The New York Times
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Me despedindo da minha mãe

Não sou médica, nem sou muito corajosa, mas quis fazer o que ela pediu

Sarah Lyall, The New York Times

08 Setembro 2018 | 10h00

Procuro maneiras de adiar isso o máximo possível e, assim, começo a assistir um episódio da série de TV “The Americans". Hoje, Keri Russell, que interpreta uma agente russa, está espionando um funcionário do departamento de estado enquanto se finge de enfermeira da mulher dele, em fase terminal de uma doença.

A agente é uma assassina fria, mas sente pena do funcionário, cujas tentativas de ajudar a mulher a morrer usando morfina resultaram no limbo que ela habita agora, nem viva, nem morta. Assim, Keri Russell termina o serviço enfiando um pincel na garganta da mulher e segurando uma sacola plástica sobre a sua cabeça.

Não é uma boa hora para assistir uma cena como essa.

No momento, minha mãe está na cama do outro lado do corredor, no fim de um câncer de pulmão em estágio 4. Ela tem quase 83 anos, já não aguenta mais, e está pronta para morrer. Mais especificamente, está pronta para que eu a ajude a morrer. Entendo o ponto de vista dela.

Pessoa prática e nada sentimental, faz anos que ela se prepara para o momento em que a morte se tornaria mais atraente que a vida. Conversamos a respeito disso sem parar desde o diagnóstico, há cerca de três meses, e, como uma Gloria Swanson acabando-se em pronunciamentos grandiosos, ela declarou que não tinha intenção de se submeter à quimioterapia.

“Prefiro morrer do que perder o cabelo", disse ela, distante, ao oncologista, antes de aterrorizar o fisioterapeuta do hospital dizendo: “É provável que eu esteja morta em três meses. Acha mesmo que fará diferença se eu levantar da cama para andar cinco minutos?”

Assim, ela voltou para casa para morrer. Manteve a personalidade divertida e ácida.

“Aperte um travesseiro contra o meu rosto e acabe logo com isso", dizia ela, meio brincando, quando eu a via todas as noites. “Já morri?” dizia ela de manhã, genuinamente frustrada com o fato de o câncer terminal se recusar a seguir o cronograma imaginado.

Gradualmente, a doença se impôs, o inevitável se tornou menos abstrato e as piadas cessaram. Minha mãe tinha sonhos vívidos de mortes tão horríveis que não era nem sequer capaz de descrevê-los. Ficou fraca demais para sair da cama, perdendo um pouco mais de sua independência a cada dia, como uma bexiga que vai murchando. Seu mundo se fechava mais a cada dia.

O câncer de pulmão é uma doença assustadora. Nos seus estágios finais, o paciente tem a sensação de estar se afogando, ou sufocando. Um formidável coquetel farmacológico de medicamentos pode ajudar a suprimir os sintomas, mas não há pílula capaz de acabar com a sensação de acordar todos os dias sabendo que a morte está próxima.

Sei o que tenho que fazer, pois ela já me instruiu muitas vezes. Uma das histórias que fazem parte das tradições da nossa família diz respeito ao meu pai, já morto, que era médico e ajudou a própria mãe, minha avó Cecilia, que nunca conheci, no fim de sua vida. O câncer dela era insuportável. 

“Assim, ele aplicou nela uma grande dose de morfina para acabar com a dor", era como minha mãe sempre encerrava a história, como se fosse o fim de uma fábula. “Como efeito colateral, o coração dela parou.”

Por acaso, tenho uma grande dose de morfina aqui em casa. Tenho também doses consideráveis de codeína, Ambien, Haldol e Ativan que andei acumulando dos serviços de cuidados paliativos, como um esquilo guardando nozes para o inverno. Na minha gaveta do alto, ao lado do passaporte de mamãe, há mais de 100 microgramas de adesivos de fentanyl - o suficiente para matar a ela e vários transeuntes.

Mas não sou uma assassina treinada. Não sou uma médica. Não sou muito corajosa. Sou apenas uma pessoa que quer atender ao pedido mais importante que minha mãe já me fez. Sou também uma moradora do estado de Nova York, onde o suicídio assistido é ilegal.

