Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Em Macau, China vê modelo a ser seguido por Hong Kong

Para líderes chineses, Macau oferece a resposta para a obstinação vista em Hong Kong, onde protestos iniciados evoluíram para uma campanha contra a violência policial

Steven Lee Myers, The New York Tines

05 de janeiro de 2020 | 06h00

MACAU — Quando Macau, a colônia portuguesa transformada em pólo chinês da jogatina, recebeu um novo governante executivo em outubro, a votação da comissão eleitoral foi unânime. Ninguém foi às ruas protestar. Quando jovens ativistas solicitaram permissão para demonstrar seu apoio aos manifestantes de Hong Kong, não muito longe, as autoridades disseram não — quatro vezes. Quando alguns deles insistiram em comparecer ao centro histórico de Macau em agosto como manifestação de solidariedade, a polícia deteve sete deles.

Como Hong Kong, Macau é hoje um experimento político que teve início no fim dos anos 1990, quando a China recuperou ambos os territórios de potências coloniais ocidentais, prometendo que liberdades civis poderiam coexistir com o seu estilo de governo autoritário. Agora, enquanto a situação de instabilidade política prossegue em Hong Kong, o Partido Comunista que governa a China se tornou cada vez mais explícito quanto à sua tolerância sob essa fórmula — apresentando Macau como um reluzente exemplo de obediência. 

“O mais importante é implementar e proteger o controle total do governo central", disse Li Zhanshu, terceiro na hierarquia do poder na China, que preside a política para ambos os territórios, em discurso a respeito de Macau em novembro.

Em comparação a Hong Kong, Macau aceitou mais prontamente a autoridade final de Pequim para as questões de política nacional sob a fórmula “um país, dois sistemas” aplicada a ambos. E, no geral, os 670 mil habitantes da cidade aceitaram esse rumo, seja por cooptação ou coerção por parte do continente. “Passados 20 anos em Macau, é difícil encontrar fronteiras claras entre os dois sistemas", argumentou Sou Ka Hou, representante da assembleia legislativa de Macau.

Para os líderes da China, Macau oferece a resposta para a obstinação vista em Hong Kong, onde protestos iniciados em junho evoluíram para uma campanha contra a violência policial e o avanço do Partido Comunista contra as liberdades da cidade. Em Macau, mais da metade da população nasceu no continente; milhões de outros vêm jogar nos cassinos da cidade, que impulsionam a economia.  

A liderança política de Macau adotou leis para limitar a dissidência, incluindo uma aprovada em 2009 transformando em crime a subversão contra o governo chinês. Em Hong Kong, uma legislação parecida foi rechaçada pelos protestos.

Sou é um dos poucos legisladores da cidade que ainda pressionam pelo sufrágio universal, uma das principais demandas dos manifestantes de Hong Kong. Ele diz que Pequim erodiu lentamente o “alto grau de autonomia” prometido a Macau.

Em setembro, o mais alto tribunal de Macau rejeitou um recurso para permitir a realização de alguns protestos, incluindo uma manifestação contra a polícia de Hong Kong. O tribunal determinou que nenhuma das medidas adotadas pela polícia de Hong Kong se enquadrava na definição de tortura ou brutalidade — ecoando a posição do governo chinês.

Uma das pessoas que tentou organizar a manifestação, Jason Chao, disse que, na prática, a decisão significa que “manifestações ou reuniões em defesa de uma opinião que não é reconhecida oficialmente pelo governo” podem ser proibidas.

Macau x Hong Kong

Conjunto de ilhas e terras recuperadas que somam apenas 31 quilômetros quadrados, a cidade foi o primeiro assentamento estrangeiro na China. Os portugueses ocuparam o local em 1557, quase três séculos antes de os britânicos assumirem o controle de Hong Kong. Vinte anos depois de ser devolvida para a China, a cidade tem seu próprio poder judiciário e sua própria moeda.

De acordo com moradores e historiadores, o motivo para a diferença entre as duas ex-colônias tem a ver com as culturas políticas diferentes dos governos coloniais português e britânico, e a forma com que cada uma transferiu a soberania à autoridade chinesa.

Quando a data da reunificação se aproximava, Portugal ofereceu cidadania a todos aqueles nascidos em Macau antes de 1982 e seus parentes. Aqueles que não quisessem se submeter ao governo chinês puderam partir para Portugal ou algum outro país da União Europeia. Mas, em Hong Kong, os moradores receberam um passaporte britânico que não chega a lhes conferir cidadania, o que fez da resistência a Pequim uma luta existencial.

Jogatina legalizada

Macau também é diferente porque é o único lugar na China onde a jogatina é legalizada — e isso traz benefícios econômicos. Macau se tornou o maior centro de jogos de azar do mundo em 2006. A indústria responde hoje por 87% do orçamento anual de Macau, empregando quase um em cada doze moradores, de acordo com números oficiais. “A população de Macau depende muito da ordem econômica estabelecida", pontuou Chao, defensor do direito de manifestação. “Contrariar a China significa contrariar seu ganha-pão.”

Para os macaenses comuns, as preocupações civis podem parecer distantes. “Muitos aqui nem mesmo entendem a importância do sufrágio universal", continuou Sou. “Sua única preocupação são as questões mais tangíveis da vida.” Mas ele alertou que, se a democracia continuar sob ataque, Macau vai perder aquilo que faz dela única. “Passaremos a ser apenas outra cidade chinesa." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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