Emile Ducke para The New York Times
Emile Ducke para The New York Times

Cidade gélida da Rússia tenta evitar êxodo da população devido ao frio

Em Magadan, a 5,8 mil quilômetros de Moscou, temperatura pode chegar a até -50º C no inverno

Andrew Higgins, The New York Times

11 de janeiro de 2020 | 06h00

MAGADAN, RÚSSIA - Como muitos jovens em Magadan, uma gélida cidade no norte da Rússia, a mais de 5,8 mil quilômetros de Moscou, Dinat Yur está cansado de viver em um lugar onde os invernos se arrastam por seis meses e a temperatura média anual cai muito abaixo do zero. “Na realidade, sonho em ir embora daqui”, disse Yur, um cozinheiro de 29 anos. “Mal posso esperar para sair”.

Criado em uma cidade que tem orgulho de sua adaptabilidade, Yur tem uma traablho que contrasta com um lugar tão frio: ele faz sorvetes. Recentemente, à medida que, em Magadan, a temperatura caía bem abaixo de zero - até -50º C no inverno - ele trabalhou arduamente para produzir sorvetes. Consumir os seus produtos ao ar livre durante o inverno, reconheceu Yur, não é uma boa ideia -  eles se transformam rapidamente em pedaços de gelo - mas “todos aqui gostam de sentar em casa na frente da TV com um sorvete”.

Com a pesada lembrança do início da era stalinista em que a cidade era a porta de entrada para os brutais campos de trabalhos forçados na vizinha Kolyma - onde dezenas de milhares foram executados e 100 mil morreram de doenças e de fome - a cidade tenta se firmar alegremente como “o coração dourado da Rússia”, uma referência às vastas reservas de ouro nos montes vizinhos.

O prefeito Yuri Grishin se esforça para conter o lento êxodo da população jovem. E enfatiza o novo complexo esportivo, uma série de restaurantes recém inaugurados e os edifícios com a pintura renovada como possível atração para as pessoas permanecerem. Depois de anos de declínio que reduziram a população em mais de 40%, o prefeito disse que o número de moradores agora “se estabilizou mais ou menos” em torno de 91 mil. Mas até os três filhos do prefeito foram embora.

Magadan, para dizer a verdade, não é pior - e em alguns aspectos é até melhor - do que muitas cidades russas. Ela tem três cinemas e duas piscinas cobertas. Outro atrativo é a mudança climática, que está tornando os invernos um pouco mais amenos. As pesadas nevascas do inverno só começaram no final de novembro.

Mas a ideia de fugir está tão presente que um sociólogo diagnosticou que Magadan sofre da “síndrome da vida adiada” - uma doença que desliga as esperanças dos habitantes da vida presente e a projeta no futuro. “As pessoas acham que estão aqui provisoriamente”, disse Andrei Grishan, 31, o editor do portal de notícias VesmaToday. O governo de Moscou oferece terrenos de graça em Magadan e em outros lugares remotos. Quatrocentas pessoas aceitaram a oferta na região de Magadan, mas quase todas já moram aqui.

Embora Magadan seja abençoada por minas de ouro, prata e outros recursos naturais, as condições são tão ásperas que alguns economistas questionam se fará sentido mantê-la como cidade e não como centro de trânsito para trabalhadores que trabalham nas minas. Yur procura sair de férias todos os anos no verão, mas o retorno é sempre triste. “Quando volto para cá”, ele disse, “entro em uma profunda depressão”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
RússiafrioClima

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.