Manifesto de atirador de El Paso usa linguagem de Trump

Manifesto de atirador de El Paso usa linguagem de Trump

Se não foi Trump que inspirou o assassino, ele introduziu na política ideias polarizadoras

Peter Baker e Michael D. Shear, The New York Times

09 de agosto de 2019 | 06h00

Nos comícios que antecederam as eleições de meio de mandato do ano passado, o presidente Donald Trump advertiu repetidas vezes os Estados Unidos de que estavam sendo atacados pelos imigrantes que se dirigiam para a fronteira. “Vejam o que está em marcha, é uma invasão!” declarou em um comício. “É uma invasão!”

Nove meses mais tarde, um jovem branco de 21 anos é acusado de abrir fogo, no dia 3 de agosto, em um supermercado Walmart, em El Paso, matando 22 pessoas e ferindo dezenas de outras, depois de redigir um manifesto cheio de revolta contra a imigração e anunciando que “este ataque é uma resposta à invasão hispânica do Texas”.

O suspeito escreveu que suas opiniões “são anteriores a Trump”, quase antecipando o debate político que se seguiria ao banho de sangue. Mas se não foi Trump que inspirou o assassino, ele introduziu na política convencional ideias polarizadoras e pessoas outrora relegadas às margens da sociedade americana.

Embora outros líderes tenham expressado preocupação com a segurança das fronteiras e os custos da imigração ilegal, Trump encheu os seus discursos públicos e as mensagens no Twitter com uma linguagem que inspira o medo, às vezes falsa, enquanto abria as portas da Casa Branca a uma hoste de expoentes da linha dura, com a tendência a demonizar os adversários, e a teóricos da conspiração rejeitados por presidentes anteriores. 

Por tudo isso, Trump não está preparado para oferecer a força apaziguadora e unificadora projetada por outros presidentes em épocas de tragédias nacionais. No dia seguinte à matança, Trump elogiou o trabalho da polícia e deu as condolências às vítimas e a suas famílias em El Paso, e também em Dayton, Ohio, onde outro massacre sem relação com o primeiro deixou nove mortos na manhã do dia seguinte, 4 de agosto.

No dia 5 de agosto, Trump condenou a supremacia branca na esteira dos ataques, citando a ameaça do “ódio racista” e pedindo a união nacional enquanto prepara uma resposta. “A uma só voz a nossa nação deve condenar o racismo, o preconceito e a supremacia branca”, afirmou. 

Mas os candidatos democratas à presidência apontaram o dedo para Trump, afirmando que ele encorajou o extremismo com sua linguagem de ódio. Relacionar o discurso político, embora exacerbado, aos atos específicos de impiedosos assassinos em massa é um exercício perigoso, mas os especialistas afirmam que os líderes podem criar uma atmosfera adequada com suas palavras e atos, e arcar com a responsabilidade peculiar de não inflamar indivíduos ou grupos, mesmo que não intencionalmente.

“Os principais líderes políticos e personalidades da mídia com posições partidárias encorajam o extremismo quando endossam ideias supremacistas brancas e jogam com uma linguagem violenta”, afirmou Nathan P. Kalmoe, professor da Louisiana State University. “Quando a pessoa mais poderosa da Terra reitera as suas opiniões de ódio, estas podem dar aos extremistas uma sensação de impunidade”.

David Livingstone Smith, professor de filosofia da University of New England e autor de um livro sobre a desumanização de inteiras categorias de pessoas, afirma que Trump encorajou americanos cujas posições, até pouco tempo atrás, eram consideradas inaceitáveis na sociedade cotidiana. “Isto sempre fez parte da vida americana”, afirmou. “Mas Trump deu ao povo a permissão de dizer o que pensa. E isto é como cocaína, crack. É algo poderoso. Quando alguém permite que você seja autêntico, isto se torna algo extremamente potente. As pessoas saíram das sombras”.

Uma linguagem sombria contra os imigrantes deu há várias gerações certo tempero à política americana. Os políticos dos anos 1880 e 1920 subiram ao poder apoderando-se dos medos de italianos, japoneses, chineses, e de outros imigrantes, intensificando o temor da perda da “identidade americana”. Há anos, Trump abraçou as conspirações racistas: ele foi uma das principais vozes que insistiram na “mentira do nascimento”, segundo a qual o presidente Barack Obama não havia nascido nos Estados Unidos. 

E desde a sua campanha à presidência, Trump levou tais posições ao centro da política americana. Ele denuncia membros de gangues imigrantes como “animais” e se queixa de que imigrantes sem autorização “se espalham” pelos Estados Unidos e “infestam” o país. A imigração ilegal é uma “monstruosidade”, afirma, exigindo que todas as congressistas de cor nascidas nos EUA “voltem” aos seus países de origem.

Por sua vez, depois dos assassinatos, outros republicanos se posicionaram e passaram a denunciar o nacionalismo branco. “Nos últimos meses, tem havido múltiplos ataques de pessoas que se declaram terroristas brancos nos EUA”, afirmou George P. Bush, comissário do Land Office do Texas e filho do ex-governador Jeb Bush, da Florida. “Esta é uma ameaça real e presente que todos nós devemos denunciar e suprimir”. / Maggie Haberman contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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