Gilles Sabrié para The New York Times
Gilles Sabrié para The New York Times

Manicure à mesa de um restaurante? Na China, isso é possível

A cultura local pode propiciar diferentes experiência culinárias, como esmaltação durante o jantar e ingredientes comprados em uma biblioteca

Alan Mattingly, The New York Times

06 Janeiro 2019 | 06h00

A temporada de comidas festivas está chegando ao fim, mas a ressaca da barriga cheia não vai durar muito. Em breve, muitos de nós voltarão à rotina anual que transforma o jantar numa festa. Esse parece ser o objetivo no Haidilao, popular rede de restaurantes da China. Os frequentadores às vezes esperam horas na fila para comer uma caldeirada, prato favorito dos chineses, no qual a carne e os legumes são cozidos num caldo na mesa. Mas a espera é metade do programa. Os comensais podem usar o tempo para brincar com jogos de tabuleiro. Ou assistir a uma apresentação de ópera. Ou talvez receber os cuidados de uma manicure.

"Acho os serviços especiais do Haidilao muito divertidos", disse Shang Feifei, que visita a rede todas as semanas. "Como a máquina de imprimir fotos, a pedicure de graça, os jogos de tabuleiro chineses e origami". O Haidilao, que tem quase 300 restaurantes na China e alguns no exterior, tenta expandir sua presença internacional, embora ainda não esteja claro se sua abordagem para o ato de jantar fora será bem recebida por todos.

"Achei nojento ver que as pessoas na fila de espera estavam fazendo as unhas", disse Joel Silverstein, que administra uma consultoria para restaurantes em Hong Kong, a respeito da sua visita a um Haidilao no continente. "Nos EUA, isso seria considerado uma violação flagrante das normas de vigilância sanitária".

Talvez Silverstein preferisse uma oferta de passatempos mais inofensivos na hora da refeição. Quem sabe as fragrâncias de um embutido suíno acompanhadas de um romance interessante. Combinações desse tipo mantiveram aberta a biblioteca de Wolfgang Frühauf, em Bad Sooden-Allendorf, Alemanha. Os desafios de manter aberta uma livraria numa cidade de 8.500 habitantes devem soar familiares em qualquer lugar: concorrência das redes maiores, mudanças digitais nos hábitos de leitura, e mais. Assim sendo, o que um livreiro da zona rural pode fazer?

Frühauf começou pela reorganização das prateleiras para abrir espaço para o pão fresco. As últimas duas padarias da cidade estavam fechando, mas um dos padeiros, Norbert Schill, não estava pronto para se aposentar. A livraria começou a abrir mais cedo, e os moradores passaram a frequentá-la no café da manhã.

Mas muitos açougueiros da região também tinham perdido clientes e fechado, embora as pessoas estivessem acostumadas a comprar sua "ahle wurst", embutido considerado iguaria local, na padaria de Schill. Assim, Frühauf instalou também uma geladeira.  Encontrou espaço para pepinos, tomates e mais. São todos produtos locais, e adequados para uma livraria; tudo é acompanhado por uma narrativa. Frühauf mencionou que seus ovos são de galinhas criadas com vista para dois castelos.

“Conheço a história de cada produto que vendo", disse. Mark Twain gostaria da ideia. O grande autor americano estava apresentando um livro na Europa em 1879 quando começou a sentir saudades da comida de casa, criando um prato imaginário que gostaria de pedir assim que retornasse.

Esse cardápio, que incluiria ingredientes como cágado e guaxinim, pareceria estranho para os gostos atuais. Uma nova série em formato de áudio adaptada a partir do livro Twain’s Feast (O Banquete de Twain), de Andrew Beahrs, analisa as mudanças culturais e gerais que transformaram o paladar americano.

"Os pratos que Twain mais gostava eram considerados clássicos americanos", disse Beahrs ao Times. “Mas tudo isso faz parte da riqueza do cotidiano: coisas desse tipo podem desaparecer muito rapidamente". Mas, na época, eram conhecidas especialidades regionais. E, melhor ainda para Twain, eram acompanhadas por histórias. "Quando ele gostava de algum prato, geralmente havia um contexto mais amplo para esse apreço", disse Beahrs. "Claro que ele gostava de provar a comida em si, mas também de conhecer as pessoas com quem estava e os lugares onde comia".

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