Maddie McGarvey para The New York Times
Maddie McGarvey para The New York Times

Levantamento encontra elo entre misoginia e assassinatos em massa

Alguns abusadores conseguem acesso às armas sem dificuldade

Julie Bosman, Kate Taylor e Tim Arango, The New York Times

18 de agosto de 2019 | 06h00

O homem que matou nove pessoas no início de agosto em Dayton, Ohio, rosnava para as colegas de classe e as ameaçava de violência. O homem que massacrou 49 pessoas em uma casa noturna de Orlando, em 2016, espancou a mulher durante a gestação, de acordo com o relato dela às autoridades. O homem que matou 26 pessoas em uma igreja de Sutherland Springs, Texas, em 2017, tinha sido condenado por violência doméstica.

As motivações dos homens que cometem assassinatos em massa são frequentemente confusas, complexas ou desconhecidas. Mas um elo em comum de muitos desses episódios é um histórico de ódio às mulheres, violência contra cônjuges, namoradas e parentes, ou o compartilhamento de opiniões misóginas na internet, apontam os pesquisadores.

Enquanto os Estados Unidos lidam com os tiroteios em massa do mês e novamente debatem a possibilidade de restrições à venda de armas, alguns defensores dessas medidas dizem que o papel da misoginia nesses ataques deve ser levado em consideração nas tentativas de evitá-los.

O fato de os tiroteios em massa serem cometidos quase que exclusivamente por homens “não consta no debate nacional", disse o governador Gavin Newsom, da Califórnia. “Por que são sempre homens que cometem essas barbaridades?”

Ainda que uma das possíveis motivações para o atirador que assassinou 22 pessoas em El Paso, Texas, tenha vindo à tona - ele publicou um manifesto racista na internet dizendo que o ataque era uma resposta a uma “invasão hispânica do Texas” -, as autoridades tentam descobrir o que levou Connor Betts, 24 anos, a assassinar nove pessoas em Ohio, incluindo a própria irmã.

Os investigadores analisam seu histórico de antagonismo e ameaças a mulheres, e a possibilidade de isso ter desempenhado algum papel nos ataques.

Desde a matança, pessoas que conheciam Betts descreveram um homem estranho; outros citaram seus episódios de fúria e a obsessão com armas.

Esses episódios de agressividade eram frequentemente direcionados a conhecidas. No ensino médio, Betts fez uma lista de ameaças de violência física ou sexual contra seus alvos, a maioria garotas, de acordo com os ex-colegas de sala. As ameaças foram assustadoras a ponto de algumas garotas mudarem de comportamento: evitaram chamar a atenção dele, mas tampouco antagonizá-lo.

“Lembro que todos mantinham certa distância, sabendo que talvez fosse melhor não se relacionar com ele", disse Shelby Emmert, 24 anos, ex-colega de sala. “Minha mãe queria que eu o evitasse. Ela me dizia para ficar longe de Connor Betts.”

Shannon Watts, fundadora de grupo que pede ação em relação aos ataques a armas, o Moms Demand Action for Gun Sense in America, citou uma estatística que desmente a ideia segundo a qual os tiroteios em massa são geralmente aleatórios: em mais da metade de todos os tiroteios em massa ocorridos nos EUA entre 2009 e 2017, uma cônjuge ou parente do assassino estava entre as vítimas (realizado pelo grupo de defesa do controle do acesso às armas Everytown for Gun Safety, o estudo definiu como tiroteio em massa os episódios em que mais de quatro pessoas foram mortas, excluindo o atirador).

“A maioria dos tiroteios em massa tem suas raízes na violência doméstica", disse Shannon. “A maioria dos atiradores tem um histórico de violência doméstica ou familiar. É um sinal de alerta importante.”

