Virei mãe aos 25 anos e não me arrependo por não ter esperado

Virei mãe aos 25 anos e não me arrependo por não ter esperado

Mais mulheres estão adiando a maternidade porque acham que é difícil ter filhos cedo. É mesmo. Mas também é ótimo

Elizabeth Bruenig/The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 23h00

Se alguém tivesse me perguntado, no dia da minha formatura na faculdade, se eu imaginava que, em cinco anos, ainda seria uma presença tímida e constante em toda e qualquer balada, eu teria dito que sim. Algumas coisas simplesmente não mudam. O que eu não tinha como prever na época é que, dali a cinco anos, eu estaria à margem da festa de aniversário de uma criança de 3 anos: uma mãe de 27 anos, desnorteada e com os olhos turvos entre um cordial bando de mães entre seus 30 e 40 anos, as quais tinham uma ideia muito melhor que a minha do que estavam fazendo ali.

Ninguém era nem remotamente rude com meu marido e comigo, embora nossas diferenças fossem bastante óbvias; no máximo, as pessoas pareciam um pouco surpresas ao encontrar um casal nos seus 20 anos numa situação como a nossa. Isso – e o olhar sonhador de quem é levado à distração pelo amor de seu filho – nós tínhamos em comum.

Quando meu marido e eu comparamos nossas impressões depois da festa, ele narrou uma dissimulada sequência de questionamentos de uma curiosa participante que ele achou ter por objetivo determinar como, dadas nossas idades, conseguíamos pagar a bela pré-escola que nossa filha frequentava com a filha deles. “Ela estava tentando descobrir se era algum auxílio ou uma bolsa de estudos”, disse ele, dando risada. Era a primeira opção.

As famílias que moram em Washington, D.C., onde nós vivíamos na época, têm direito à pré-escola gratuita; aquelas que moram nos subúrbios fora do distrito tinham de pagar as mensalidades. O fato de que nossa filha pudesse passar algumas horas por dia aprendendo e brincando com uma graninha do prefeito Muriel Bowser era a melhor parte de viver no apartamentinho mofado onde morávamos e com certeza facilitava muito a tarefa de sermos pais jovens numa cidade grande.

O que não quer dizer que foi fácil. Em regra, ter e criar filhos nunca é fácil. E isto é especialmente verdadeiro nos Estados Unidos, onde, em comparação com outros países desenvolvidos, os pais têm relativamente pouco apoio. E embora a recente queixa conservadora sobre a pressão por creches subsidiadas sugira que os Estados Unidos não se juntarão tão cedo às fileiras dos países nórdicos em termos de benefícios aos pais, a perda pode ser tanto deles quanto de qualquer um de nós – afinal, é a direita que mais se preocupa com o declínio das taxas de natalidade do país. (Os dados do censo de 2020, divulgados em abril, mostraram que, na última década, a população cresceu em seu ritmo mais lento desde 1930, caso você não tenha visto o pânico que se seguiu até agora).

Na medida em que a atual queda na quantidade de bebês está relacionada a adiamentos cada vez maiores na procriação entre as gerações mais jovens, talvez se pudesse suspeitar que os entusiastas da taxa de natalidade teriam um interesse especial em aliviar as dificuldades financeiras associadas a ter filhos, mas estaríamos um tanto enganados.

Quando alguns estadistas de direita da vanguarda apoioaram políticas que favoreceriam famílias em dificuldades, encontrou resistência de seu próprio lado. A maioria dos conservadores tende a argumentar que as preocupações financeiras expressas por potenciais pais hesitantes são menos evidentes do que seus hábitos culturais, como o individualismo. E é assim que a coisa funciona nas guerras culturais.

A defesa da paternidade jovem seria mais simples se não fosse por esse vai e vem em particular – millennials isso, boomers aquilo. A geração do milênio é acusada de imaturidade e egoísmo, de falta de coragem e comprometimento para criar filhos – os quais, suponho eu, atrapalhariam as torradas com abacate e as mimosas de toranja. Mas a realidade é menos desprezível e mais prosaica: os jovens hesitam em começar suas famílias por causa de preocupações legítimas com dinheiro e estabilidade, junto com uma variedade de preocupações culturais que, se seus pais baby boomers fossem honestos, admitiriam que derivam de seus próprios desígnios.

Existem boas razões para esperar para ter filhos e boas razões para não esperar; esta última é a ideia em que mais penso, mas raramente a menciono a amigos que estão em cima do muro, sabendo que geralmente eles são inundados de conselhos não solicitados de velhos conhecidos e parentes que parecem saber exatamente como consertar essa geração supostamente imatura e egoísta. Esse tipo de repreensão sobre amadurecimento obscurece a coisa mais verdadeira a respeito de ter filhos: não se trata de uma tarefa, mas sim de um prazer, não é o fim da liberdade como você a conhece, mas o início de um tipo de liberdade que você não consegue nem imaginar.

Mas antes de investigar as vidas secretas dos pais jovens, vale a pena estabelecer precisamente quem eles são e em que medida podemos chamá-los de jovens.

