Bara Kristinsdottir para The New York Times
Bara Kristinsdottir para The New York Times

'Magnata das baleias' desafia leis internacionais

Último caçador comercial de baleias, Kristjan Loftsson defende a legalidade de seu negócio

Tryggvi Adalbjornsson, The New York Times

18 Agosto 2018 | 10h30

REYKJAVIK - Era um tour para ver as baleias, mas não do tipo esperado pelos visitantes. Em um dia de verão ao largo da costa da Islândia, a tripulação de uma baleeira que rebocava baleias caçadas pouco antes passou ao lado de um barco de turistas.

Os tours para ver baleias são populares na Islândia. As baleias comuns costumam estar em alto-mar, mas as anãs, jubartes, golfinhos, porpoises e papagaios do mar em geral são mais fáceis de avistar. Embora alguns não reclamem ao ver baleias mortas durante as férias - como os turistas faziam em 2015, e outros depois disso -, "a maioria das pessoas claramente detesta", disse o guia Sigurlang Sigurdardottir.

Mas Kristjan Loftsson, o responsável pela operação, tinha uma sugestão para os observadores de baleias que veem seus barcos: "Eles podem simplesmente voltar e olhar para o outro lado".

Loftsson, 75, é o último caçador comercial de baleias que resta no mundo todo. Ele foi denunciado por grupos de defesa do meio ambiente e seus barcos foram afundados por ativistas radicais, mas na Islândia seu negócio é legal, porque o país não reconhece a moratória internacional da caça comercial de baleias.

Loftsson costuma dizer que em suas veias corre sangue de baleia. Ele e sua irmã são os maiores acionistas da Hvalur, o negócio de baleias outrora dirigido por seu pai ("Hvalur" significa baleia em islandês).

Eles passaram muitos verões de sua infância na estação de baleias da companhia. Loftsson ficava observando enquanto as baleias eram trazidas para a praia e descarnadas à mão. Aos 13 anos, ele começou a trabalhar em uma embarcação, lavando pratos e varrendo o chão. "Era divertido", contou.

Em 1974, quando Loftsson tinha 31 anos, seu pai morreu e ele se tornou o diretor da empresa. Hoje, Islândia e Noruega são os únicos países que permitem a caça comercial da baleia. Os caçadores japoneses operam com uma autorização de pesquisa emitida por seu próprio governo, e a caça de subsistência dos aborígenes continua em poucos países, como Estados Unidos, Canadá, Rússia e Groenlândia.

As baleias comuns são classificadas como animais em risco de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza, e a caça comercial da espécie foi suspensa por 20 anos na Islândia. Em 2006, o governo permitiu que a caça fosse retomada.

A Islândia está sendo pressionada a acabar com esta atividade. Em 2013, os Estados Unidos pediram o fim da caça. No ano seguinte, a União Europeia liderou um protesto internacional contra a caça da Islândia, mas o país permaneceu firme. Somente 33% dos islandeses se opuseram à caça, segundo uma pesquisa deste ano.

As baleias comuns são a segunda espécie de animais de maior porte da Terra - somente as baleias azuis são maiores e mais pesadas. Cientistas do Instituto de Pesquisa Marinha e de Água Doce da Islândia afirmam que se as cotas forem respeitadas, as baleias continuarão abundantes.

Para Loftsson e seus simpatizantes, a caça à baleia não é diferente da agricultura ou da pesca em geral. "Se é sustentável, você caça", disse.

Seus barcos caçam com arpões com explosivo na ponta. A carga explode no interior do corpo do animal. Às vezes, é necessário um segundo tiro. As baleias "dão alguns puxões, e depois afundam", explicou. A baleia morta é levada para a única estação de baleias da Islândia, em um fiorde localizado ao norte de Reykiavik, onde é cortada em fatias para o consumo. A maior parte dela se destina ao Japão.

Neste verão, o Ministério da Pesca da Islândia deu à companhia de Loftsson permissão para caçar 238 baleias comuns. No final de julho, as baleias 50 e 51 foram levadas para a estação. Quatro integrantes do grupo conservacionista Sea Sheperd, que bloqueia e persegue baleeiras no mar, filmou o acontecimento de um morro acima da estação.

Quer esta operação com baleias seja lucrativa ou não (a companhia tem investimentos em outros empreendimentos como a pesca comercial), Loftsson é claramente um empresário de sucesso. Registros públicos mostram que ele pagou cerca de US$ 2,8 milhões em impostos em 2017, o que indica um nível substancial de renda para aquele ano. Além disso, ele adora a vida de caçador de baleias.

"Evidentemente, poderia fazer qualquer coisa, mas por que deveria parar com o que faço? Não há nada de errado nisso".

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