Daniel Arnold/The New York Times
Daniel Arnold/The New York Times

Maggie Gyllenhaal tem ideias perigosas sobre a direção de cinema

Atriz e diretora foi a responsável pela adaptação bem sucedida do best-seller de Elena Ferrante, 'A Filha Perdida', disponível na Netflix

Entrevista com

Maggie Gyllenhaal

Julie Bloom, The New York Times - Life/Style

30 de janeiro de 2022 | 05h00

Maggie Gyllenhaal nunca evitou papéis difíceis. Vem rompendo limites há anos, tendo interpretado personagens complicados como a assistente enredada em jogos sadomasoquistas com seu chefe (Secretária), a filha de um traficante de armas envolvido no conflito entre Israel e Palestina (The Honorable Woman) e uma prostituta na década de 1970 em Nova York (The Deuce).

Mas é o trabalho de diretora e roteirista de A Filha Perdida, adaptação do romance homônimo de Elena Ferrante, que pode ser seu papel mais arriscado até agora. O filme está disponível na Netflix.

Ambientado em uma ilha grega ensolarada, o filme é estrelado por Olivia Colman como Leda, professora de literatura de meia-idade que sai de férias sozinha e se envolve com uma jovem mãe, Nina, interpretada por Dakota Johnson. À medida que ela se relaciona cada vez mais com Nina e sua família, o passado de Leda e as decisões que tomou quando jovem se misturam com o presente, produzindo resultados estranhos e, por vezes, profundamente perturbadores.

Assim como o livro, o filme aborda questões complicadas que as mulheres têm de enfrentar em diferentes fases da vida. No centro da trama está o intenso fardo da maternidade, mas também a ambição, o sacrifício, o envelhecimento e a arte.

Durante um longo almoço em Nova York, Gyllenhaal falou sobre ser diretora nos dias de hoje, sobre os tabus em torno da maternidade e sobre o que significa traduzir Ferrante para o cinema. Aqui estão trechos editados da nossa conversa.

O que a atraiu em Ferrante?

Comecei com os romances napolitanos. Ela falava de coisas das quais eu quase nunca tinha ouvido falar. "Meu Deus, essa mulher é caótica", e depois de dez segundos, ao ver que realmente me identificava com ela, vi que também sou caótica - ou isso é algo que muita gente sente, mas não aborda? No fim das contas, achei perturbador, mas também muito reconfortante, porque, se alguém escreveu sobre isso, você pensa: opa, não sou só eu que acho que isso é uma ansiedade ou um terror secreto, ou mesmo o oposto, uma alegria intensa e uma conexão.

Então li A Filha Perdida e pensei: e se, em vez de simplesmente nos sentirmos sozinhos no quarto, eu pudesse criar uma situação em que esse sentimento fosse comunal, no qual essas coisas realmente fossem ditas em voz alta?

O filme mostra a alegria de ser mãe, mas também as frustrações. Por que você acha que é tão raro ver essa tensão na tela?

Acho que é uma combinação de duas coisas. Em parte, nunca houve muito espaço para que as mulheres se expressassem, por isso uma expressão honesta do ponto de vista feminino não é algo comum. Mas também há uma espécie de acordo cultural para não falar dessas coisas, uma vez que todo mundo tem mãe e pensa: não quero que minha mãe tenha sido ambivalente.

Só tentei ser o mais honesta possível. Normalizar um enorme espectro de sentimentos. Acho que especialmente para a jovem Leda e para Nina, seus imensos desejos - intelectual, artístico, físico - são maiores do que elas foram ensinadas a ter ou precisar, e definitivamente me identifico com isso.

O longa pode ser visto de várias maneiras como um filme de terror. Isso foi uma escolha?

Eu queria que fosse um filme de suspense. O livro não é de fato um thriller, mas o ampliei porque pensei que acabaria me dando mais liberdade artística. Eu até queria me desafiar a transformá-lo em um filme de terror sobre o funcionamento interno da mente dela. Ela não é uma pessoa ruim; é como você.

Qual foi a maior dificuldade no processo de adaptação?

Achei que a adaptação usou um músculo semelhante ao que usei como atriz no sentido de pegar um texto, excelente ou falho, e descobrir a essência daquele material. Algumas coisas são literais, mas muito estranhas. Como a frase: "Sou uma mãe não natural." Isso é cem por cento Ferrante, um movimento direto, mas muitas pessoas me disseram: "Tire essa frase." Também fiz o que Ferrante permitiu e mudei muitas coisas, mas realmente acredito que o roteiro e o filme conversam com o livro.

Leda é escritora, e apresentar a ambição de seus primeiros anos é uma grande parte do filme. Você assistiu a 'Bergman Island'? Ambos os filmes abordam se é possível ser mulher e artista ao mesmo tempo.

Acredito que existe algo como a escrita feminina e a produção cinematográfica feminina. Há mulheres feministas muito interessantes que não concordam comigo. Acho que, quando as mulheres se expressam de forma honesta, o resultado é diferente de quando os homens o fazem. Isso é algo bastante perigoso de falar. Quando fico livre e recebo um pouco de dinheiro e um espaço para contar uma história que quero contar, o tema será a maternidade, a vida doméstica, o que inclui muitas cenas na cozinha. Essas histórias podem, de fato, ser vistas como arte de alta qualidade? Porque para mim é uma ópera. Não venho de uma família cujas mulheres estavam presas à cozinha. Minha mãe é uma profissional (Naomi Foner Gyllenhaal é roteirista e diretora), minha avó era pediatra nos anos 40 e minha tia-avó era advogada. Tive uma formação e tenho vida profissional, e ainda assim minha identificação como mãe é uma grande parte de mim.

Quem a inspira na direção?

Fellini e Lucrecia Martel, que nunca é literal. Amo Claire Denis. Já falei muito sobre Jane Campion e David Lynch. Nunca trabalhei com ele, mas passei uma semana lendo uma peça com Mike Nichols. Ele amava seus atores e me ensinou a fazer o mesmo. Eu me lembro de uma declaração dele (na recente biografia Mike Nichols: A Life [Mike Nichols: uma vida, em tradução literal]): "Sinto muito se você não quer filmar 'Quem Tem Medo de Virginia Woolf?' em preto e branco. Você deve procurar outro diretor. Vou embora." Algumas vezes, durante a feitura desse filme, tive de dizer: "Isso está errado."

A questão da tradução é obviamente importante para os personagens. Leda traduz literatura italiana, mas você também traduz Ferrante. Qual a importância do tradutor para você?

Anotei um pequeno trecho do livro Mérito, de Rachel Cusk, porque andei pensando em adaptação em geral. Aqui está a citação: "Traduzi com muito cuidado e cautela como se fosse algo frágil que eu pudesse quebrar ou matar por engano." Amei isso. Ela diz: "Quando li seu livro, me foi comunicado algo valioso, que eu jamais tinha ouvido em voz alta e que me eletrizou, que me fez entender algo a meu respeito, e precisei segurar aquela ideia e cuidadosamente trazê-la para o outro lado."

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