Lynsey Addario para The New York Times
Lynsey Addario para The New York Times

Marieke Vervoort: a campeã paralímpica que escolheu uma data para morrer

Atleta belga se submeteu à eutanásia assistida por um médico após uma vida de superações

Andrew Keh, The New York Times

15 de dezembro de 2019 | 06h00

DIEST, BÉLGICA - Taças de champagne foram enchidas até a borda e passadas pelo cômodo. Dezenas de pessoas estavam no apartamento apertado de Marieke Vervoort, sem saber o que fazer. Era uma celebração, ela os assegurara. Mas não parecia uma. Onze anos antes, Vervoort havia obtido a papelada para se submeter à eutanásia assistida por um médico.

Ela estava lutando contra uma doença muscular degenerativa que roubou o uso das pernas, tirou a independência e causou dor implacável. E a papelada havia lhe dado algum senso de controle novamente. De acordo com a lei belga, ela estava livre para terminar sua vida no momento que quisesse.

Mas, em vez disso, ela agarrou-a com novo vigor. Dentro de alguns anos, alcançou alturas desconhecidas em sua carreira como velocista de cadeira de rodas. Ela se tornou uma celebridade em casa e no exterior, aparecendo em revistas e jornais internacionais, sentada para entrevistas em programas de televisão. Ela viajou pelo mundo contando sua história de vida como uma narrativa inspiradora.

Mas ela ainda tinha aquela papelada. E agora, depois de mais de uma década de incerteza, dor e alegria, de abrir sua vida privada a amigos e estranhos, de inspirar outros, de irritá-los, de desejar o fim de sua vida e ao mesmo tempo temê-la, Vervoort convidara seus entes queridos para sua casa pela mais comovente das razões: em três dias, ela tinha um compromisso para morrer.

"É uma sensação muito estranha", disse sua mãe, Odette Pauwels, enquanto examinava a festa. Os convidados de Vervoort tomaram um gole de suas bebidas e conversaram um pouco, esforçando-se para cumprir seu pedido de que todos fossem felizes. Houve brindes. Houve lamentos de angústia. Havia também um leve sentimento de incerteza no ar - uma pergunta não dita se esse realmente era o fim, uma pequena esperança de que talvez não fosse.

Quase três anos se passaram desde que dois jornalistas do The New York Times - o fotógrafo Lynsey Addario e eu - começamos a passar um tempo com Vervoort para relatar o fim de sua vida, para observar uma atleta de elite assumindo o controle de seu destino de maneira extraordinária. Ela havia chegado perto de agendar sua eutanásia em várias ocasiões, mas sempre encontrara um motivo para adiá-la, entre a dor crescente e as pequenas realizações que ela podia experimentar no tempo que ainda restava.

"Você ainda espera que algo mais aconteça, que ela mude de ideia", disse Jan Desaer, uma das melhores amigas de Vervoort. "Você sabe a data, mas continua negando para si mesma que isso vai acontecer, que vai se tornar real." Dessa vez, Vervoort, 40 anos, parecia resolvida. "Estou ansiosa por isso", disse ela sobre sua morte. "Ansiosa para finalmente descansar minha mente, finalmente não ter dor."

Os convidados do apartamento de Vervoort em Diest, uma cidade tranquila a 45 minutos de carro a leste de Bruxelas, estavam cercados por lembretes de suas realizações: quatro medalhas dos Jogos Paralímpicos; garrafas de champanhe de celebrações anteriores; troféus ao longo de um parapeito da janela. Na parede, havia três fotos emolduradas dela presa a uma cadeira de rodas de corrida.

Na primeira, seu rosto está rosnado em esforço. Na segunda, seus bíceps pareciam inchados enquanto ela socava o ar com alegria. Na terceira, ela sorria amplamente com uma medalha de ouro na mão. O tríptico mostra o momento final da final feminina de 100 metros nas Paralimpíadas de 2012, em Londres, onde ela superou a então atual campeã, Michelle Stilwell, para conquistar a medalha de ouro. Vervoort cativou os fãs com seu poder na pista e os encantou com sua alegria não adulterada depois da linha de chegada. Sua personalidade colorida também ajudou - assim como a presença de seu cão de serviço, Zenn.

A dor

O que havia começado para Vervoort como uma infância feliz - pais amorosos, irmã mais nova, longos dias praticando esportes - havia se tornado complicado na adolescência, quando a dor apareceu. Surgiu inicialmente como um formigamento nos pés, que, ao longo dos anos, se transformou em dor ardente em suas pernas, minando suas forças. Ela passou a adolescência de muletas. Aos 20 anos, ela estava em uma cadeira de rodas.

