Lauren DeCicca para The New York Times
Lauren DeCicca para The New York Times

Malaios debatem o casamento de crianças 

Questão é motivo de discussão no país 

Hannah Beech, The New York Times

01 Agosto 2018 | 15h15

GUA MUSANG, Malásia - Norazila e Ayu eram grandes amigos e compartilhavam tudo o que as meninas costumam fazer: festas de pijama, selfies e longas confidências a respeito de meninos.

Mas a sua amizade, que florescia em sua plácida aldeia no norte da Malásia, foi destruída no final de junho, quando Norazila, 14, descobriu que Ayu, 11, havia se tornado secretamente a terceira esposa do seu pai.

“Minha melhor amiga é minha madrasta agora”, disse Norazila, cujo nome de família é Che Abdul Karim. “É absurdo!”.

O casamento de Ayu com Che Abdul Karim Che Abdul Hamid, 41, um comerciante de borracha que tem um papel de destaque em sua mesquita, reacendeu o debate  na Malásia sobre tradições islâmicas conservadoras que persistem nesta moderna democracia multiétnica.

Em seu manifesto eleitoral, a coalizão da oposição, que subiu ao poder em maio, prometeu proibir o casamento de crianças.

“Esta é uma prática secular, e a esta altura do desenvolvimento e do crescimento da Malásia, o casamento de crianças é inaceitável”, disse Charles  Santiago, um parlamentar  da coalizão de governo.

Mas desde que o escândalo do casamento de Ayu se espalhou pela mídia social da Malásia - depois que a segunda esposa de Che Abdul Karim postou no Facebook imagens da cerimônia de casamento com a frase sarcástica de “Felizes Núpcias” para ele - os críticos afirmam que o novo governo, alegando defender a liberdade religiosa, pouco fez para proteger menores de idade.

O vice-primeiro-ministro da Malásia definiu o casamento um “suposto incidente”. O ministro, Wan Azizah Wan Ismail, disse: “Seria injusto linchar alguém na mídia social porque nos sentimos incomodados por este fato”.

A esposa dele, que anteriormente manifestara a sua oposição ao casamento de crianças, não quis discutir o caso de Ayu porque há uma investigação em curso, inclusive pelo crime de pedofilia.

No ano passado, a Malásia criminalizou a pedofilia, em que um adulto cria um laço emocional com uma criança com o propósito de explorá-la sexualmente.

“A menina é uma vítima, indubitavelmente”, afirmou Latheefa Koya, uma destacada advogada defensora dos direitos humanos muçulmana. “Por que ficamos perdendo tempo para defender uma criança? A ausência de uma real urgência neste caso é preocupante”, acrescentou.

Em julho, Ayu foi levada a um hospital para um teste de virgindade, mas no mesmo dia voltou para a casa do marido, informaram membros da família.

“Eu a amo”, afirmou Che Abdul Karim por telefone, enfatizando que não iria “tocar” sua nova esposa até ela completar 16 anos. De sua parte, Ayu disse em uma mensagem de texto que ama o marido que tem seis filhos com suas outras duas esposas. Ela usou uma imagem carinhosa para descrevê-lo.

Quanto à Constituição do país, o sistema legal da Malásia está dividido. Os malaios não muçulmanos são obrigados a seguir a lei civil. De acordo com a lei, a não ser que um ministro de Estado de alto escalão dê a sua autorização, os não muçulmanos da Malásia só podem casar depois de fazer 18 anos.

Entretanto, a maioria étnica malaia muçulmana deve obedecer à lei islâmica. Um tribunal na Sharia deve conceder sua permissão para que menores de 16 anos possam casar. Se um muçulmano recebe a aprovação das autoridades da Sharia, não há idade mínima para o casamento.

“Segundo o procedimento islâmico, desde que a esposa concorde, os pais concordem e a menina tenha menstruado, pode haver casamento,” disse Sayed Noordin, o imã da mesquita de Kuala Betis que Che Abdul Karim frequenta.

Os ativistas muçulmanos afirmaram que, em 2010, havia cerca de 15 mil meninas com menos de 15 anos casadas. No mundo todo, a Unicef calcula que há mais de 650 mil meninas e mulheres que casaram antes dos 18 anos.

Em alguns casos, na Malásia, há meninas que casaram com homens acusados de estuprá-las. Em 2015, um homem foi acusado legalmente de ter estuprado uma menina de 14 anos, mas o caso não seguiu adiante porque o autor do estupro casou com ela.

Às vezes, os tribunais da Sharia aceitam as uniões com meninas que não têm a idade prescrita para legitimar uma gravidez fora do casamento. Outros são justificados pela pobreza da família da noiva, como no caso de Ayu.

Em julho, o ministro dos Assuntos Islâmicos da Malásia, Mujahid Yusof Rawa, informou que o seu ministério dera início a esforços com o objetivo de proibir o casamento de meninas para a população muçulmana, mas declarou que tornar esta proibição uma lei levaria tempo.

Enquanto isso, as duas primeiras esposas de Che Abdul Karim uniram forças. “Nós dissemos a ele: 

Somos nós ou aquela menina”, afirmou Siti Noor Azila, a segunda esposa de Che Abdul Karim. “Nós falamos: Você não pode ter as três”.

Enquanto Siti Noor falava, duas criancinhas berravam para ficar no seu colo. Ela parecia exausta.

“O pai nunca cuida delas”, queixou-se, “ele sequer gosta de crianças”.

Siti Noor se corrigiu: “Menos de uma, Ayu”, acrescentou.

Sharon Tan contribuiu para a reportagem.

Mais conteúdo sobre:
Malásia [Ásia] casamento

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.