontraram pela primeira vez, em 2010, na prisão. Eles começaram a conversar como camaradas, sobre um problema comum a ambos: “como ser um muçulmano, e como nós nos encaixamos no mundo moderno?”.

Mohamed foi solto em 2013 e agora trabalha na construção civil. Ele vive com a esposa e cinco filhos, e também colabora com a Iniciativa Unidade.

Raja é filho de imigrantes paquistaneses cujo casamento foi arranjado na Grã-Bretanha. Eles logo se divorciaram, e o menino foi criado pela mãe, sozinha, em um bairro de operários predominantemente brancos, perto da academia. 

Em meados da década de 90, Raja estava ficando famoso nos ginásios de East London, e os jovens muçulmanos britânicos que esperavam poder ingressar na jihad contra os sérvios bósnios procuravam o seu conselho. Ele pensou em se candidatar também, no entanto se tornou o discípulo de um estudioso muçulmano da Malásia que pregava um entendimento mais tolerante da fé.

As guerras de coalizão lideradas pelos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque, no início dos anos 2000, forneceram amplo material para os pregadores jihadistas em toda a cidade de Londres, e Raja engajou-se em uma espécie de trabalho social voluntário.

“Usman assumiu alguns dos casos mais difíceis, extremos, que a Grã-Bretanha oferece”, disse Weeks, “e ele teve um notável sucesso trazendo-os de volta para papéis produtivos na sociedade”.

“Não posso perder minha fama de guerreiro espartano. É a minha legitimidade nas prisões”.

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