Adriana Zehbrauskas para o The New York Times
Adriana Zehbrauskas para o The New York Times

Cérebro de adolescentes pode ser mais vulnerável à maconha e outras drogas, indica pesquisa

Segundo levantamento feito nos EUA, adolescentes são mais propensos a se viciarem em maconha, estimulantes e outras drogas recreativas do que jovens adultos

Anahad O’Connor, The New York Times - Life/Style

19 de abril de 2021 | 05h00

Adolescentes que experimentam maconha e os remédios de prescrição médica muito provavelmente estarão mais propensos a se tornarem dependentes de tais substâncias do que os jovens em idade universitária ou mais velhos, indica um novo levantamento.

A pesquisa sugere que os mais jovens podem ser especialmente vulneráveis aos efeitos intoxicantes de certas drogas, e que uma exposição precoce pode predispô-los a desejá-las. As conclusões têm graves implicações para as autoridades no campo da saúde pública, que nos últimos anos vêm insistindo na realização sistemática das triagens e de medidas preventivas a fim de reverter o forte aumento do uso de cigarros eletrônicos à base de maconha entre os adolescentes nos EUA.

O novo estudo, publicado na revista JAMA Pediatrics, de autoria de uma equipe de cientistas do National Institute on Drug Abuse, teve como finalidade proporcionar uma maior compreensão de como o cérebro adolescente reage a uma variedade de drogas para recreação. Pesquisas anteriores sugeriram que a exposição precoce à maconha, à nicotina e ao álcool pode favorecer o desenvolvimento mais rápido de distúrbios decorrentes do uso destas substâncias. Mas a nova análise é mais abrangente, e busca os efeitos de nove drogas diferentes, como analgésicos opioides, estimulantes, maconha, álcool, cigarros, cocaína, heroína, metanfetaminas e tranquilizantes.

Os pesquisadores usaram dados do National Service on Drugs and Health, um estudo anual intensamente acompanhado que rastreia o uso de substâncias e questões de saúde mental entre os americanos. A nova pesquisa se concentrou em dois grupos etários: adolescentes entre os 12 e os 17 anos, e jovens adultos entre os 18 e os 25 anos. O álcool foi a substância em geral mais consumida pelos dois grupos: 25% dos adolescentes com idades entre 12 e 17 anos e 80% dos jovens adultos afirmaram que o usaram. Cerca de 50% dos jovens adultos disseram que experimentaram a cannabis ou tabaco. Mas entre os adolescentes, este número foi menor: cerca de 15% afirmaram ter experimentado cannabis e 13% que experimentaram tabaco.

Mais preocupante para os autores do novo estudo foi o número de pessoas que passaram a desenvolver um distúrbio provocado pelo uso de alguma substância, indicando que a sua experiência se tornou uma dependência. Os pesquisadores constataram que no prazo de um ano depois da primeira experiência com maconha, 11% dos adolescentes tornaram-se viciados, em comparação com  6,4% dos jovens adultos. Mais impressionante ainda foi o fato de que no prazo de três anos da primeira experiência da droga, 20% dos adolescentes tornaram-se dependentes, quase o dobro do número dos jovens adultos.

Adolescentes que experimentaram drogas de prescrição médica também apresentaram uma maior probabilidade de se tornarem viciados. Cerca de 14% dos adolescentes que tomaram estimulantes prescritos para uso recreativo, acabaram adquirindo um distúrbio pelo uso da substância no prazo de um ano, em comparação com apenas 4% dos jovens adultos. E, enquanto 7% dos jovens adultos que tomaram analgésicos opioides se viciaram logo depois de tomá-los, este número subiu para 11,2% entre os usuários mais jovens.

Entretanto, no caso do álcool e do tabaco, não houve muita diferença entre os dois grupos etários: tanto os grupos mais velhos quanto os mais jovens apresentaram uma taxa semelhante em relação ao desenvolvimento de um distúrbio pelo uso da substância. E quanto a drogas ilícitas como cocaína e heroína, o número de adolescentes que as usavam era muito pequeno para que os pesquisadores pudessem extrair conclusões significativas.

Uma possível explicação para estas conclusões é que os jovens que têm maior predisposição para se viciarem, provavelmente, procuram drogas ilícitas mais cedo. Mas a dra. Nora Volkow, autora principal do novo estudo e diretora do NIDA, disse que é sabido que a maconha e outras drogas podem exercer um efeito potente sobre o cérebro adolescente porque ainda está em desenvolvimento. Cérebros mais jovens apresentam maior plasticidade, ou capacidade de mudança, do que os cérebros relativamente estáticos de indivíduos mais velhos. Consequentemente, as drogas como a cannabis têm uma maior probabilidade de alterar as conexões sinápticas nos cérebros mais jovens, levando a memórias de prazer e compensação mais fortes.

“A pessoa se torna viciada por um processo de aprendizado”, segundo a dra. Volkow. “Este é um tipo de memória que se instala de maneira poderosa no cérebro. E isto ocorre mais rapidamente em um cérebro adolescente”.

Estudos mostram que o uso regular de maconha pode afetar a cognição nos adolescentes levando a comprometer algumas partes do cérebro envolvidas no aprendizado, no raciocínio e na atenção. Entretanto, nos últimos anos, a grande popularidade dos cigarros eletrônicos provocou um considerável aumento do número de adolescentes que vaporizam nicotina e maconha, tendência que alarma as autoridades da área da saúde. Alguns estudos sugerem que é talvez mais provável que os adolescentes experimentem a maconha, dado que o número de estados que estão legalizando o seu uso recreativo está aumentando nos EUA.

Segundo a dra. Volkow, à medida que os estados forem implementando novas normas sobre a maconha, os encarregados pelas decisões políticas deveriam elaborar medidas para proteger os adolescentes. E salientou que seria importante que pediatras e dentistas procurassem sinais de uso de drogas entre seus pacientes os questionando a respeito. Ela pediu também para que os pais não ignorem o uso de maconha entre os adolescentes por considerá-la inofensiva.

“Quanto à maconha, as drogas que estavam disponíveis quando os pais de hoje eram adolescentes são muito diferentes das drogas disponíveis nos nossos dias”. Hoje, o teor de THC é muito maior, e quanto maior o teor de THC, maior o risco de efeitos adversos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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