via Uwe Westphal
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Marcas judaicas de roupa de Berlim ganham vida nova

Capital alemã possuía próspera indústria da moda dirigida por judeus. Os nazistas a destruíram. Agora uma empresa está tentando trazê-la de volta

Vanessa Friedman, The New York Times

20 de dezembro de 2019 | 06h00

No mês passado, o professor Andreas Valentin, 66 anos, viajou do estado do Rio de Janeiro até Berlim para participar de uma espécie de cerimônia de restituição. Ele era o convidado de honra no lançamento de uma grife renovada: a Manheimer, fundada pelo seu tataravô, Valentin Manheimer, em 1840. 

Já foi conhecido com “o rei do sobretudo”, famoso por criar peças masculinas e femininas de alta qualidade para o mercado de massas, prontas para vestir. Reimaginada como marca de vestuário masculino voltada para um estilo elegante e minimalista, suas roupas estão voltando às lojas. Quem nunca ouviu falar da marca não tem do que se envergonhar. A Manheimer acabou em 1929. Mas, na virada do século 20, a grife estava no centro de um universo alemão da moda comparável aos de Paris e Londres.

Mas esse universo era administrado por judeus. Como resultado, desapareceu durante os anos 1930, quando o regime nazista destruiu os negócios dos judeus. “Em 1933, havia cerca de 2,7 mil produtores de moda de primeira classe em Berlim", disse Uwe Westphal, autor de Fashion Metropolis Berlin. “Já em 1939, havia menos de 150.”

Agora, uma empresa espera trazer de volta uma série de outras grifes perdidas. A Manheimer está entre 32 empresas fundadas por judeus, incluindo a relojoaria F. L. Löbner, as bagagens M. Würzt & Söhne e o sapateiro Breitsprecher, que antes povoavam as ruas de Berlim de uma região conhecida como Hausvogteiplatz.

Suas marcas registradas foram adquiridas pela Jandorf Holding, com o objetivo de devolver à Alemanha seu lugar de direito no segmento do luxo - e conectando as marcas aos seus herdeiros, restaurando assim o que lhes pertence por direito. “A Alemanha é conhecida pelas marcas de carros de luxo", disse Lothar Eckstein, um dos sócios da Jandorf. “Mas ninguém sabe que a Manheimer foi a responsável por aquela que se tornaria uma indústria global.”

Eckstein descobriu esse lado da história quando se mudou para Berlim, depois de passar a infância em uma cidadezinha perto de Stuttgart. Ele administrava a Amazon na Alemanha e fundou sua própria empresa independente de mídia. Disse ter percebido “que a transferência da indústria do luxo para a internet significou mais importância para as marcas, e isso significa que a história das marcas é mais importante". A moda era um dos setores econômicos mais expressivos na Alemanha da virada do século 20, com artigos exportados para os Países Baixos, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Brasil.

A maioria dos donos e funcionários das empresas era de judeus. Duas das maiores eram a Manheimer, que criou um dos primeiros sistemas de reprodução em diferentes tamanhos, e a Hermann Gerson, que produzia as roupas da corte da Prússia. De acordo com a lei alemã, se uma marca registrada passa cinco anos em inatividade, ela pode ser cancelada a pedido e readquirida. Assim, há cerca de 10 anos, a Jandorf começou discretamente a adquirir nomes.

Embora Eckstein e seus sócios não sejam judeus, eles decidiram que seria necessária uma participação dos herdeiros dos fundadores, e começaram a procurar seus parentes vivos. Entraram em contato com Valentin em 2018. A Jandorf precisa mostrar que a Alemanha tem um passado respeitável na moda de alto padrão. “A continuidade foi rompida", disse Margit Mayer, editora de estilo do Berliner Zeitung.

“Não temos uma continuidade de estilo como se vê na França, na Itália e na Inglaterra.” Quando a história da moda é contada, a contribuição alemã raramente é mencionada. “Havia uma relutância em se pensar no papel dos judeus na cultura e na sociedade alemãs", disse o historiador Harold James, da Universidade Princeton, em Nova Jersey.

Margit também atribui essa lacuna a um preconceito cultural em relação à moda, vista como objeto de estudo menos sério e digno do que a filosofia e a ópera. A Jandorf planeja contar a história de cada marca por meio de eventos e narrativas na internet. Será usado o manual de truques do marketing de luxo, falando em “estilo atemporal” em lugar das tendências. Os modelos da Manheimer serão vendidos online. Logo estarão disponíveis peças femininas.

“Será que isso vai trazer de volta a lembrança, o estilo e a classe dos anos 1920, ou tudo não passa de uma jogada de marketing?” indagou Westphal. “Talvez baste enviar à geração mais jovem um sinal dizendo que isto é ao menos parte da nossa história. Não se trata de uma parede em branco.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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