Foto Ilustração de Tracy Ma/The New York Times
Foto Ilustração de Tracy Ma/The New York Times

Maior cadeia de estúdios de ioga é acusada de enganar instrutores

Milhares de professores da Core Power Yoga reclamam de receberem salários abaixo do mínimo

Alice Hines, The New York Times

26 de abril de 2019 | 06h00

Kalli Ridley havia acabado a aula de ioga quando a sua instrutora favorita se aproximou dela com um sorriso e disse que ela poderia ser uma excelente professora. “Foi como se eles vissem algo especial em mim”, disse Kalli. Mas tornar-se uma professora no estúdio Core Power Yoga em Minneapolis,  Minnesota, onde Kalli praticava, não foi tão simples quanto ela imaginara.

Depois de pagar US$ 1.500 por um programa de treinamento de 200 horas, dividido em oito semanas, ela teve de concluir um treinamento com “extensões” pagando US$ 500, que no início não havia sido mencionado. Meses depois, Kalli pediu ao estúdio alguma oportunidade de emprego a fim de ganhar algum dinheiro com o que aprendera. Mas isto nunca aconteceu. Um ano mais tarde, ela ainda está pagando o curso.

Nos estúdios de ioga, preparar os professores é uma maneira comum de os instrutores suplementarem sua renda com aulas extras e para os estudantes avançarem alguns níveis. Em geral, isto não é promovido como caminho para uma carreira. Ao contrário, o treinamento extra é apresentado como uma espécie de oficina avançada ministrada pelo professor.

Mas a Core Power, a maior cadeia de estúdios de ioga dos Estados Unidos, tem uma abordagem lucrativa diferenciada: ela contrata os professores como vendedores e os incentiva com gratificações. Os documentos da companhia sobre a avaliação do desempenho mostram que ela diz a professores e gerentes como promover a programação do estúdio de ioga. 

E afirma que eles podem receber incentivos monetários escalonados, baseados no tipo de aula e no número de inscritos. Vídeos tutoriais aconselham os melhores métodos visando em particular o treinamento de professores, sem mencionar que isto acabará custando milhares de dólares. (“Os elogios validam e encorajam os seus alunos”, diziam as legendas em um destes vídeos. “Adote-o e mantenha-o aberto”).

Uma porta-voz da Core Power contestou que a companhia tenha enganado alguém quando ao seu objetivo, ao custo ou à duração do treinamento de professores. “Não exigimos que os professores vendam o programa ‘Teacher Training’, nem eles são contratados como vendedores. Os professores são contratados em razão da qualidade do seu ensino da ioga”, a porta-voz afirmou em um e-mail.

A Core Power se define como um império da boa forma tradicional, com 200 estúdios espalhados por todo o país, localizados inclusive em centros de comércio de bairro e também em Hollywood, onde Chris Pratt e Colin Farrell já tiveram aulas. Por outro lado, a Core Power enfrenta processos trabalhistas, um dos quais ainda não está encerrado. No último, cerca de 1.200 professores afirmam que a Core Power paga menos que o salário mínimo por causa da quantidade de trabalho extra que os obriga a aceitar.

“Nós acreditamos que isto não tem fundamento, e defendemos a companhia agressivamente”, declarou Eric Kufel, o diretor da Core Power. Na opinião de muitos americanos que assistiram a aulas de ioga, os professores são em parte ‘personal trainers’ e em parte terapeutas, às vezes, uma espécie de copiloto em viagens psicodélicas.

Muitos ensinam por um salário mínimo. Parte disto é cultural: descontos ou aulas baseadas em doações contribuem para atrair novos clientes, e elas se encaixam no caráter espiritual da ioga em si. Mas é também o resultado de um excesso de professores: segundo uma pesquisa de 2016, há duas pessoas treinando para professor para cada instrutor de ioga. Segundo a mesma pesquisa, 33% deles sequer ensinam por vocação, mas como “um hobby que me faz sentir bem”.

A Core Power forma milhares de outros professores “com certificado”, mais do que ela se oferece para empregar. Alguns, depois de formados, se tornam de fato professores da Core Power, enquanto outros ensinam em outro lugar. Mas nas entrevistas ao jornal “The New York Times”, dez pessoas afirmaram que se sentem enganadas quanto ao objetivo, ao custo e à duração do treinamento para professores da Core Power, ou se sentiram pressionadas a enganar outros. Kalli continuou ensinando na Core Power.

Em um hospital onde trabalha como enfermeira, ela ensina exercícios de respiração que aprendeu na Core Power a pacientes com crise de ansiedade, e observa a diminuição dos seus batimentos cardíacos. Ela ainda espera ensinar e não lamenta a ioga que aprendeu na escola - somente a falta de oportunidades para uma carreira. E está aprendendo a conviver com isto também. “Em termos de cuidados com a própria saúde, acho realmente que é isto um bom investimento”, afirmou. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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