Noah BergerAP Photo
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O que  significa 'parecer uma mamãe' no contexto de um protesto nos EUA?

Mães se juntam para formar 'paredes' de proteção a manifestantes do Black Lives Matter

Vanessa Friedman, The New York Times - Life/Style

19 de agosto de 2020 | 05h00

Bev Barnum, 35, que se define como “esposa suburbana e mãe de dois filhos”, mandou inicialmente um apelo ao Facebook para servir de escudo protetor dos manifestantes de Portland, nos EUA, contra as tropas federais, mas com uma condição.

“Minha ideia era que deveríamos parecer mamães”, ela disse ao jornal The New York Times, “porque quem vai atirar em uma mamãe?” E especificou que elas deveriam se vestir de amarelo, para serem bem visíveis, e “como se estivessem indo para o supermercado”.

A ideia pegou e, desde então, foi adotada por inúmeras outras cidades, como Seattle; Oakland, Califórnia; e Albuquerque, Novo México. A Parede de Mamães (Wall of Moms) gerou uma Parede de Papais e uma Parede de Veterinários.

Mas também levantou a questão: O que significa “parecer” uma mamãe? Será que esta categoria existe?

Afinal, há tantas mamães diferentes em termos de aparência e estilos quanto há mulheres no mundo. Mamães como Beyoncé e Grimes; como Ruth Bader Ginsburg e Jacinda Ardern, e Ilham Omar. Como Alex Morgan, a jogadora de futebol, e Candace Parker, jogadora de basquete. Ou como Michelle Obama e Melania Trump. E inclusive a pessoa mascarada que está ao nosso lado na rua.

Ocorre que quando não há uma criança para dar uma indicação, é impossível distinguir uma mãe pela aparência.

Por isso que, quando Bev disse que deveriam “parecer mamães”, provavelmente não estava falando no sentido literal. Ela se referia à mãe que ocupa um espaço mítico na nossa imaginação.

A mamãe da imagem mental.

A mamãe da carona; da manteiga de amendoim e geleia. A mamãe da quadra de hockey (e do futebol). A do calendário na porta da geladeira, a que recorta cupons; a que compra material para a volta à escola e utensílios de cozinha nas liquidações.

Em outras palavras, a mamãe que, na realidade, é um estereótipo, frequentemente associada à palavra “média, meia”, classe média, meia idade, e ‘mole no meio’ da silhueta (barrigudinha). A mãe que não ameaça, mas nutre; a protetora. A mãe que não pega em armas para ir ao ataque, mas, ao contrário, une forças em solidariedade; a que surgiu no ano 2000 na Marcha do Milhão de Mães (contra a venda de armas).

A mãe que em geral (nem sempre) é branca, em parte porque ela vem de uma tradição da cultura pop do mercado de massa em grande parte gerido por brancos. A mãe que remonta a June Cleaver, com seu avental e desenhos florais, e das séries “The Brady Bunch” (A família Sol La Si Do), “Eight Is Enough” e “The Cosby Show” e do filme “Doze É Demais”.

A própria palavra “mamãe” (mom)- ao contrário de ‘mãe’ (mother), que tem mais implicações de uma Madona - lembra esta ideia.

Na realidade, pode-se dizer que é por isso que a Parede de Mamães, em grande parte brancas, embora Bev seja mexicana americana, também foi chamada a Parede de Karens - nos EUA, o nome Karen é usado como referência a mulheres brancas, arrogantes, de meia idade -, e foi tema de debate entre os manifestantes que a consideraram uma solidariedade mais para fins de espetáculo, que compromete o objetivo da igualdade racial posicionando mulheres brancas como salvadoras, ao resgate.

Afinal, há décadas, as mães negras fundiram sua maternidade com o ativismo, sem serem amplamente reconhecidas, sem merecer o abraço do público. Como Kelly Glass destacou em The Lily, antes que existisse a Parede de Mamães, havia o Exército de Mamães: um grupo de mulheres negras unidas contra a violência das armas em Chicago - a mesma cidade em que, uma semana antes da fundação da Parede de Mamães, houve uma marcha das mães das comunidades preta e latina. Todas elas fazem parte de uma tradição singular e poderosa de simbolismo materno, com seus próprios pontos de referência e critérios culturais.

Em resposta, as fundadoras da Parede de Mamães enfatizaram que não pretendem falar pelo movimento, apenas o defendem.

E, unindo-se em um mar genérico de figuras brancas ou amarelas, rostos apagados pelos capacetes de ciclistas, óculos e outros equipamentos de proteção para a cabeça (perfeitos contra o gás lacrimogêneo e as balas de borracha), alguns com a palavra “mamãe” rabiscada em cima, o indivíduo se apaga cada vez mais, e o que resta é o símbolo.

O fato de que o símbolo possa ser uma grosseira generalização de uma ideia também a torna eficaz. A aposta é que a maior parte das pessoas do outro lado possa se identificar, e possa encontrar nessa massa de mães de amarelo a sua conexão específica.

Como Bev disse em um e-mail, “Toda a premissa era que nós deveríamos parecer não violentas, o que obrigaria a guarda nacional a fazer uma pausa.”

Como é notório, em 2017, o presidente Donald Trump salientou que as mulheres na Casa Branca deveriam se vestir “como mulheres”, o que, em uma tradução livre, significava aparentemente “vestir como Ivanka”. Em resposta, as mulheres de todo o país inundaram a mídia social com imagens de si mesmas vestidas como achavam mais adequado: como astronautas, bombeiras, pugilistas. E manifestantes.

Desta vez, apesar das complicações relacionadas ao simples fato de considerar a ideia do que seja “parecer uma mamãe”, o mesmo não tem sido verdadeiro, e mostra onde estão as prioridades.  

Esta estratégia faz parte do protesto desde que os protestos começaram: a criação de uma força visual que está na roupa, e demarca imediatamente o povo envolvido, comunicando uma impressão de solidariedade e coesão, enviando ao mesmo tempo uma mensagem subliminar. As sufragistas que se vestiam de branco sabiam disso, os ativistas da democracia de Hong Kong em trajes pretos sabiam disso, e os coletes amarelos da França sabiam disso.

Quer Bev e seus confederados tenham levado em conta a psicologia da cor ou não ao fazer sua escolha, o efeito claro criou um forte contraste com as forças federais em uniformes de camuflagem e a parafernália contra motins - caracterizados pela historiadora Anne Applebaum como “autoritarismo performático”. Por outro lado, mina ao mesmo tempo os esforços do governo Trump de pintar os protestos como manipulações de grupos antifascistas, identificáveis em grande parte por sua escolha de trajes totalmente pretos.

Este é também um dos uniformes associados ao movimento da justiça social, caracterizado por sua falta de um código do vestuário e de um alcance multinacional e multidimensional.

Quanto à Parede de Papais, eles se vestem, principalmente, de cor laranja. Veremos como irão resolver a questão dos jeans. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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