Martin Meissner/Associated Press
Martin Meissner/Associated Press

Há mais de uma maneira correta de formar jovens atletas

Estudo com irmãos campeões no atletismo investiga quais elementos são mais determinantes para explicar a chuva de medalhas

Gretchen Reynolds, The New York Times

27 de setembro de 2019 | 06h00

Existe uma única maneira correta de educar e formar um jovem atleta? De acordo com um novo estudo de caso intimista a respeito das vidas, históricos e treinamentos de Henrik, Filip e Jakob Ingebrigtsen - três irmãos noruegueses, corredores de meia-distância de alto nível -, jovens atletas podem ser capazes de percorrer rotas variadas na corrida pelo sucesso. Mas todos os caminhos envolvem uma intersecção entre o apoio familiar e frequentes treinos intervalados de alta intensidade.

O estudo de caso, realizado principalmente com base em observações pessoais e entrevistas, levanta questões a respeito do papel da natureza e dos estímulos na formação de um atleta. Há indagações quanto ao desempenho, se depende mais de habilidade ou da prática e se algum momento da vida seria cedo demais para iniciar a prática de um esporte.

O exemplo dos Ingebrigtsens pode ser educativo. Os três venceram em sequência competições europeias de atletismo na categoria de 1.500 metros e estabeleceram, entre eles, todos os recordes em grupos de faixa etária nos 1.500 metros, assim como muitos dos recordes de 800 e cinco mil metros. 

O irmão mais velho, Henrik, atualmente com 28 anos, venceu sua primeira competição europeia de 1.500 metros em 2012. Seis anos depois, Jakob, agora com 19, foi ganhador das corridas de 1.500 e cinco mil metros nos campeonatos europeus e, em julho, estabeleceu o novo recorde nacional nos cinco mil metros em seu país. Entre eles, Filip, de 26 anos, se tornou campeão europeu dos 1.500 metros em 2016 e ainda mantém o título norueguês nessa distância (eles são o segundo, o terceiro e o quinto filhos de uma família de sete irmãos).

Esse sucesso chamou a atenção de Leif Inge Tjelta, um professor de ciência do esporte da Universidade de Stavanger, na Noruega, que estudou e trabalhou com corredores de longa distância, incluindo Grete Waitz, a atleta norueguesa que venceu nove vezes a Maratona de Nova York. Há cerca de sete anos, Tjelta começou a comparecer aos treinamentos dos irmãos Ingebrigtsen e tomar notas. O pai deles, Gjert, treinou os filhos ao longo de todas as suas trajetórias, apesar de nunca ter disputado competições de atletismo.

Em seu novo estudo, publicado recentemente no International Journal of Sports Science and Coaching, Tjelta se propõe a analisar quais elementos nas vidas dos Ingebrigtsen são mais determinantes para explicar a chuva de medalhas. De maneira talvez mais evidente, ele ressaltou o fato de eles terem treinado relativamente pouco quando eram jovens.

Enquanto atletas adolescentes de elite têm como objetivo correr 145 quilômetros ou mais em uma semana, os irmãos Ingebrigtsen corriam cerca de 80 quilômetros por semana antes dos 16 anos e, sob a orientação do pai, aumentaram gradualmente a distância ao longo dos anos seguintes, até se estabilizar em cerca de 160 quilômetros por semana aos 18 anos.

Algumas dessas corridas eram entrecortadas por treinos intervalados de alta intensidade quando os atletas eram jovens, afirmou Tjelta. Antes de completarem 16 anos, suas corridas de treinamento eram longas e regulares. Naquele ponto, seu pai começou a aplicar sessões de treinos mais intensos, nas velocidades que os jovens empregariam em uma corrida de 10 mil metros. 

Esse ritmo é mais leve do que o utilizado em muitos treinamentos de atletas de elite, que cumprem treinos de potência semelhantes nas velocidades em que percorreriam, por exemplo, três mil ou 1.500 metros. Os dois irmãos mais velhos intercalavam o atletismo com futebol competitivo e corridas de ski cross-country, em categorias de elite. Somente Jakob, o mais novo, colocou o foco exclusivamente na corrida de meia-distância, apesar de ter competido em outros eventos de atletismo.

Aspectos da relação interpessoal em seus treinamentos também foram importantes. Os irmãos treinavam juntos desde quando Jakob tinha cerca de 12 anos, apoiando e encorajando um ao outro, segundo explicaram a Tjelta. O ambiente em sua casa incentivava eles a correr, mas não exigia isso deles.

Vista como um todo, afirmou Tjelta, esse relato particular sugere que o caminho para o sucesso pode envolver a elevação gradual das distâncias e protelar os treinamentos intervalados de alta intensidade para quando os corredores forem mais maduros. Jovens atletas também podem ficar tranquilos sabendo que o sucesso pode vir ao praticar vários esportes na adolescência e se especializando posteriormente em um só esporte.

Os irmãos “tiveram muita sorte com seus genes”, disse Tjelta. “Mas a genética tem que ser combinada com outros fatores.” Os Ingebrigtsen competirão no próximo Campeonato Mundial de Atletismo, que ocorre entre 27 de setembro e 6 de outubro no Catar. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Tudo o que sabemos sobre:
atletismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.