A lei federal americana proíbe o acesso de pessoas condenadas por determinados tipos de crimes de violência doméstica às armas, e o mesmo vale para condenados por abuso sujeitos a medidas de restrição. Mas há muitas lacunas na legislação, e não há proteção para as mulheres envolvidas em relacionamentos sem estarem casadas, terem filhos com o abusador ou morarem com ele. Além disso, a lei federal não apresenta nenhum mecanismo para o confisco de armas na posse de abusadores.

Allison Anderman, associada sênior do Giffords Law Center to Prevent Gun Violence, disse que medidas para facilitar o confisco de armas em posse de abusadores “são um passo fundamental para salvar vidas de sobreviventes de abusos". E ela disse que, diante do elo entre a violência doméstica e os tiroteios em massa, essas leis podem também ajudar a evitar massacres.

As pragas da violência doméstica e dos tiroteios em massa nos EUA estão intimamente ligadas. O massacre da torre da Universidade do Texas, em 1966, geralmente considerado o marco inicial da era moderna de tiroteios em massa nos EUA, teve início na véspera, quando o atirador matou a mãe e a mulher.

Devin P. Kelley, que atirou contra os fiéis em uma missa dominical em Sutherland Springs, no dia 5 de novembro de 2017, tinha sido condenado por violência doméstica pela força aérea, por espancar a primeira mulher e partir o crânio do enteado, um bebê. Ao atacar a igreja, Kelley parecia ter como alvo a família da segunda mulher.

Um ódio declarado às mulheres é frequente entre os suspeitos no longo histórico de tiroteios em massa nos EUA.

Em 1991, em Killeen, no Texas, um homem entrou no Luby’s Cafeteria e matou a tiros 22 pessoas. Recentemente, o atirador tinha escrito uma carta aos vizinhos chamando as mulheres da região de “víboras", e testemunhas oculares disseram que, durante o tiroteio, ele poupou homens para atirar nas mulheres.

Nos anos mais recentes, alguns desses homens se identificaram como incels, abreviação em inglês de celibatário involuntário, um subgrupo de homens que manifesta sua raiva das mulheres por não lhes oferecerem sexo, e fantasia frequentemente com a violência, celebrando os atiradores dos massacres em grupos de debate na internet.

Nesses sites, reverência especial é demonstrada por Elliot O. Rodger, que matou seis pessoas em 2014 em Isla Vista, Califórnia, um dia depois de publicar um vídeo intitulado “Elliot Rodger’s Retribution” [A vingança de Elliot Rodger]. Nas imagens, ele se descreve como alguém torturado pela privação sexual e promete castigar as mulheres por rejeitá-lo. Vários atiradores disseram ter se inspirado nele.

Alek Minassian, que jogou uma van sobre uma calçada em Toronto, em 2018, matando 10 pessoas, tinha publicado uma mensagem no Facebook minutos antes do ataque, elogiando Rodger. “A rebelião incel já começou!” escreveu ele. “Saúdem o supremo Elliot Rodger!”

E Scott P. Beierle, que matou duas mulheres no ano passado em um estúdio de ioga em Tallahassee, Flórida, também tinha se mostrado simpatia a Rodger em vídeos na internet nos quais atacava as mulheres e as minorias, relatando histórias de rejeição amorosa. Beierle tinha duas acusações de agressão por mulheres que dizem ter sido assediadas fisicamente por ele.

Os especialistas dizem que os mesmos padrões que levam à radicalização de supremacistas brancos e outros terroristas podem se aplicar aos misóginos que recorrem à violência em massa: indivíduos solitários e perturbados que encontram na internet uma comunidade de pessoas que pensam como eles, bem como uma válvula de escape para sua fúria.

“São furiosos e suicidas, tiveram infâncias traumáticas e vidas difíceis, e chegam a um ponto em que precisam de algo ou alguém em quem depositar a culpa", disse Jillian Peterson, fundadora da organização de pesquisa Violence Project, que estuda os tiroteios em massa. “Para algumas pessoas, a culpa é das mulheres, e estamos observando uma alta nesse tipo de pensamento.”

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