Cinti Ocon/Agence France-Presse- Getty Images
Cinti Ocon/Agence France-Presse- Getty Images

Manifestantes nicaraguenses são obrigados a viver escondidos

Protestos começaram em abril quando governo local tentou implantar cortes nas aposentadorias

Frances Robles, The New York Times

03 de janeiro de 2019 | 06h00

MANÁGUA, NICARÁGUA - Uma vida de fugitivo não era o que nenhum destes nicaraguenses queria. Mas muitos cidadãos desta pobre nação da América Central trocaram sua existência normal de advogados, estudantes de engenharia, radialistas, e comerciantes por um esconderijo seguro cada dia diferente, aplicativos de mensagens em código e pseudônimos.

Oito meses depois do levante popular que deixou 322 mortos e 565 pessoas presas, muitos nicaraguenses entraram para a clandestinidade, para esconder-se de um Estado cada vez mais autoritário que persegue os que protestam contra o governo do presidente Daniel Ortega e sua esposa, a vice-presidente Rosario Murillo.

“Eles nos caçam como animais selvagens”, disse Roberto Carlos Membreño Briceño, 31, ex-funcionário de um escritório de advocacia que hoje vive escondido em um sítio na Costa Rica com 50 estrangeiros. Quando centenas de milhares de pessoas foram às ruas nas cidades da Nicarágua para exigir a saída do presidente, muitos observadores acharam que os dias de Ortega no poder logo estariam no fim.

Ao contrário, Ortega reagiu com uma estratégia brutal para calar a oposição. Agora, cerca de 40 anos depois que a Frente Sandinista de esquerda liderada por Ortega derrubou a dinastia Somoza, ele é acusado de ter se tornado o próprio ditador que ajudou a depor. Ortega, 73, e sua esposa, 67, controlam praticamente todos os setores do governo. Seus filhos, hoje administram quase toda atividade econômica, da distribuição da gasolina  às emissoras de televisão. Centenas de civis foram acusados de crimes no âmbito de uma nova legislação que ampliou a definição de terrorismo.

Em dezembro, o governo fechou uma popular emissora de TV, prendeu o seu diretor do setor de notícias e expulsou vários observadores de direitos humanos. Postos de gasolina particulares que participaram das greves foram fechados. A polícia invadiu a principal organização de direitos humanos do país e apreende seus computadores.

“O nosso trabalho de campo demonstrou que estão sendo cometidos crimes contra a humanidade”, afirmou Paulo Abrão da Comissão Inter-Americana para os Direitos Humanos, que foi expulso do país. Embora a repressão de Ortega tenha calado a oposição, a pressão internacional e a economia em crise poderiam contestar o seu poder. Os protestos começaram em abril quando o governo tentou implantar uma reforma da seguridade social que reduziria os benefícios e aumentaria as contribuições dos segurados.

Os idosos que sofreriam uma redução de suas aposentadorias começaram a fazer piquetes em Manágua, a capital, mas foram atacados por grupos favoráveis ao governo. Estudantes do ensino secundário que correram em apoio aos manifestantes também tornaram-se vítimas dos ataques, e alguns morreram. A agitação social rapidamente cresceu e se espalhou para outras cidades.

Moradores mascarados armados com morteiros de fabricação caseira e outras armas montaram bloqueios nas ruas paralisando o comércio. Alguns manifestantes incendiaram edifícios do governo e queimaram automóveis, enquanto a polícia respondia com uma força letal até mesmo contra manifestantes desarmados, segundo afirmam observadores de direitos humanos. Vilma Núñez, antiga sandinista que foi presa política nos anos 70, disse que a repressão hoje é muito pior do que tudo o que os Somozas fizeram. Atualmente presidente do Centro Nicaraguense para os Direitos Humanos, ela recebeu relatos de ativistas atacadas sexualmente com baionetas. Homens obrigados a ficar nus foram torturados, e depois soltos, descalços, com as cabeças raspadas.

Os especialistas calculam que 60 mil pessoas fugiram do país, e mais de 23 mil buscaram refúgio na Costa Rica. No dia 21 de dezembro, um grupo constituído pela Organização dos Estados Americanos concluiu que a repressão só pode ter sido ordenada pelo próprio Ortega. Em uma casa de refugiados nicaraguenses na Costa Rica, dezenas de ativistas dormem sobre colchões no chão. Sua luta, disseram, continua em casa. “Agora, estamos em uma fase em que é impossível realizar eventos maiores”, observou um estudante que usa o pseudônimo de “José” por medo de que sua família seja visada. “As pessoas acham que já acabou? Não acabou. Nem vai acabar”.

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