Nos Estados Unidos, as mulheres da geração millennial estão esperando mais do que qualquer outra geração na história para ter filhos, uma tendência que elevou a taxa de nascimentos entre os 30 e poucos anos até os 50 anos. Elas não começaram a tendência, mas a levaram a novos patamares. “Embora um pouco mais da metade (53%) das mulheres nos seus 40 anos em 1994 tenham se tornado mães aos 24 anos”, observou uma análise de dados de 2018, publicada pelo Pew Research Center, “essa proporção foi de 39% entre aquelas que estavam nesta faixa etária em 2014”. A tiazona de ontem é a jovem de hoje.

O ensino superior também se correlaciona com partos relativamente adiados. Uma pesquisa de 2012 revelou que, embora 62% das mulheres com diploma de ensino médio tivessem dado à luz aos 25 anos, apenas 18% das mulheres com mestrado ou superior haviam sido mães.

Na verdade, sólidos 20% das detentoras de títulos de mestrado comemoraram seus primeiros bebês aos 35 anos ou mais. Sem nenhuma surpresa, esses números acompanham a renda familiar. Em 2018, mais da metade das mulheres que viviam com menos de US$ 25 mil por ano entre as idades de 40 e 45 relataram ter dado à luz aos 25 anos; entre as mulheres que ganhavam US $ 100 mil ou mais, a participação era um pouco mais de 30%.

Outros fatores também podem desempenhar um papel importante, como raça e país de origem: um estudo de 2014 do Centro de Controle e Prevenção de Doenças observou que as mães brancas geralmente davam à luz pela primeira vez por volta dos 27 anos e as mães negras o faziam com cerca de 24 anos. As mães asiáticas e das ilhas do Pacífico tinham, em média, mais de 29 anos, e as mexicanas-americanas, pouco menos de 24.

E tem também a geografia. Ao longo das costas leste e oeste, as mães tendem a ter seus primeiros filhos mais tarde do que as mulheres no interior do país. Em Washington, onde tive minhas duas filhas, as mães recebem seus primogênitos, em média, por volta de 28,9 anos; no condado de Tarrant, Texas, onde nasci e fui criada, essa idade fica mais próxima de 25,7 – apenas alguns meses mais velha do que eu era quando minha filha mais velha chegou, numa manhã de junho de 2016.

Juntas, as tendências listadas acima compõem um retrato do atraso da geração do milênio: profissionais altamente qualificados que vivem em grandes centros urbanos – em outras palavras, pessoas como eu, branca, escritora em tempo integral, com mestrado, que vive perto da cidade de Nova York – tendem a adiar o parto até o final dos 20 e início dos 30 anos. Quando pesquisadas, muitas das jovens relataram que optaram por adiar os filhos porque queriam ganhar mais dinheiro primeiro, devido (entre outros) ao alto custo dos cuidados com as crianças e ao peso da dívida estudantil; outras citaram o preço da habitação, a instabilidade política e o medo das mudanças climáticas.

A geração do milênio que ainda não teve filhos e não sabe se vai ter contou ao Times, numa pesquisa de 2018, que não quis sacrificar o tempo de lazer, que não encontrou o parceiro certo (correntes semelhantes parecem estar subjacentes à tendência de casamento posterior entre as gerações mais jovens), que não têm certeza de que seriam bons pais.

Quanto ao dinheiro, os pais hesitantes estão precisamente certos. Eu bem sei: embora meu marido e eu não estivéssemos na pobreza, entendíamos o que significava ter um emprego precário e estar no início das nossas carreiras. Quando eu tinha 25 anos e estava com 20 semanas de gravidez, a revista para a qual escrevia foi abruptamente posta à venda – junto com a atraente política de licença-maternidade inscrita em nossos contratos.

Acabei fazendo entrevistas para uma série de novos empregos vestindo um blazer bem grande, esperando que ninguém detectasse que eu estava me candidatando por duas pessoas (todo mundo notou). Nenhuma carreira vem sem riscos, mas a precariedade do início da carreira e as poucas economias certamente aumentam o risco de ter filhos na casa dos 20 anos.

A preocupação razoável de ter filhos antes de se estabelecer poderia, teoricamente, ser remediada com uma abordagem política generosa. O governo Biden demonstrou, com razão, algum interesse em levar adiante alguns desses benefícios. Essas propostas não são nem de longe tão luxuosas quanto as oferecidas na Escandinávia, mas ainda representam uma melhoria em relação à situação americana. (Os opositores observarão que as maravilhas do bem-estar nórdico ainda apresentam taxas de natalidade pouco inspiradoras, ao que eu responderia que benefícios integrais para as famílias são bons, independentemente de aumentarem as taxas de natalidade ou reduzirem adiamentos, porque os principais beneficiários são, afinal, as crianças, e seu valor é evidente).

