Justin J Wee/The New York Times
Justin J Wee/The New York Times

Os desafios de Max Harwood até sua estreia em 'Todos Estão Falando sobre Jamie'

Max Harwood, fazendo sua estreia profissional com o filme musical 'Todos Estão Falando sobre Jamie', tem "esse tipo de magia sobre ele"

Alexis Soloski, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 05h00

Dois anos atrás, Max Harwood fez um vídeo em seu quarto. Aluno do segundo ano em uma escola de teatro musical em Londres, ele se apresentou e disse de onde era. Contou que, quando criança, colocava uma enorme peruca e cantava as canções de Rizzo em Grease – Nos Tempos da Brilhantina, fazendo sua avó rir tanto que ela quase se urinava.

Esse vídeo curto foi a primeira audição de Harwood para o filme Todos Estão Falando sobre Jamie, adaptação do brilhante musical do West End sobre um adolescente no norte da Inglaterra que sonha em ser drag queen. Em busca de novos talentos, os produtores fizeram uma convocação aberta e receberam milhares de vídeos. Jonathan Butterell, diretor do filme, assistiu a quase todos eles, e Harwood se destacou imediatamente. "Ele tinha um tipo de magia. É fabuloso sem ser arrogante", definiu Butterell. O diretor chamou Harwood mais seis vezes, para testes de dança, sessões de gravação, leituras e desafios de drag. A magia não desapareceu.

Assim, Harwood – que não tinha créditos profissionais, não conseguia ingressar em uma escola de teatro de primeira classe e chegou a ser aconselhado a tentar trabalhar como figurante – agora está calçando alguns sapatos de salto muito alto. Seu cabelo loiro bem claro e aparência de principezinho ocupam quase todos os quadros de Todos Estão Falando sobre Jamie", disponível atualmente no Amazon Prime Video. "Entrei nesse filme com meu lado queer e meu conforto. Sou esse cara", comentou Harwood, de 23 anos, em uma noite recente enquanto descansava em um sofá no hotel Crosby Street em Nova York.

Ele cresceu em Basingstoke, cidade no centro-sul da Inglaterra que não conta com uma companhia de teatro profissional, e sabia que queria ser ator, mesmo que as escolas de teatro para as quais ele se inscrevia não o vissem da mesma forma. Mas sua companhia de teatro local lhe deu uma bolsa de estudos para um curso de um ano na Guildford School of Acting. Os professores de lá não o encorajaram totalmente. "Eles me disseram que, se eu quisesse fazer teatro musical, por causa de minha aparência provavelmente seria escalado como figurante; disseram também que eu precisava melhorar minha dança. Não sou, tipo, o protagonista forte." O que exatamente havia de errado com sua aparência?

Ele foi encaminhado à Urdang Academy, em Londres, para um programa de treinamento em teatro musical. Embora gostasse das aulas, teve de lutar. Queria se destacar, e o trabalho de um figurante, que tem de se parecer com os demais e dançar como estes, nunca combinou com ele. Não deveria fazer o teste durante o programa, mas ele já tinha assistido a Todos Estão Falando sobre Jamie no palco e adorado a história centrada em um jovem gay que não dependia de trauma. "Ele não morreu no fim. Não era um alívio cômico. Não apareceu para duas cenas para ser o melhor amigo gay. E isso foi muito bom", disse Harwood.

Então, quando um amigo lhe contou sobre a convocação para o filme, ele gravou o vídeo. Durante os meses de audições que se seguiram, manteve-se na escola e no emprego de meio período como supervisor em uma loja de tênis. Nunca pensou realmente que Butterell e os produtores o escalariam, mas, quando foi chamado para um teste de maquiagem completo, ele se permitiu sonhar.