Os médicos deram etiquetas à sua condição - distrofia simpática reflexa, tetraplegia progressiva - e notaram uma deformidade entre a quinta e a sexta vértebras cervicais. Mas eles nunca conseguiram entender completamente por que a dor começou, por que sua visão estava falhando ou por que ela estava tendo convulsões.

Como seus sonhos de tornar-se professora vieram abaixo, Vervoort, aos 20 anos, tinha conseguido encontrar significado nos esportes: basquete em cadeira de rodas, mergulho, triatlo. Mas a dor e o medo constantes a fizeram mergulhar em uma profunda depressão. Aos 29 anos, ela determinou que sua doença era um fardo muito pesado. E começou a acumular comprimidos em casa.

Um psiquiatra sugeriu que ela falasse com o médico Wim Distelmans, o principal defensor da eutanásia na Bélgica. O direito de terminar a vida com a assistência de um médico é legal desde 2002, disponível para pacientes que exibem uma condição médica "sem esperança" com sofrimento "insuportável". A Bélgica, um país de 11 milhões de habitantes, teve 2.357 pacientes submetidos à eutanásia em 2018.

Até então, disse Vervoort, a perspectiva de eutanásia nunca lhe havia passado pela cabeça. Nos seus melhores dias, ela abraçava a vida com o entusiasmo de uma criança.  As pessoas eram atraídas por ela, por suas piadas, por seu riso fácil. Ela era a líder travessa de uma grande e livre associação de amigos que ela batizou de Dafalgan Club, em homenagem a uma marca de analgésico dissolúvel. Mas o medicamento com gás preferido, disseram, era o champanhe.

Distelmans concedeu a ela a aprovação preliminar para encerrar sua vida. Ele acrescentou, porém, que ela não parecia pronta. E ela concordou. "Eu só queria ter o papel nas mãos porque, quando chegar a hora, quando for demais para mim, quando alguém tiver que cuidar de mim o tempo inteiro e eu tiver muita dor", disse ela. "Eu não quero viver assim."

Tomando o controle

Segundo Vervoort, os documentos permitiram que ela recuperasse algum controle. Ela começou a se aproximar do esporte com um nível diferente de foco. A dor ainda estava lá, mas ela se imaginou usando-a como combustível. Seus dias não eram mais consumidos com pensamentos sombrios de como sua vida terminaria.

Ela ficou conhecida como a “Besta de Diest”. Juntamente com o ouro em Londres, ela ganhou uma prata na prova de 200 metros. Depois disso, foram três medalhas de ouro nos campeonatos mundiais de 2015, em Doha, Catar e, em seguida, prata e bronze nas Paralimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. Ela foi nomeada como Grande Oficial da Ordem da Coroa pelo rei Philippe, uma das maiores honras da Bélgica.

Durante as Paralimpíadas do Rio, sua história de vida foi distorcida. Um jornal da Bélgica informou que ela estava considerando a eutanásia. A reportagem foi multiplicada por outros meios de comunicação, que simplificaram e trataram com sensacionalismo sua decisão.  Aqueles que a observavam no Brasil estavam convencidos de que estavam observando os últimos dias de sua vida. "Vou buscar o ouro e depois me matar", diz esperança na Paralímpida", estampava uma manchete de um tabloide britânico, algo que Vervoort nunca disse.

Ela decidiu corrigir as coisas em uma entrevista coletiva. Não, ela disse, ela não estava planejando se matar imediatamente após a competição. Mas, acrescentou, era verdade que ela o faria no futuro, e esse conhecimento estava ajudando a impulsioná-la a combater sua dor e depressão. Mais países deveriam permitir o suicídio assistido por médico, disse ela.

Era uma visão impressionante: uma atleta reconhecida mundialmente, carismática, atuando como defensora da eutanásia. Entrei em contato com Vervoort pela primeira vez no outono de 2016, alguns meses depois que ela voltou do Rio. Ela estava ansiosa para compartilhar sua história. Nos três anos seguintes, ela permitiu que Lynsey e eu documentássemos o capítulo final de sua vida.

Nós a visitamos em sua casa e no hospital, a seguimos em passeios pela cidade e em viagens ao exterior. Ela queria que as pessoas vissem a imagem completa de sua vida, a dor, a tristeza e o trabalho escondidos por trás das imagens inspiradoras e palestras motivacionais, a profunda solidão por trás das piadas e risadas.

