Yulia Grigoryants para The New York Times
Yulia Grigoryants para The New York Times

Matemático acredita que a ciência pode solucionar problemas políticos

'Minha função é trazer maior racionalidade, mas sem jamais esquecer o lado irracional', diz Cédric Villani, que também é membro do Parlamento francês

Siobhan Roberts, The New York Times

11 de fevereiro de 2020 | 06h00

PARIS - Uma noite, em dezembro, em pleno tumulto cívico por causa das propostas de reforma das aposentadorias, Cédric Villani, premiado matemático e deputado na Assembleia Nacional da França, lotou o Teatro do Trianon onde defendeu a sua candidatura a prefeito nas próximas eleições, em março.

“Será que um cientista é algo incongruente em política?” perguntou. “Não acredito. A ciência pode oferecer soluções aos maiores desafios do nosso tempo”. Afinal, o primeiro prefeito eleito em Paris em 1789 foi Jean-Sylvain Bailly, astrônomo matemático e revolucionário.

Cientificamente, o que não falta a Villani são credenciais. Depois de ganhar a Medalha Fields, um dos maiores reconhecimentos na sua especialidade, em 2010, ele se tornou um guru da matemática. Como membro do Parlamento, chefiou uma força-tarefa sobre a inteligência artificial.

Na sua opinião, um dos maiores desafios da cidade de Paris é a interseção da democracia e da tecnologia da informação. Agora, as suas principais prioridades incluem um plano para a reformulação das fronteiras municipais, a crise ambiental e o problema do trânsito da capital. “Toda a minha vida, enfrentei problemas complexos antes de ingressar na política”, ele disse meses atrás, quando confirmou sua intenção de seguir em frente sozinho como candidato dissidente.

Em julho, foi preterido como candidato oficial do partido En Marche, do presidente Emmanuel Macron, e posteriormente expulso. Parou de trabalhar no campo da matemática em 2017, quando se tornou representante do departamento de Essonne, nas proximidades de Paris.

A sua vocação política não apanhou inteiramente de surpresa os seus colegas matemáticos. Ele gosta de estar em evidência, e é conhecido como a Lady Gaga da matemática. Alguns dos atributos que o tornaram um matemático de sucesso - em primeiro lugar, a sua energia inesgotável - o ajudaram a adaptar-se ao meio político. Mas outros aspectos do seu passado poderiam revelar-se negativos.

“Ele vem de um mundo regulado pela verdade, ou que tenta aproximar-se da verdade”, disse Clément Mouthot da Universidade de Cambridge,  que fez doutorado sob a orientação de Villani e é um dos seus principais colaboradores. “A verdade é mais polêmica nas ciências sociais, mas na matemática não é polêmica. Ele ingressou em outro mundo regulado por outros princípios. Provavelmente, às vezes, ele acerta, às vezes erra”.

Mas com a política vêm as triangulações ideológicas, as alianças e as contra-alianças. Em 2014, ele apoiou a prefeita titular, socialista, Anne Hidalgo. Atualmente, Hidalgo está na frente nas pesquisas de opinião. Villani está convencido de que levar a ciência para a política é importante, principalmente agora. “Minha função é trazer maior racionalidade, mas sem jamais esquecer o lado irracional”, afirmou.

“Houve muitas ocasiões na história da França em que ciência e política se mesclaram. E foram sempre tempos de grande redistribuição social. Uma destas ocasiões foi a Revolução Francesa”, acrescentou. Raphaël Rouquier, um colega de estudos do Villani, atualmente na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, disse que “ele não se sente feliz quando as coisas são fáceis. A política é um campo em que o Villani terá de solucionar os problemas mais difíceis, por isso, estou absolutamente convencido de que  ele permanecerá na política por muito tempo”.

Ultimamente, ele especulou, quer ser presidente da República. Villani desmentiu a ideia. “Estas eleições em Paris são tão complicadas que estão tomando todo o meu coração e cérebro”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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