Butterell concebeu o musical depois de assistir ao documentário da BBC Jamie: Drag Queen at 16 (Jamie: o drag queen de 16 anos, em tradução livre), que acompanhou Jamie Campbell, adolescente inglês que queria usar um vestido para ir ao baile de formatura. Todos Estão Falando sobre Jamie estreou em Sheffield, no norte da Inglaterra, e rapidamente foi transferido para o West End em Londres. No The New York Times, o crítico Ben Brantley chamou essa produção de um "espetáculo determinadamente inspirador".

Para a adaptação do musical para a tela, Butterell e os outros criadores – o roteirista Tom MacRae e o compositor Dan Gillespie Sells – não queriam um protagonista robusto para interpretar Jamie. "Porque o que é radical em Jamie é o fato de ele ser um herói masculino autenticamente afeminado. É algo que não se vê com frequência", observou Gillespie Sells. Os criadores viram isso em Harwood. Quando Butterell o informou de que ele conseguira o papel, Harwood gritou, soltou palavrões e perguntou se poderia ligar para a mãe.

Todos Estão Falando sobre Jamie não é uma história de alguém que sai do armário; Jamie já é assumido. Em vez disso, é a história de alguém que persegue com confiança sua identidade, com calçados adequadamente glamorosos. A história de Jamie não é realmente a de Max Harwood. Embora este gostasse de se fantasiar, nunca se sentiu compelido a se montar de drag queen. Mas, novamente, talvez seja a história de todo mundo: será que todos não querem ser vistos como realmente são?

Harwood aprendeu com facilidade a coreografia, assim como as canções, que, em sua maioria têm influências pop e de R&B. Gillespie Sells elogiou sua voz: "Era exatamente aquela coisa, aquela voz pop muito pura, jovem e perfeita que era tão boa para Jamie, porque o personagem é a personificação do pop. Tudo nele é brilhante e promissor".

Max Harwood nem sempre se sentiu esperançoso. Butterell, no entanto, nunca duvidou dele. Nem seus colegas, incluindo Richard E. Grant, que tem uma atuação comovente como a mãe drag de Jamie. "Ele parece muito jovem, canta e dança de acordo com seu temperamento, é emocionalmente aberto e generoso, instantaneamente adorável e, claro, tem um talento enorme", escreveu Grant sobre Harwood por e-mail.

Mas houve momentos – como uma cena entre Jamie e seu melhor amigo, Pritti (Lauren Patel) – em que Harwood temeu não conseguir interpretar o personagem corretamente. Ficou assustado. Sentiu-se vulnerável. Butterell o chamou à parte e o orientou a respirar. Talvez, nesses momentos, Jamie também tenha se sentido vulnerável, sugeriu Butterell.

No dia em que filmaram a performance de Jamie como drag, a ansiedade transbordava, mas Jamie Campbell, a inspiração do musical, estava no set. "Eu disse a Jamie: 'Estou com tanto medo, tanto medo.' E ele me respondeu: 'Você está no lugar exato. E, se não estivesse sentindo isso, não seria um ser humano'", lembrou.

Assim, a ansiedade de Max Harwood se tornou a ansiedade de Jamie, que oferece camadas de lantejoulas e chiffon ao musical com uma autenticidade febril. Se o filme é sobre Jamie saindo do armário à sua maneira, também é sobre Harwood fazendo o mesmo. "Max fez uma jornada semelhante à que Jamie está fazendo. E foi procurar quem ele era nisso tudo. Max e Jamie se encontram na dualidade de pura alegria e do medo que precisa ser superado para que essa alegria seja mantida", comentou Butterell.

Estrelar um musical é mais uma alegria. Mas, mesmo uma década atrás, jovens atores queer poderiam ter se preocupado com o fato de estrear no cinema em um papel como o de Jamie, porque isso poderia levar a um futuro estereotipado. Isso não incomoda Max Harwood. Ele acredita na história de Jamie, que descreve como "um pequeno feixe de luz, esperança e alegria".

Esparramado no sofá em Nova York, o ator disse que aquela história, por mais universal que seja, é apenas uma história – e os jovens queer merecem mais. "Estou muito feliz por ser uma voz para minha comunidade. Mas há muito mais histórias a ser contadas."

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