Enquanto acompanhava Vervoort ao Japão na primavera de 2017, observei-a explodir de raiva em uma tarde depois de ser forçada a engatinhar pelo chão de um ônibus lotado e não equipado para cadeiras de rodas. Naquela noite, ela deixou um jantar de grupo mais cedo para poder embarcar no ônibus antes de qualquer outra pessoa.

Um ano depois, sentei-me no apartamento dela. Vervoort havia recebido um desfile de visitantes durante a tarde e agora estava tentando se acalmar. Conversamos sobre seus relacionamentos passados: como ela começou a namorar mulheres aos 30 anos, como esses relacionamentos se desfizeram e sua crença de que talvez ela estivesse mais feliz sem uma companheira. "Estou sozinha", disse ela, "mas eu gosto".

Declínio

Se as Paralimpíadas do Rio fossem um ponto de partida para sua fama, as consequências, a aposentadoria oficial, simbolizariam uma virada em direção a escuridão. A dor se intensificou. Ela viajava há muito tempo com uma caixa para comprimidos verde que mais parecia um chocalho, mas em meados de 2017 estava abertamente viciada em morfina. 

Seus dias se tornaram um borrão de internações, tratamentos de dor e sonecas induzidas por drogas. Os que estavam mais próximos dela passaram a escutar suas conversas preenchidas por lacunas e esquecimentos, mesmo assim, sentaram-se ao seu lado quando pacientemente ela cochilou entre as palavras.

Seus pais choraram ao vê-la sofrer. Mas eles também viviam com medo de uma ligação que avisasse que ela havia feito planos definitivos para se submeter ao procedimento. A posição deles sobre a eutanásia tornou-se mais complicada à medida que a filha se aproximava de concretizá-la.

"Nós não apoiamos", disse seu pai Jos Vervoort, "mas nós entendemos". Eles estavam entre os que tinham esperança de que ela mudasse de ideia. Alguns dias, ela era seu antigo eu radiante. Ela tentou criar novos hobbies. Passou um tempo com os amigos, enchendo os espaços ao seu redor com risos. 

Mas cada vez mais as demandas da vida cotidiana provocavam nela um forte cansaço. "Eu realmente tento aproveitar as pequenas coisas", disse ela. "Mas as pequenas coisas estão ficando tão pequenas." Escolher um dia para morrer mostrou-se difícil. Além das questões existenciais, houve conflitos como aniversários que complicaram a programação. Ela escreveu dezenas de cartas de despedida e planejou seu funeral.

Vervoort convocou sua festa de despedida em cima da hora para um sábado de outubro. Ela tinha programado sua morte para a terça-feira seguinte. Com dezenas de pessoas em sua casa, Vervoort mal se moveu. Seu cabelo - loiro curto, espetado e descolorido no auge de sua carreira atlética - estava emaranhado na cabeça em seu natural castanho escuro. Um a um, seus convidados se agacharam para encontrar seus olhos e afagaram sua cabeça, sussurram-lhe coisas em seu ouvido. Depois da festa, ela pediu para ser devolvida ao hospital, pois as ondas de emoção haviam se tornado pesadas demais.  

Três dias depois, seus pais a levaram para casa para morrer. De volta ao apartamento dela, outro pequeno grupo de pessoas se reuniu, mas Vervoort parecia apenas parcialmente consciente da presença deles. Ela segurava o sobrinho, Zappa, o primeiro filho da irmã, que tinha menos de um mês. Ela havia programado sua morte para depois do nascimento dele, para poder encontrá-lo. Então ela adormeceu.

Quando o médico, Distelmans, chegou duas horas depois, a maioria dos convidados havia ido embora. Vervoort passou um momento final com seus pais, sua madrinha e duas de suas melhores amigas. “Tem certeza de que deseja continuar?", ela foi questionada. "Sim, eu quero continuar", disse ela. A hora da morte foi registrada às 20h15.

Na manhã seguinte, Jos Vervoort se aventurou na cidade. Estava frio e ensolarado. Ele se deteve em uma banca de jornal. O rosto de sua filha brilhava nas primeiras páginas de meia dúzia de jornais belgas, seu nome nas manchetes pela última vez. "Quando estiver pronta, quando a dor for forte demais, - quando eu decidir que já é suficiente - eu tenho meus papéis em minhas mãos e posso dizer: 'Agora já basta". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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