Jim Huylebroek para The New York Times
Jim Huylebroek para The New York Times

Maternidade no Afeganistão é referência no cuidado das gestantes

Mulheres, pobres em sua maioria, atravessam zonas de guerra para dar à luz na Maternidade de Anabah, no norte do país

David Zucchino e Fatima Faizi, The New York Times

27 de setembro de 2019 | 06h00

ANABAH, AFEGANISTÃO - Ele tinha poucos minutos de vida; um bebê irritadiço e inquieto em um berço aquecido. Deu um gemido quando a enfermeira aplicou-lhe uma injeção de vitamina K na coxa. O menino de três quilos foi o 20º bebê nascido ao longo de 24 horas na Maternidade de Anabah, localizada em uma colina do Vale Panjshir, no norte do Afeganistão. A maternidade, administrada pela ONG italiana de caridade Emergency, fornece cuidado confiável e gratuito para milhares de mulheres afegãs. Mais de 7,5 mil bebês nasceram lá no ano passado - pelo menos 600 por mês.

As mulheres, pobres em sua maioria, atravessam zonas de guerra para dar à luz na maternidade da província de Panjshir, um reduto anti-Taleban. Muitas delas abandonaram clínicas públicas ou particulares, onde os pacientes frequentemente têm de pagar adiantado para garantir os medicamentos e a comida de que necessitam. Eman Youszai, 26 anos, que está grávida de seu primeiro filho, viajou três horas até a maternidade. Ela afirmou que deixou um hospital de Cabul, a capital, porque “ninguém cuida da gente lá, nem se você morrer”.

Gullalia, 20 anos, que tem somente um nome, afirmou que perdeu dois bebês nos últimos meses de gravidez. Agora no oitavo mês de gestação, ela afirmou que um tratamento recebido em um hospital de Cabul não fez cessar um sangramento após sua bolsa ter se rompido. Um médico sugeriu a maternidade em Anabah, onde o sangramento foi controlado.

“As médicas daqui levam a sério todos os pacientes”, afirmou Gullalia. “Elas se importam com as vidas dos bebês e das mães.” A equipe totalmente feminina de sete ginecologistas, 39 parteiras e 78 enfermeiras neonatais é um ponto central da identidade do hospital, em um país onde os homens ditam decisões relacionadas à saúde da mulher, incluindo se elas devem receber cuidados obstétricos. 

Vesna Nestorovic, a coordenadora médica do centro hospitalar, afirmou que as funcionárias frequentemente convencem os maridos a permitir que suas mulheres retornem para visitas de acompanhamento. “Gostamos de iniciar a conversa perguntando: ‘Como está nosso bebê?’”, disse ela.

Em razão de ser comum a resistência ao tratamento fornecido pela maternidade, as famílias das pacientes são impedidas de entrar no local. De acordo com muitas pacientes, em outros hospitais, as famílias exigem a realização de procedimentos como cesáreas ou prescrevem medicamentos. “Anotamos suas informações de contato e avisamos caso necessitemos de sua ajuda”, afirmou a ginecologista Rabila Wafa a respeito dos parentes.

Mas, mesmo após realizar 53 mil partos desde sua inauguração, em 2003, e expansão, em 2016, a maternidade não consegue atender às necessidades de uma população mergulhada na pobreza por quatro décadas de guerra. O complexo conta ainda com um centro cirúrgico e uma ala pediátrica com 18 pequenas clínicas.

Um terço dos afegãos carece de acesso a cuidados básicos de saúde, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). O Afeganistão é o país com o mais elevado índice de mortalidade infantil no mundo e registra um dos maiores índices de mortalidade materna.

Um quarto dos bebês nasce com baixo peso, e um quarto das crianças com menos de cinco anos está abaixo do peso mínimo considerado saudável. Quarenta por cento das mulheres em idade reprodutiva sofrem de anemia. A OMS estima que, este ano, 1,9 milhão de afegãos precisarão de assistência de emergência.

Mulheres grávidas chegavam aos portões de segurança do hospital ao longo de todo o dia, recentemente, transportadas em carros particulares, táxis e ambulâncias. Na ala neonatal, recém-nascidos balbuciavam nos braços de suas mães, que cobriam as cabeças com lenços de um vermelho vivo. Da sala de parto chega um anúncio: mais um bebê acaba de nascer. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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