Alessandro Grassani para The New York Times
Alessandro Grassani para The New York Times

Mansão funciona como casa de repouso para ex-músicos da terceira idade

Local é mantido pela Fundação Giuseppe Verdi e ajuda idosos em situação de pobreza

Sally McGrane, The New York Times

26 Abril 2018 | 10h00

MILÃO - Havia um zum-zum no ar enquanto os habitués dos concertos em xales de seda e joias cintilantes chegavam com a ajuda de cadeiras de rodas, andadores e bengalas, e tomavam os seus lugares na sala de concertos. Repleta de ornatos com piso de madeira de lei, a Casa de Repouso para Músicos de Milão, conhecida como Casa Verdi, é mantida pela Fundação Giuseppe Verdi.

Fez-se silêncio, e duas musicistas em traje de gala tomaram as suas posições atrás de harpas douradas. A sala se encheu com a música luminosa de Debussy. O público estava fascinado.

“Bravo”, murmurou Luisa Mandelli, uma soprano que cantara com Maria Callas no teatro La Scala de Milão; Depois, ela balançou a cabeça em sinal de desânimo: duas cadeiras mais para lá, um tenor vestido com elegância começou a roncar suavemente. “Ele tem 98 anos”, sussurrou Luisa, que tem 95. 

Curvou-se para frente e deu um tapinha delicado no joelho do antigo colega.

Luisa Mandelli é uma dos 60 antigos músicos que vivem na Casa Verdi, uma suntuosa mansão em estilo neogótico construída no centro de Milão por Verdi. Concluído em 1899, o edifício foi criado com a finalidade de ser um santuário para músicos que chegaram à velhice em uma situação de pobreza. 

“Velhos cantores que não foram favorecidos pela sorte, ou que, quando jovens, não tiveram a virtude da parcimônia”, escreveu Verdi em uma carta, na época.

Aposentadorias e seguro social reduziram a necessidade econômica de um refúgio como este, afirmou Roberto Ruozi, presidente da Fundação, que usa investimentos feitos com os royalties das óperas do compositor para financiar a casa de repouso. Os seus hóspedes pagam proporcionalmente aos recursos pessoais.

Entretanto, a Casa Verdi é anualmente submersa por solicitações de compositores, regentes, cantores, músicos de orquestra, professores de música e qualquer outro que “exerceu a arte da música como profissão”, segundo o site  da fundação. Depois que os candidatos demonstraram a autenticidade dos dados sobre a profissão, o conselho da Casa Verdi  escolhe a pessoa que os seus membros consideram mais adequada.

Os candidatos aprovados passarão os últimos anos de sua vida em um lugar onde, além do quarto, pensão e assistência médica, poderão desfrutar de concertos, salas de música, 15 pianos, um enorme órgão, harpas, tímpanos, e a companhia dos seus pares. “Atualmente, a maioria dos nossos clientes não está em boas condições econômicas, mas deseja continuar se apresentando, e a estar envolvida com a música”, disse Ruozi.

A talentosa clientela da Casa Verdi tem as mesmas necessidades das pessoas idosas, com algumas exceções, ele acrescentou: “Primeiramente, os hóspedes precisam de música. Em segundo lugar, querem ser tratados não como pessoas comuns, mas como hóspedes especiais - como estrelas”, Ruozi suspirou. “Temos 60 músicos idosos, e 60 estrelas”.

No andar de cima, em um salão elegante, dois residentes  aguardavam a hora do almoço. Eles refletiam  sobre o que lhes agradava mais no lugar. “Não sentimos falta de nada”, disse Angelo Loforese, um tenor de 98 anos que atualmente é o habitante mais idoso da Casa Verdi. “Podemos ter uma manicure, um corte de cabelo, de barba”.

Mas nem todos se consideram felizes. Claudio Giombi, 80, barítono, disse que os colegas se queixam demais de dores e doenças. Desde que se mudou para cá, há seis anos, ele e a esposa contaram que desistiram de tentar organizar  algum projeto musical com os outros residentes. “Há sempre uma língua mais afiada”.

Luisa Mandelli, a soprano, admitiu que o envelhecimento traz limitações: sua perna esquerda começou a doer recentemente, e agora ela só pega o metrô para assistir aos espetáculos do La Scala quatro vezes por semana, e não todas as noites. “Estou ficando preguiçosa”, falou.

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