Ian Teh/The New York Times
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Fazenda vertical em contêiner vê venda de produtos aumentar na pandemia na Malásia

The Vegetable Co. é uma das muitas pequenas fazendas em todo o mundo que vendem diretamente aos consumidores

Ian Teh e Mike Ives, The New York Times - Life/Style

17 de setembro de 2020 | 05h00

KUALA LUMPUR, MALÁSIA - A configuração do empreendimento agrícola dos dois amigos era incomum. A fazenda ficava ao lado de um posto de gasolina, dentro de um contêiner onde as plantas cresciam em prateleiras empilhadas na vertical. E o momento para fazer as primeiras vendas – durante os primeiros dias do surto de coronavírus na Malásia – não parecia muito propício.

“Éramos um produto nascente num mercado incerto”, disse Shawn Ng, de 28 anos, cofundador da fazenda vertical, a Vegetable Co. “Não sabíamos se ia dar certo”. “Mas de algum jeito”, acrescentou ele, “o mercado meio que jogou a nosso favor”. Com as compras presenciais diminuindo durante a pandemia, a operação de Ng sediada na Malásia é uma das muitas pequenas fazendas ao redor do mundo que estão vendendo produtos frescos diretamente aos consumidores, de maneiras que contornam os mercados tradicionais.

Algumas fazendas vendem em plataformas de comércio eletrônico, como a Amazon ou a Lazada, empório on-line do Alibaba para o sudeste da Ásia, ou por meio de outras plataformas menores, como a Harvie, um site da Pensilvânia que conecta consumidores a pequenas fazendas dos Estados Unidos e Canadá.

Outras fazendas, como a Vegetable Co., vendem diretamente aos fregueses. “Fiquei muito kan cheong durante o período de lockdown”, disse Ayu Samsudin, um dos clientes regulares de Ng, usando uma expressão em cantonês que significa aflito. “Foi um alívio ter legumes frescos entregues na porta de casa”.

A Vegetable Co. consiste em um contêiner de transporte à beira de um estacionamento em Kuala Lumpur, a maior cidade da Malásia. Ela abriu com apenas um punhado de clientes, cerca de um mês antes de o lockdown entrar em vigor no país, em meados de março. A receita cresceu 300% nas primeiras semanas, e o contêiner de embarque agora está se aproximando da capacidade máxima de produção devido à alta demanda, disse Sha G.P, o parceiro de negócios de Ng.

Além do posto de gasolina, os outros vizinhos do contêiner são uma autoescola e uma plantação de óleo de palma. Do lado de dentro, prateleiras cheias de alface, couve e outros vegetais hidropônicos crescem sob luzes de led. O papel de parede fora da câmara de cultivo mostra céu azul e nuvens brancas, evocando a vista de uma fazenda tradicional.

Mas os funcionários caminham pelo estreito corredor da câmara usando luvas de borracha, máscaras cirúrgicas e jalecos brancos, como se fosse uma enfermaria de hospital. Os fundadores têm pouca experiência com a agricultura tradicional e falam sobre seu trabalho com jargões do Vale do Silício. Sha disse que começou a se interessar pela agricultura vertical depois de assistir a Perdido em Marte, o filme de 2015 em que um astronauta americano interpretado por Matt Damon fica preso em Marte e aprende a cultivar sua própria comida.

“Fiquei surpreso com o grau de precisão da tecnologia e com a elegância da solução para cultivar vegetais num ambiente de gravidade zero”, disse ele. O coronavírus chegou à Malásia em março, depois que um grupo religioso islâmico se tornou um dos maiores vetores da pandemia no sudeste da Ásia.

Desde então, o país de cerca de 32 milhões de habitantes resistiu ao surto relativamente bem, pelo menos em comparação com alguns de seus vizinhos. A Malásia relatou menos de 10 mil casos confirmados desde o início da pandemia, de acordo com um banco de dados do New York Times.

O lockdown da Malásia permitia que apenas uma pessoa por família saísse para tarefas essenciais, e a polícia impôs restrições a viagens locais com bloqueios de estradas. Mas, embora as regras tenham sido gradualmente afrouxadas para permitir a reabertura da maioria do comércio, muitos malaios urbanos mantiveram os hábitos de compras on-line que desenvolveram durante o lockdown, disse Audrey Goo, fundadora da MyFishman, uma plataforma de comércio eletrônico que conecta pescadores de vilas ao longo do costa oeste do país com consumidores em Kuala Lumpur.

“Poucos consumidores estão dispostos a voltar ao mercado”, disse Goo, acrescentando que as vendas de sua empresa praticamente dobraram durante a pandemia. “Então acho que todo o modelo de negócios vai continuar mudando”. Ng disse que a Future Farms, empresa controladora da Vegetable Co., agora busca capital inicial para financiar uma expansão. Recentemente, ele contratou um arquiteto e um desenvolvedor de software para projetar as novas instalações.

Mas, por enquanto, a operação continua modesta. Numa tarde semanas atrás, Ng subiu no seu carro para uma corrida de entrega que serpenteava por bairros residenciais de baixa renda, enquanto o sol se punha abaixo do nebuloso horizonte do centro de Kuala Lumpur.

Uma das clientes na rota de mais de 65 quilômetros, Gudrun Olafsdottir, disse que, junto com ioga e meditação, as verduras da Vegetable Co. faziam parte de uma rotina que a ajudava a manter o bem-estar físico e mental durante a pandemia. Olafsdottir, que é islandesa e trabalha no varejo, encontrou a fazenda no Facebook por indicação de um chef local especializado em culinária crua e vegana.

Ela disse que era uma das várias empresas locais que vem apoiando com um “abraço financeiro”. “Acho que a gente pode fazer um monte de coisa para ajudar os necessitados só escolhendo conscientemente como vamos gastar nosso tempo e dinheiro”, ela escreveu no seu blog. “Um abraço e um apertão”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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