Jody Rogac para The New York Times
Jody Rogac para The New York Times

Mãe de dois filhos de Picasso trabalha para preservar a própria reputação de artista

'Picasso pegou muito mais dela do que ela dele', diz John Richardson, biógrafo de Picasso

Lauren Christensen, The New York Times

16 Setembro 2018 | 11h00

A pintora e escritora francesa Françoise Gilot, 96 - conhecida como amante e musa de Pablo Picasso, e mãe de dois dos seus filhos, Claude e Paloma - acaba de lançar um caderno de esboços feitos ao longo de suas viagens para a Índia, Senegal e Veneza entre 1974 e 1981.

Enquanto a maioria dos artistas guarda em cadernos de esboços as próprias impressões para um futuro trabalho - para ajudá-las a lembrar -, Françoise Gilot usa os seus para esquecer.

“Quero tirar da minha mente as coisas que eu vi”, disse na sala luminosa de sua casa em Manhattan, que funciona também como estúdio, onde pinta quase todos os dias. “A arte não nasce do que está ao nosso redor, mas do que está dentro de nós”.

Esta abordagem filosófica é inconfundível na nova monografia, “Françoise Gilot: Three Travel Sketchbooks”, com desenhos e aquarelas que guardam pouca semelhança estilística com sua obra conhecida pelo público. Ao contrário, eles nos proporcionam um vislumbre de sua vida interior.

Embora o legado de sua relação com Picasso tenha perdurado como uma presença que não pode ser desmentida (Paloma Picasso a definiu como um “estorvo” para sua mãe), Françoise trabalhou intensamente para preservar sua autonomia no mundo da arte. “É uma dedicação essencial na sua vida”, afirmou Paloma, que lembra de ficar horas, quando criança, observando a mãe enquanto pintava.

Françoise nasceu em Paris em 1921. Sua mãe era uma artista, e o pai, agrônomo, insistiu para que a filha estudasse Direito, depois de se formar na Sorbonne, em 1938. Mas enquanto estava na faculdade, Françoise estudou arte nas horas livres - sob a orientação do pintor húngaro Endre Rozsda - até abandonar definitivamente o Direito.

Conheceu Picasso em 1943. Na época, ela tinha 21 anos e ele 61. Durante os cerca de dez anos de vida em comum (que descreveu em seu livro de memórias “Vida com Picasso”, de 1964, um best-seller), Françoise frequentou um grupo do qual fazia parte Henri Matisse, embora hoje ela afirme que a sua arte não sofreu nenhuma influência.

O biógrafo de Picasso, John Richardson, concorda: “Picasso pegou muito mais dela do que ela dele”.

No outono de 1953, François decidiu pôr fim ao relacionamento; ela teria sido a única mulher a deixar Picasso. Ele a expulsou da cidade e fez com que o mundo das artes de Paris se voltasse contra ela, conta Dorothea Elkon, a proprietária da galeria onde expõe em Nova York. Em 1955, casou com o artista francês Luc Simon. O casamento durou poucos anos e gerou uma filha, Aurelia. Em 1970, 

François casou com o virologista Jonas Salk e viveu com ele até sua morte, em 1995.

Ela considera os esboços deste último caderno deliberadamente inacabados, assim como os dos cadernos de anotações que ela manteve nas viagens com Salk, enquanto ele coligia suas pesquisas sobre a vacina contra a pólio da qual foi o criador (menos os esboços de Veneza).

Os cadernos contêm aquarelas, mas também textos escritos com uma letra bonita. Para Françoise, cores, texto, formas são usados sem uma ordem preestabelecida - de maneira a afetar mais de um sentido. “Se você pode pensar alguma coisa em palavras, então pode vê-la também em imagens”,  disse.

Os esboços retratam mais figuras do que cenas. “Uma paisagem estará sempre ali; as pessoas não”, disse François, acrescentando: “Pode chamá-lo de diário. O que eu desenho tem um significado. Na minha mente, anoto o que sinto, e não o que está ali”.

Aurelia Engel - sua filha e arquivista - observou que, se olharmos toda a sua obra, “veremos todas as pessoas da sua vida, todos os amigos, os homens de sua vida, os filhos crescendo, os lugares onde ela esteve. Podemos sentir realmente a emoção que ela experimenta”.

Os esboços revelam também um notável talento nato. “O seu desenho é primoroso”, disse Jill McGaughey, proprietária da Galeria Mac-Gryder de Nova Orleans que a representa há dez anos. “Ela tem um enorme controle e economia das linhas. Tudo tem um propósito”.

A publicação coincide com um período de sucesso comercial para François, disse Jill. “O mercado nunca se cansa dela.”

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