Mas e quanto a ter filhos – ou casar, aliás – antes de se estabelecer? Isto é: o que dizer ao jovem que está questionando esse tipo de compromisso, se não pela finalidade de tudo, pela mera sensação de que estaria criando outra pessoa antes mesmo de saber quem ele próprio é? O aviso de segurança da companhia aérea vem à mente: “em caso de despressurização da cabine, fixe sua máscara de oxigênio antes de tentar ajudar outros passageiros com quem você possa estar viajando”. A companhia aérea não chega a dizer: “senão vocês dois estarão ferrados”. Mas você sabe que é isso que ela quer dizer.

Esse pensamento certamente me passou pela cabeça. Quando engravidei, meu marido era advogado novato e eu, jornalista novata. Para nós, uma grande noitada consistia em ir até o Popeyes mais próximo para comprar uma caixa de biscoitos, arroz e uns potes de feijão vermelho.

Nosso apartamento tinha paredes amareladas e um único ar-condicionado na janela com um som como se alguém estivesse morrendo permanente. Na minha memória, lá era sempre verão, porque todos os dias passavam com aquela moleza veranil, a euforia da possibilidade infinita suavizada pela sensação de nenhuma pressa em particular. Nós dois sabíamos que ainda estávamos esperando para nos tornar quem seríamos. Tudo era só um prelúdio.

Mas aí nos pegamos numa sala escura no consultório do obstetra, assistindo nervosamente a um ultrassom piscar e embaçar os sentidos na tela. O médico apontou para uma pálida mancha no fundo preto do meu útero. Parecia o fantasma de um amendoim. E então ele ajustou algum botão na máquina e ecoou uma batida de coração. De alguma forma, mesmo depois da surpresa da gravidez em si, eu ainda conseguia ficar atordoada – e fiquei.

Gastamos nossa primeira parcela de ansiedade com as questões materiais. Precisaríamos de um lugar maior? E, em caso afirmativo, como poderíamos pagar por ele? Quanto conseguiríamos economizar até o Dia D? Como pagaríamos os cuidados pré-natais, visto que eu ainda estava no plano de saúde da minha mãe, que não cobria cuidados de maternidade para dependentes? Nossos empregos não eram estáveis. Não tínhamos ideia de quando ou se seríamos demitidos, nem se nós estávamos de fato no ramo de trabalho certo. Posses mundanas, autocompreensão e confiança estavam em falta.

Aí ela nasceu.

Uma das coisas que as pessoas não dizem sobre ter bebês é que você nunca terá um bebê: você terá o seu bebê, que será, para você, o bebê supremo, a soma de todos os bebês. No momento em que colocaram seu corpo úmido e rosado no meu peito, eu sabia que ela tomaria todo o meu mundo. Eu estava preocupada exatamente com isso.

No romance Maternidade, de Sheila Heti, a narradora, uma escritora cínica que se pergunta se deve ter filhos antes que seja tarde demais, lamenta a ausência de novos pais na vida de seus amigos, um fenômeno que ela chama de “aquela alegre e aliviada deserção”. “Quando uma pessoa tem um filho”, escreve Heti, “ela se volta para o filho”. O risco de sair do mundo me assombrava. Quando você tem um bebê, você de fato se volta para ele – “aquela alegre e aliviada deserção” pode afetar seus amigos, mas, primeiro, afeta você mesma.

O que eu não entendia – e nem poderia entender, na época – era que se abandonar por outra pessoa na verdade é um alívio. Meus dias começaram a se desenrolar de acordo com a programação dela, aquele ritmo estranho dos recém-nascidos, e as preocupações que eu nutria eram melhores do que as anteriores: mais concretas, mais vitais, menos amarradas aos confins claustrofóbicos de meu próprio crânio. Para esta integrante de uma geração notoriamente atormentada pela ansiedade, foi uma libertação bem-vinda.

Ser jovem, ou jovem o suficiente para não se conhecer por inteiro, e então sentir os fundamentos de sua personalidade nascente mudando debaixo dos seus pés – talvez seja exatamente o tipo de mudança que deixa todo o empreendimento tão assustador. Ainda assim, desisti do jogo: com exceção de – talvez – algumas características imutáveis, você não é algo que descobrirá um dia, por tentativa e erro ou exploração interior; você é algo que está em constante processo de transformação, a invenção de revoluções sem fim. Você nunca sabe quem você é porque a pessoa que você é está sempre mudando.

Você tem um vislumbre de si mesmo no tempo, quando a vida brilha em seu mundo interior como um prisma, iluminando todas as diversas cores que você tem. Não é possível separar a luz da cor, a descoberta da mudança da própria mudança. E acho que assim está tudo bem.

Aos 25 anos, amamentei minha filha recém-nascida ao nascer do sol num apartamento de quinto andar em Washington, sonhadoramente me perguntando o que tinha acontecido comigo, que até então também era uma criança. Perscrutei seu lindo rosto. É difícil discernir muito de seus traços nessa idade, porque são ainda muito novos e disformes. Mas ela olhou para mim debaixo da sombra do meu ombro, e eu pude ver a cor dos meus próprios olhos tomando forma nos dela. Lá estou eu, pensei, lá estou eu. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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