Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times
Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times

Medalhista paralímpico é herói local no Aberto da Austrália

Dylan Alcott, paraplégico, é morador de um subúrbio australiano e considerado uma celebridade entre os atletas da competição

Ben Rothenberg, The New York Times

10 Fevereiro 2019 | 06h00

MELBOURNE, AUSTRÁLIA - Pode demorar um pouco até Dylan Alcott, 28 anos, morador paraplégico de um subúrbio próximo, chegar onde deseja nas instalações do Aberto da Austrália. Não é que ele seja lento: o problema é sua grande popularidade. 

"Quando eu era criança, as pessoas ficavam me olhando porque eu estava na cadeira de rodas, e eu detestava isso", disse Alcott. "Hoje, ficam me encarando porque me reconhecem. Não é demais? Agora pensam ‘Lá vem o Dylan!’, e não ‘Lá vem um cadeirante’."

Depois de conquistar a medalha de ouro no basquete paralímpico em 2008 jogando basquete na cadeira de rodas, Alcott dominou a divisão dos quadriplégicos no tênis em cadeira de rodas, vencendo sete títulos individuais do Grand Slam, incluindo seu quinto Aberto seguido no dia 26 de janeiro.

O tênis para quadriplégicos, praticado por atletas com pelo menos três extremidades afetadas por uma deficiência física permanente, é um universo pequeno. Mas a visibilidade de Alcott se estende além das quadras. Ele é o garoto propaganda do banco ANZ, um dos principais patrocinadores do Aberto, aparecendo em anúncios.

Alcott também trabalhou como comentarista de quadra para a emissora australiana Nine, que transmite o torneio. No restante do ano, trabalha como apresentador nas emissoras de rádio do país. "Quando eu era criança e era alvo de bullying na escola, ficava muito chateado e dizia, ‘Não conheço ninguém como eu, não vejo ninguém como eu na TV, no rádio ou no jornal, e isso é péssimo!’", afirma.

Ele não tinha se dado conta do poder do seu status de celebridade até os comerciais irem ao ar no ano passado. "Recebemos vídeos de um garotinho numa cadeira de rodas, e toda vez que o anúncio passa, ele empurra a cadeira até a tela e a abraça, porque vê alguém como ele na TV", disse.

Alcott gostou de ser aceito pelos demais atletas, conversando com Roger Federer (vencedor de 20 Grand Slams) quando o horário de seus treinos para o Aberto coincidiu. Até Stefanos Tsitsipas, que se tornou a grande revelação do Aberto ao derrotar Federer, já o conhecia. "Fui me apresentar a Tsitsipas, e ele respondeu, 'Ora, você é o sujeito mais famoso daqui, é claro que sei quem você é!'", contou.

Novak Djokovic, o primeiro colocado no ranking do tênis masculino e campeão do torneio individual do Aberto deste ano, sentou numa cadeira de rodas para jogar contra Alcott, dizendo valorizar o talento do australiano.

"A popularidade de Dylan é merecida", disse Djokovic. "É um ótimo sujeito, muito carismático. Já disse antes que considero essas pessoas verdadeiros heróis. O tênis se torna mais belo e único por causa do que eles mostram nas quadras."

Em 2016, Alcott foi presenteado com a medalha Newcombe da Tennis Australia, entregue ao melhor jogador do país. Para ele, ganhar uma medalha disputada por todos, e não apenas pelos atletas com deficiência, "foi como uma revolução".

Alcott nasceu com lipomeningocele, causando a formação de um grande tumor perto da sua coluna. Passou pela primeira de muitas cirurgias quando tinha apenas cinco semanas. Os problemas de saúde continuaram durante a infância. E, em 2012, ele rompeu uma artéria numa queda, prejudicando sua capacidade de usar a mão direita. Isso encerrou sua carreira no basquete, levando-o a dedicar-se ao tênis.

Embora trate com naturalidade os desafios que enfrenta, Alcott busca compartilhar também o lado normal da vida. É por isso que, na sua autobiografia, “Able” [Capaz], um best-seller publicado no semestre passado, disse ele, "Relato a primeira vez que fiz sexo, conto das minhas viagens, tudo. É muito bom ter uma plataforma para contar esse lado da vida".

Alcott fundou seu próprio festival de música, atendendo às necessidades especiais das pessoas com deficiência. Ele também fundou um grupo de consultoria que trabalha para melhorar a interação das organizações com as pessoas com deficiência. E a fundação dele financia oportunidades para pessoas com deficiência.

"Por que não vemos pessoas com deficiências nos conselhos das empresas, e na cultura em geral?", questionou Alcott. "Isso acontece porque essas pessoas não têm oportunidades, e é isso que desejo mudar. Eu ficava muito chateado, e pensava, ‘Não conheço ninguém como eu. Não vejo ninguém como eu’."

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