Tamir Kalifa / The New York Times
Tamir Kalifa / The New York Times

Recuperação após massacre: custos físicos, emocionais e financeiros

Mais de 20 pessoas foram mortas e dezenas ficaram feridas depois do ataque no Walmart de El Paseo, no Texas, no último 3 de agosto; veja relato de sobrevivente

Manny Fernandez, The New York Times

07 de setembro de 2019 | 06h00

EL PASO, TEXAS - Ao lado dele, elas acariciavam os seus cabelos, seguravam suas mãos, massageavam os seus pés e o faziam rir. Familiares de Mario De Alba mantêm esta vigília ao redor do seu leito de hospital  há mais de um mês. Mario, de 48 anos, foi baleado nas costas no ataque ocorrido no Walmart de El Paso, no dia 3 de agosto. Enquanto o atirador espiava pelos corredores, De Alba protegeu com seu corpo a esposa e a filha de 9 anos em um banco na frente da loja. Outros se arrastaram para o mesmo canto. Um homem murmurava uma oração. O atirador os viu e atirou.

De Alba puxou a esposa e a filha para perto de si para protegê-las, mas uma bala atingiu o polegar e o peito da esposa. Outra, a perna da menina. Várias pessoas ao seu redor, como o homem que rezava, foram mortas. A esposa e a filha de De Alba, já receberam alta do hospital. Mas ele continua internado no Centro Médico da Universidade de El Paso, onde foi submetido a algumas operações - três até o momento - e luta para recuperar as forças.

Naquela manhã de agosto, a vida de De Alba - como as dos outros sobreviventes e parentes das 22 pessoas que foram mortas - parou. A maioria das dezenas de feridos foi tratada nos hospitais e liberada, mas alguns continuaram internados. Para a família de De Alba, a lenta recuperação foi marcada por algumas mudanças.

Ele mora na Cidade de Chihuahua, capital do estado mexicano de Chihuahua, com a esposa e a filha. Mas, desde 3 de agosto, a família tem vivido de fato em El Paso: De Alba no seu quarto de hospital, a esposa e a filha em um hotel próximo, onde sua mãe e sua irmã, vindas do México, também se encontram. Erika, a filha, deveria estar na escola. Oliva, a esposa, é a diretora da escola de Erika, mas não quis voltar. Na Cidade de Chihuahua, De Alba tem uma loja de conserto e venda de lavadoras e secadoras, que agora está fechada. “Eu não posso andar”, disse De Alba. “Não posso levar minha filha para a escola. Não posso trabalhar, Tenho contas para pagar. Mas agora o meu mundo parou”.

As autoridades americanas deram assistência à família de De Alba - cidadãos mexicanos, entre os milhares que cruzam legalmente a fronteira diariamente para trabalhar, fazer comprar ou estudar em El Paso - e concederam-lhes a permissão para permanecer durante a recuperação. Mario tem pela frente várias semanas ainda de hospital, e teme que sua família fique sem dinheiro e precise regressar ao México. Está preocupado porque a filha não pode frequentar a escola e a esposa não pode trabalhar. “Se elas não ficarem aqui, quem vai tomar conta de mim?”, questionou. Sua irmã Cristina curvou-se e tocou de leve sua cabeça. “Não, você não vai ficar sozinho”, sussurrou.

Na manhã de 29 de agosto, De Alba preparou-se para mais uma operação. Sua prima, Lucero De Alba, tinha ido visitá-lo; ela mora em Ciudad Juárez, a cidade irmã de El Paso no México. Teve de esperar três horas para cruzar a fronteira. Com ela ali, além de sua irmã e sua mãe, María Montes de 79 anos, a atmosfera mudou.

Risadas enchiam o quarto estéril. Sorrindo, De Alba disse que se lembrou de uma coisa. Quando o atirador abriu fogo, ele tinha acabado de desembolsar muito dinheiro por um carrinho repleto de produtos de mercearia, roupas e material escolar. Enfiara o comprovante no bolso da camisa. Talvez a Walmart pudesse devolver o seu dinheiro, brincou. As autoridades informaram que o suspeito pelo massacre, Patrick Crusius, de 21 anos, postou um manifesto contra os latinos antes do ataque.

De Alba diz que não entende o sujeito,  mas que não o odeia. “Ele é uma pessoa que não ama nem a si mesmo”, afirmou. “Uma vida sem um proposito”. Mais tarde, sorriu. “A única pessoa que odeio na minha vida são os clientes que não pagam quando eu conserto sua lavadora ou secadora”, brincou. Lucero riu. “Ele está sempre bem humorado”, observou. “O bom humor é de família”.

Massacre

O massacre em El Paso foi um dos três recentes ocorridos nos Estados Unidos: no dia 4 de agosto, nove pessoas foram mortas e 27 feridas em Dayton, Ohio; sete pessoas foram mortas e 23 feridas no dia 31 de agosto em Odessa, Texas.

No dia 2 de agosto, De Alba dirigiu quatro horas da Cidade de Chihuahua para El Paso para pegar esposa e filha, que haviam chegado ao aeroporto da cidade de uma viagem a Denver. Planejavam fazer compras no Walmart na manhã seguinte, antes de voltar para casa de carro.

Não eram ainda 11 horas quando De Alba terminou de pagar suas compras. O atirador, que carregava um rifle estilo AK-47, veio vindo. De Alba empurrou Oliva e Erika para dentro do banco. Outros o seguiram enquanto os tiros ecoavam pela loja. Logo o sangue começou a escorrer. Ele lembra de ter visto um nariz e uma orelha no chão.

Momentos mais tarde, De Alba e a família correram para fora. Ele tentou levá-las para um hospital. Entraram no carro, mas ele não teve mais forças para dar a partida, contou. As ambulâncias chegavam e ele pediu a um paramédico que levasse a esposa e a filha, mas o deixasse ali para morrer. O paramédico se recusou.

De Alba sofreu graves ferimentos internos, e a sua recuperação tem sido lenta. Não está paralisado, mas a família se pergunta  qual será a sua mobilidade quando receber alta. Sua filha e esposa ficaram no seu quarto antes da última operação. Quatro semanas depois do massacre, Erika caminhava mancando ligeiramente e Oliva ainda  tinha o pulso e o punho engessados. De Alba disse que pensou que elas haviam morrido, como o homem que rezara ao lado dele.

Erika, ele contou, é a sua inspiração para se recuperar. “Eu me concentro em expressar a minha gratidão”, disse. “Minha filha me visita quase todos os dias. O que mais posso querer da vida?”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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