Noriko Hayashi para The New York Times
Noriko Hayashi para The New York Times

Como as cidadezinhas, mascotes extravagantes perdem espaço no Japão

Mania de mascotes varreu o Japão como forma de promover as comunidades menores e trazer receita em meio ao declínio populacional

Ben Dooley, The New York Times

28 de fevereiro de 2020 | 06h00

NAGANO, JAPÃO — O prefeito de Misato, vilarejo de 4,7 mil pessoas no montanhoso oeste do Japão, apresentou um ultimato no início do ano passado: o mascote local, Misabo, teria que provar seu valor se quisesse continuar existindo. Misabo, um javali mal-humorado com uma montanha na cabeça, tem a difícil tarefa de promover o vilarejo enquanto destino para o turismo.

Veio ao mundo em 2013, quando uma onda de mascotes varreu o Japão e centenas de cidades de população cada vez menor e mais velha se voltaram para personagens coloridos e frequentemente excêntricos na esperança de atrair visitantes e investimentos. Agora, conforme a base de arrecadação diminui acompanhando a população, comunidades como Misato questionam se a extravagância vale o investimento de recursos públicos.

Na ausência de evidências indicando que os personagens trazem benefícios econômicos, a resposta de muitas cidades foi aposentá-los discretamente. “Foi uma explosão sem lastro na realidade", disse Akihiko Inuyama, autor de um livro a respeito da indústria dos mascotes. É impossível saber quantos foram os mascotes liquidados.

Eram vistos em suas cidades tanto como ilustrações quanto como humanos fantasiados. Mas os números da indústria indicam o tamanho do estrago. A Sun.Mold, fabricante de roupas de mascotes, disse que as encomendas caíram para a metade do patamar de cinco ou seis anos atrás, quando a empresa produzia de 20 a 40 roupas por mês para esses personagens, conhecidos como yuru-chara.

Mais evidências foram vistas em novembro durante o Yuru-chara Grand Prix, premiação anual para escolher o mascote mais fofo do Japão. Para alguns, o Grand Prix foi um trampolim para a riqueza. A província de Kumamoto, de população pequena, faturou inesperados US$ 1,2 bilhão nos dois anos depois que seu mascote, Kumamon, venceu o primeiro Grand Prix, em 2011. O Kumamon movimentou a venda de produtos licenciados e atraiu turistas.

Inspirados pelo sucesso do Kumamon, os governos locais correram para faturar com a novidade. Conforme os personagens se tornaram presença fácil nas emissoras de TV do país, a mídia “fez as pessoas acreditarem que os yuru-chara davam dinheiro", disse Inuyama, e os governos locais “embarcaram na mania". Mas o número de personagens no Grand Prix de novembro, realizado em Nagano, foi dois terços do auge de aproximadamente 1,7 mil, em 2015. E as autoridades anunciaram que a premiação de 2020 será a última.

Durante algum tempo, com os mascotes inundando o mercado, o desenvolvimento desses personagens parecia seguir uma fórmula japonesa para o sucesso: escolha um animal local como ponto de partida, combine-o a algum prato típico ou famoso, e pense em um trocadilho péssimo para o nome. O resultado: lucro instantâneo! Os resultados às vezes apelavam ao surrealismo. Narita, que abriga o maior aeroporto internacional de Tóquio, inventou uma enguia de pelúcia equipada com jatos.

Mas a novidade perdeu a graça. Havia imitações por toda parte: depois que Sanomaru — um cachorro com uma tigela de macarrão na cabeça representando Sano — venceu o Grand Prix de 2013, surgiram outros animais com macarrão na cabeça. No último dia do Grand Prix, com Misabo correndo o risco de ficar desempregado, o futuro parecia desanimador. Ele ficou em 24º lugar. Mas não é preciso temer pelo destino de Misabo, ao menos por enquanto. Parece que o resultado satisfez o prefeito. Ele concordou em manter Misabo por mais um ano./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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