Shauna Farnell/The New York Times
Shauna Farnell/The New York Times

Para usar máscaras, as barbas – e a tradição – têm de ir embora

Membros de patrulhas de esqui em todo o país são conhecidos por suas barbas, mas muitos se barbearam para usar máscaras durante a pandemia, causando uma angústia bem-humorada

Shauna Farnell, The New York Times – Life/Style

26 de dezembro de 2020 | 05h00

Tony Cammarata estava com receio de dar a notícia aos seus funcionários. Eles não estavam perdendo o emprego e nem os benefícios. Mas as suas barbas. Cammarata, que dirige uma patrulha de esqui numa área das Montanhas Rochosas perto de Denver, teve de adotar medidas drásticas para que sua patrulha usasse adequadamente as máscaras N95 de proteção contra o coronavírus.

Mas sabia que seria uma medida difícil de ser aceita pelos homens do seu grupo (47 dos 56 membros da patrulha). Para a grande maioria deles, a barba e o patrulhamento andam juntos como a neve e as montanhas. “Você pode dizer às pessoas que não terão aumento de salário por mérito, que está cortando privilégios. Isto não é tão ruim quanto dizer que têm de tirar a barba. Ela é algo enraizado na nossa cultura”, disse Cammarata, diretor de operações da Arapahoe Basin Ski Area.

E, nesta temporada, o uso de máscaras é exigido. E elas se ajustam muito melhor sem a barba. “Você precisa ter uma boa vedação”, disse Kendrick Adnan, conselheiro médico dos resorts de esqui de Keystone, Cooper Mountain e Arapahoe Basin. “A barba interfere e coloca o patrulheiro em risco”.

“Conhecemos muitos patrulheiros cuja barba é algo muito importante. Este ano vai ser penoso para eles”, acrescentou. Mas é mais do que isto. “Foi chocante”, disse Hunter Mortensen, patrulheiro em Breckenridge, Colorado, que recentemente tirou sua barba pela primeira vez em 10 anos. “A primeira vez que o vento bateu no rosto foi como saltar num lago gelado”.

Seu colega Ryan Dineen, que não usa uma navalha desde 2005, e cuja mulher nunca o viu sem barba, concordou que saber sobre o novo protocolo foi chocante. “A reação automática foi ‘como ousam? Eu sou assim’”, disse ele, preparando-se para sucumbir ao barbeador logo mais.

“Terei de falar com meu pai no FaceTime para ele me ensinar como usar uma navalha”. Os resorts de esqui vêm tentando se recuperar de uma estação de primavera interrompida pelos lockdowns. Os esquiadores terão de adotar uma série de precauções, como uso de máscaras, distanciamento social nos elevadores e reserva de horários e alguns locais para comer estão fechados.

No geral, os membros das patrulhas consideram o corte da barba um pequeno inconveniente pelo bem da segurança e para manter as pistas de esqui ativas. Mas toda essa história de cortar a barba tem algumas peculiaridades. Em áreas como Arapahoe Basin, 80% dos patrulheiros tiveram de mudar drasticamente (ou introduzir) novos regimes para sua barba. Um gráfico emitido pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) ressaltando os vários estilos de barba permitidos com uma máscara com boa vedação se tornou um recurso auxiliar.

“Este é um dos mais divertidos documentos expedidos pelo governo que já vi”, disse Cammarata. “É um pictograma com mais de 40 estilos de barba. E todos têm nome. Sempre tivemos uma longa tradição de contratar esses homens que parecem vikings para fazer o patrulhamento. Quando mostrei a eles o quadro, todos riram histericamente. Estamos tentando encarar a situação de modo divertido. “As pessoas começaram a aparecer com barbas ridículas”.

Os patrulheiros dizem que a barba serve como proteção contra os elementos da natureza – mantém o calor no caso dos ventos fortes, das nevascas, das temperaturas geladas e protegem contra o sol rigoroso nas altas altitudes. “É como um protetor de pescoço da mãe natureza”, disse Drew Kneeland, diretor de patrulha em Jackson Hole, Wyoming.

“E também é engraçado como as pessoas ficam diferentes, se você tem uma barba ou não. Por alguma razão não se questiona alguém com barba como no caso de uma pessoa sem barba. A barba faz parte da sua identidade e como você interage com o mundo à sua volta”.

Para Rick Hamlin, historiador que cobriu o Smuggler’s Notch em Vermont durante 48 anos e tem um espesso bigode desde 1979, a perspectiva de tirá-lo é algo a que ele está disposto para continuar fazendo o que ama. “Fico triste, mas se tiver de escolher entre patrulhar e ficar com o bigode, prefiro meu trabalho.

O que posso dizer é que um patrulheiro, em qualquer lugar, está acostumado a se adaptar e fazer o que for necessário para realizar o seu trabalho”. Mark Hardy, que trabalha em Alpental, região de Washington, disse que esperava reclamações dos seus funcionários, mas que não seria diferente de outras medidas de segurança que foram implantadas com o tempo. “Há alguns anos tivemos de passar a usar capacetes. Na época, achei que haveria uma rebelião”.

Mike O’Hara, supervisor de patrulha em Killington, Vermont, recentemente tirou a barba que tinha há quase 30 anos. “Temos alguns patrulheiros cujas barbas são mais antigas do que vários dos seus colegas. Depois do choque inicial quando receberam a notícia sobre o novo protocolo, muitos entenderam que se trata de uma medida para assegurar a nossa segurança, das nossas famílias, da nossa companhia e da comunidade como um todo”.

“Não sou um médico na linha de frente de um pronto-socorro que tem de usar uma N95 o dia todo”, disse Dineen. “Não vivo na cidade. Tem muita coisa relativa à covid que não nos impactou aqui. Mas por mais que amemos nossa barba, amamos mais o que fazemos. A barba volta. Talvez quando eu a tirar vou pensar, puxa, pareço um adulto pela primeira vez na vida”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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