Mamãe começou a perder o fio da meada no meio de frases importantes. “É importante lembrar de…” anuncia ela. “O que mais preciso lhe dizer é que…” Mas, em seus momentos de coerência, ela me olha com uma clareza que me dilacera o coração. Minha mãe, tão forte. “Oh, Sarah", diz ela. “Dói tanto.”

Então, é chegada a hora. Começo a contar os remédios. Mas, então, assisto à cena do suicídio assistido que deu errado em “The Americans” e vejo como é fácil errar a mão, e fico com medo. Os pacientes costumam desenvolver tolerância à morfina, diz Keri Russell disfarçada de enfermeira, explicando por que a dosagem mais alta não matou a mulher moribunda.

Qual será a quantidade certa, indago sozinha com um frasco de morfina nas mãos. E se mamãe engasgar, 

vomitar, entrar num limbo de quase morte, despertar e gritar comigo? Como se faz uma coisa dessas? 

Não tenho problemas com a ideia de cometer um assassinato em nome de uma pessoa moribunda a quem amamos, mas não posso pedir ajuda a ninguém - nem às enfermeiras, nem ao meu irmão - pois não quero implicar outra pessoa no meu crime.

Em pânico, entro na internet e começo a telefonar para organizações especializadas no fim da vida. A compaixão das pessoas é generosa, mas ninguém me diz (nem poderia dizer) a dosagem certa ser aplicada, nem como aplicá-la. Tento conversar com uma das enfermeiras da equipe que nos atende em casa, mas ela ameaça me denunciar para a polícia. “Não vamos falar disso", sentencia ela.

Ora, vamos sim. Ela tenta outra abordagem. “Se fizer isso, jamais poderá se perdoar", apela. Na verdade, respondo, jamais me perdoarei se não o fizer.

Mas não consigo fazê-lo. Não consigo. Prometi que o faria, mas não consigo.

As famílias são complicadas, e os relacionamentos entre mães e filhas são talvez os mais complicados de todos. Passei a vida com a sensação de nunca ter realmente acertado com minha mãe.

“Mãe", digo, finalmente. Não quero falar disso. Está muito tarde, ela está fraca, sua consciência vai e vem, e não sei por que não pensamos nessa eventualidade antes: a possibilidade de eu não suportar. Mas. Há algo que você pode fazer, digo-lhe: parar de comer e beber. Faremos com que se sinta confortável. Daremos a você tantos remédios que você não sentirá nada. Será como dormir.

Cerca de 20 minutos depois, ela emerge do torpor. “Estou pronta", diz ela, com clareza, “para dormir e não acordar mais".

No dia seguinte, ela desperta. Esse é o grau da minha incompetência. “Você prometeu que isso não aconteceria, Sarah", diz ela, a fúria vibrando em sua voz. “Sinto muito, mamãe", digo, chorando enquanto pingo mais remédios em sua boca usando uma seringa.

Ela permanece numa espécie de crepúsculo nos dias seguintes. Mas, às vezes, seus olhos se abrem, em pânico, e olham ao redor, cheios de medo. É como se tudo tivesse se tornado muito primal, exigindo um instinto de improvisação que não possuo.

Assim, faço aquilo que sempre me acalmou, desde quando tenho idade para ler. Pego um exemplar de “A Menina e o porquinho” e leio os dois últimos capítulos - dessa vez em voz alta - quando a aranha Charlotte morre depois de viver sua vida singular e estilosa, e três de suas aranhas-filhotes constroem teias no canto do celeiro para poderem ficar com o porquinho Wilbur.

Eu sempre chorava ao ler esta parte para minhas filhas, anos atrás, quando eram pequenas, e choro novamente ao ler para minha mãe.

Você não está sozinha, repito. Vai seguir vivendo, como Charlotte, por meio de suas netas e das netas delas. Está tudo bem. Pode partir.

Ao depositar o livro na mesa, vejo que seus olhos estão fechados, finalmente, e sua respiração está regular: fraca, mas calma.

É necessário mais um dia. Pelo visto, há diferentes maneiras de se ajudar alguém a morrer.

Sarah Lyall é a autora de “The Anglo Files: A Field Guide to the British"

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